Luís Francisco

O Peloponeso é uma península, dizem as enciclopédias. Mas não é – é uma ilha. E eu posso confirmar, porque vi com os meus olhos a obra ciclópica que no final do século XIX cortou a direito pelo calcário ao longo de mais de seis quilómetros de istmo, transformando efectivamente esta massa de terra com mais de 15.000km2, o triplo do Algarve, numa ilha. São 6343 metros de extensão, 21,3 metros de largura ao nível do mar e 24,6 cá em cima, a uns bons 90 metros de altitude. O canal de Corinto é uma visão siderante. E ainda hoje me pergunto quais eram realmente as probabilidades de, numa viagem de horas, eu ter entreaberto os olhos exactamente no momento em que o autocarro entrava no curto viaduto que nos levaria ao outro lado?
Bom, a 100km/h, vamos pensar em duas horas e meia de viagem, a passagem pelo canal terá demorado uns… enfim, é fazer as contas. Mas o melhor será contar a história de outra maneira.
Um enviado especial aos Jogos Olímpicos dorme pouco. E trabalha muito. Se for português e estiver ao serviço de um jornal diário generalista, então, posso garantir, dorme pouco, trabalha muito e cumpre umas boas três semanas de enfiada sem folgar. Por isso, peço a vossa compreensão para o facto de ter feito a maior parte da viagem de 215km entre Atenas e Patras, no Peloponeso, de olhos fechados.
O jogo estava marcado para as 18h30 e representava uma grande aposta para quem tem o tempo e a energia muito limitados. Mas jogava a selecção portuguesa de futebol. Uma equipa repleta de grandes jogadores, incluindo um tal de Cristiano Ronaldo que já fazia maravilhas em Manchester, mas também Tiago (Chelsea), Fernando Meira (Estugarda), Boa Morte (Fulham), Hugo Viana (Newcastle), Bosingwa, Bruno Alves, Hélder Postiga, Raul Meireles e Ricardo Costa (FC Porto), Carlos Martins e Danny (Sporting). Entre outros. Candidata às medalhas nos Jogos 2004, dizia-se. O primeiro adversário era o Iraque, seguir-se-iam Marrocos e Costa Rica.
O autocarro chegou à porta do estádio já com as equipas em campo. Aconteceu algo muito comum nestes grandes eventos: o motorista não sabia o caminho. Já com os holofotes à vista, embrenhou-se num dédalo de pequenas ruas e acredito que ainda hoje por lá andaríamos não fosse a intervenção destemida de um jovem mancebo de robusto bigode que, saindo da tasca ainda de cerveja na mão, montou a sua acelera e conduziu a caravana até bom porto.
Depois foi o descalabro. Portugal perdeu 4-2, jogou mal, nunca pareceu ter realmente a noção do que estava ali a fazer e teve um jogador expulso (até deviam ter sido dois, porque Ronaldo perdeu a cabeça e agrediu um adversário). No final da partida, o olímpico treinador, José Romão, estava tão aflito ao enfrentar os jornalistas que, antes que alguém lhe fizesse a primeira pergunta, lançou-se num monólogo que durou mais de 15 minutos… Mal sabia ele – alguns de nós, depois do jogo, já desconfiávamos… – que aquele tinha sido apenas o primeiro acto de uma campanha miserável, culminada com mais uma derrota, também por 4-2, frente à Costa Rica, e o último lugar do grupo. E lá se foi o sonho das medalhas.
Hoje, se me esforçar, consigo lembrar-me da expulsão de Boa Morte, do mau feitio de Ronaldo, de um grupo de iraquianos cantando e dançando nas bancadas. Mas pouco mais. Na verdade, o que me ficou foi a visão fugaz das paredes cor-de-rosa do canal de Corinto e a figura inolvidável do motoqueiro apontando o caminho com uma garrafa de cerveja. São essas as minhas grandes memórias do jogo que nunca devia ter visto. Isso e chegar a Atenas de madrugada e andar tudo na rua. É difícil dormir durante uns Jogos Olímpicos.


Jornalista da Revista de Vinhos e comentador da TVI, fez a cobertura dos Jogos Olímpicos de Barcelona 1992, Sydney 2000 e Atenas 2004, ao serviço do jornal Público.

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