Luís Filipe Borges

Há, no lado mais obscuro do futebol português, um dia misterioso, uma nota de rodapé enigmática, o momento em que – por ínvias e travessas artes do destino – um jogo se disputou comigo nas redes duma baliza e Vítor Baía como keeper da outra.
Espinho, vésperas do Mundial de Futebol de Praia de 2015, um estádio por inaugurar no areal. Com direito a autocarro e concentração num hotel, duas equipas mistas que incluem, entre outros, internacionais que viriam a sagrar-se campeões do mundo dias depois, futebolistas de 11, comediantes, actores, e Naya – internacional pelo Taiti.
A partida é organizada pela FIFA, que aproveita para testar o alinhamento: há uma hora para chegar, um tempo para nos equiparmos nos balneários, a altura certa para aquecer, regresso aos bastidores, alinhamento lado a lado no túnel e retorno ao recinto. Tudo decorre com precisão suíça. E é a cinco minutos da entrada e de escutarmos os hinos de cada equipa (Ukra, nosso capitão, escolheu Xutos & Pontapés) que, perfilados no túnel, este benfiquista que vos escreve se viu lado a lado com um dos mais titulados futebolistas do mundo. Deu para um momento Polaroid, uma gargalhada dele, e a minha sensação de que Baía, sendo o jogo a feijões e tendo como rival um amador com menos um metro de altura, facilitaria. Erro crasso.
O jogo vai decorrendo com algum fervor, aqui e ali belas jogadas, e cerca de 1500 almas (!) nas bancadas. Uma das jogadas: Bruno Cabrerizo, actor e antigo futebolista de praia pelo AC Milan, desembaraça-se de dois adversários e cruza para António Raminhos. O comediante mata no peito e remata sem deixar cair. Baía estira-se e defende com estilo. Na recarga, Filipe Gaidão atira com tudo. Felino, Baía vai buscá-la outra vez. “Estou lixado”, penso – na altura utilizando outro substantivo, aqui irreproduzível – sobretudo quando, no contra-ataque, o futsalista Cardinal e o taitiano Naya combinam com rapidez e em volley para depositar um golaço na gaveta.
Também me enganei. Fazendo das tripas coração, lá fui aguentando com boas saídas da baliza e reflexos rápidos, mesmo quando sofri um golo de canto no qual os meus colegas (e torres) Gaidão e Madjer içaram o adversário Josué para este chegar de cabeça a um cruzamento de Francisco Menezes. Pronto, a partida é amigável, o público estava divertido, o jogo também.
4 a 4 e resolvo arriscar uma saída da baliza, Belchior e Coimbra estão por perto mas agora vou lançado e tenho vergonha de reconhecer que errei. Felizmente, Bilro – antigo capitão da União da Leiria – decide placar-me, pondo fim ao sofrimento da minha equipa. Ora, segundo as regras deste desporto, quem sofre a falta tem de marcá-la. Aliso a areia e vejo, lá ao fundo, o intransponível Baía. Sim, está prestes a acontecer na minha vida o momento em que dispus da hipótese de bater o guardião do FCP, maior rival da minha infância, adolescência, esmagadora maioridade. Tremem as perninhas como varas verdes. Chuto. A areia ajuda com dois ressaltos, mas Vítor obviamente defende. Lança o ataque. Jogada com um total de três toques, típica do futebol de praia. Cabeceamento ao ângulo e, para espanto de todos e bruá do estádio, este vosso que orgulhosamente vos escreve vai buscá-la lá no sítio onde a coruja dorme. O jogo está empatado e, indica o mostrador electrónico, faltam apenas 10 segundos para o fim. Salvaguardei o empate, penso, dando pulos mentais de alegria e invisíveis palmadinhas nas próprias costas. Só falta este pontapé de canto. Ena.
Lamentavelmente, creio que Naya, capitão do Taiti, não terá recebido o memorando sobre a natureza amistosa do jogo. Cruzamento… e ele fuzila-me, sem deixar a redondinha salpicar-se dum único grão de areia. Golo, apito final, ganham os Amigos de Baía. Mas esta tarde gloriosa, bem como meia dúzia de grãos de areia em sítios recônditos do corpo, já ninguém me tira.


Notabilizou-se como apresentador, desde A Revolta dos Pastéis de Nata até 5 para a Meia-Noite. Agora também sobe aos palcos com Marco Horácio e António Raminhos, em Três é Demais.

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