Luís Costa Branco

O futebol é bem capaz de ser uma das atividades que mais prazer me dá. Mais do que ver, gosto de jogar. E se recuar até às minhas memórias mais distantes, há sempre uma bola que aparece. Seja nos jogos na escola primária, seja nos jogos de rua com as pedras da calçada a fazerem de baliza, seja nas ‘futeboladas’ feitas no aquecimento dos treinos de judo – modalidade que acabou por ser aquela que segui como atleta federado.
Mesmo assim, não me considero um fanático pela modalidade e, apesar do meu clubismo inquestionável pelo Benfica, também não me vejo como um adepto doente do meu clube. Talvez aqui a deontologia própria da minha profissão me tenha desenvolvido um auto-controlo emocional que me permitiu manter, a olho nú, um distanciamento em relação à espuma dos dias do nosso futebol.
Tornei-me sócio porque o meu avô, esse sim um doente, resolveu exercer a sua influência e inscreveu-me como sócio do Benfica quando eu tinha meses de vida. Em meu nome, contribuiu materialmente (como era habitual na época) para a construção do complexo de piscinas que existia no antigo Estádio da Luz. Ainda hoje, guardo um recorte do jornal ‘O Benfica’ com a notícia dessa minha ‘contribuição’ para o clube. Foram muitas tardes de fim de semana passadas com o meu avô a assistir aos jogos das reservas e das modalidades. Fui praticante de ginástica e natação do SL Benfica e vivi, durante quase vinte anos, a 100 metros da antiga sede do clube na Avenida Gomes Pereira (hoje em dia, a Junta de Freguesia de Benfica. Curiosamente, o local onde pratiquei judo durante mais de dez anos).
Um dos momentos de maior exuberância clubística da minha parte aconteceu quando eu teria uns 10 anos. O meu padrasto (que gosta bastante de futebol, ao contrário do meu pai) foi a pessoa que mais me ensinou a jogar à bola. Um certo dia, disse-me que íamos a um treino no Benfica porque estavam a fazer testes aos miúdos da minha idade para ver quem ‘ficava’. Recordo-me da emoção de ir comprar umas chuteiras Stratos (brancas e pretas porque, nessa altura, só existiam botas assim). Quando chegou o dia do treino, lá fomos para o campo pelado, junto às antigas piscinas, e lembro-me de ser chamado para me juntar a uma serie de rapazes da minha idade para fazermos um jogo. O senhor que falava connosco, confesso que não sei quem era, começou a perguntar quem queria jogar nas diferentes posições e, sendo eu timido, lá me mantive calado porque havia sempre muita gente a oferecer-se para os vários lugares. Até que chegou a vez do extremo esquerdo. Ninguém disse nada e resolvi levantar o braço, mesmo não sendo canhoto. A verdade é que, graças à persistência do meu padrasto, eu tinha aprendido a jogar com os dois pés, ainda que o pé direito tivesse nessa altura mais consistência do que o esquerdo. O jogo começou e, sinceramente, não sei se joguei bem ou mal, mas a verdade é que, a certa altura, lá fui chamado pelo senhor ao centro do campo, enquanto o jogo continuava. Pediu o meu nome, respondi. Perguntou a minha idade e, de novo, respondi. O que se seguiu foi um muro a cair em cima de mim: “Oh, com essa idade, devias ter vindo noutro dia!”. Não me lembro se voltei a jogar ou como fui para casa. Só me recordo do meu padrasto tentar minimizar as coisas, sugerindo que fossemos ao Belenenses, Sporting ou Futebol Benfica (Fófó) porque, supostamente, seria possível que ‘ficassem’ comigo. A minha reação foi imediata e próxima disto: “Não! Ou é no Benfica ou então não é em lado nenhum!”. Mal sabia eu, com essa idade, que um miúdo podia começar a jogar num clube e vir a mudar para outro, caso tivesse talento. O meu padrasto ainda insistiu, mas não resultou e, com pena dele, acabaram aí as minhas possibilidades de aprender mais sobre futebol e, quem sabe, poder vir a jogar federado.
Jogar futebol continuou a ser um dos momentos mais libertadores para mim. Adoro competir, ganhar e o esforço físico, mas não suporto falta de desportivismo, talento desperdiçado e quem perde tempo a fintar quando o objetivo do jogo é colocar a bola na baliza do adversário. Foi a jogar futebol que tive a minha lesão mais grave (ruptura total do ligamento cruzado anterior sofrida no campo do CIF), mas depois de ser operado, só queria voltar a jogar com os meus amigos. A medo, voltei mas valeu a pena…


Jornalista, começou na Rádio Clube de Sintra, passando depois pela Turbo, TSF, CNL e SIC Noticias, onde esteve até 2009. Aí foi chefiar a delegação do SOL em Angola e, em 2013, entrou para a BTV.

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