Luís Afonso

Pode parecer estranho que alguém que colabora na imprensa desportiva há cerca de três décadas não seja genuinamente adepto de futebol. Mas é o meu caso. O que sempre me atraiu foi o desporto motorizado: carros, motos, tudo o que andasse depressa e fizesse barulho. O meu sonho era ser piloto de Fórmula 1, o Alentejo dos anos 70 é que não seria propriamente o sítio certo para dar seguimento à vocação. Ainda hoje não perco uma corrida. Se estiver a dar na TV um grande prémio ao mesmo tempo de um jogo de futebol (mesmo que seja um “derby” ou um “clássico”) é garantido que vejo o grande prémio. Posso tentar fazer o contrário, mas acaba por ser mais forte do que eu e já sei que fico com os olhos colados ao ecrã até a corrida acabar. Cresci, pois, sem aquele fascínio que os miúdos costumam ter por jogar à bola e sem perceber do assunto (pensava, por exemplo, que o Pelé era um jogador português e que o Ajax era a equipa de um conhecido detergente). Enfim, na minha infância/adolescência, os únicos contactos que mantive com o chamado “desporto-rei” resumiram-se aos jogos do clube da minha terra, o Sport Clube Mineiro Aljustrelense (e, diga-se de passagem, o futebol do Mineiro Aljustrelense não tem estado nada mal: nestes meus 51 anos de vida, conquistou tantos títulos internacionais quantos os conseguidos pelo Benfica ou pelo Sporting).
Quando cheguei à Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, em 1984, para estudar Geografia, já estava mentalizado de que passara ao lado de uma gloriosa carreira automobilística. Certo dia, um colega de curso que jogava na selecção de futebol da Faculdade perguntou-me se eu queria participar nos treinos de conjunto. Eram 17 ou 18, precisavam de mais quatro ou cinco para simular um jogo a sério. Disse-lhe que não tinha qualquer jeito para a bola, o que se tratava de uma evidência, tendo em conta o relatado no parágrafo anterior. Que não fazia mal, respondeu-me ele, o objectivo era ter lá essas presenças por causa das posições em campo e tal. Aceitei. De qualquer forma, precisava de me mexer, e eram só duas vezes por semana. E assim apareci no estádio universitário, com umas “chuteiras” emprestadas (que nem eram o meu número) e sem outras perspectivas para além de correr e de me divertir um pouco. O treinador (que era um nosso colega de Línguas e Literaturas Modernas, mas queria ser tratado por “míster”) chamou os novos elementos e explicou-nos o que pretendia de nós. A mim ordenou-me que ficasse no ataque e não recuasse muito. A ideia era tão-só “trabalhar o posicionamento da defesa”. Acontece que marquei quatro golos, três deles só de “encostar” e o último completamente involuntário: o guarda-redes saltou com um avançado e um defesa e ficaram os três caídos enquanto a bola foi a saltitar até à linha de fundo, no limite da pequena área, onde eu a chutei na direcção da baliza, a ver se aparecia alguém a empurrá-la para dentro. Mas não, entrou directamente, com um “efeito impossível”. O “míster” veio ter comigo no final do jogo-treino e manifestou o desejo de me inscrever na equipa. Notara em mim um “faro de golo”, um “killer instinct” (pode parecer estúpido, mas ele disse mesmo isto). Eu comecei a rir e disse-lhe que fora por acaso, uma sorte do caraças, mas não serviu de nada, ele inscreveu-me mesmo.
Escusado será dizer que nunca mais tive a sorte do primeiro dia, nunca mais fiz nada de jeito. Era convocado para os jogos, mas não saía do banco. A dada altura do campeonato universitário, calhou-nos defrontar o ISEL (Instituto Superior de Engenharia de Lisboa). De repente, surgiu um problema: o árbitro da Associação de Futebol de Lisboa viera sozinho, era preciso nomear os dois fiscais-de-linha (ainda não tinham sido “promovidos” a árbitros auxiliares). Nestes casos, cada equipa nomeava um. Calhou-me a mim. O árbitro explicou umas coisas, deu uns conselhos e o jogo lá começou. O nosso onze, “tacticamente evoluído” (gosto de exibir o futebolês que vou aprendendo) e com elementos de grande valia técnica, adiantou-se no marcador e chegou ao intervalo a ganhar por 3-0. A segunda parte é que foi pior. Os rapazes do ISEL, sem os vícios e as noitadas da malta de Letras, corriam, corriam e ninguém os segurava. Marcaram um, dois, três, quatro… Bem, ao quarto golo, o capitão de Letras apontou para o fiscal-de-linha que acompanhava o ataque dos futuros engenheiros – eu – e gritou “sôr árbitro, olhe, o fiscal diz que é off-side” e fez-me sinal para eu levantar a bandeirola (acompanhado em áudio por três ou quatro colegas mais próximos da linha, que berravam “levanta a bandeirola, c…!”). Mas não levantei, o que quase me valeu ser agredido pelo pessoal visivelmente transtornado da minha faculdade que estava na assistência. Podia ter começado aí uma carreira na arbitragem, afinal não menos perigosa do que a Fórmula 1. E com muita adrenalina.


Colabora com tiras diárias no Público (Bartoon), A Bola (Barba e Cabelo) e Jornal de Negócios (SA), mas também na rádio e na televisão, além de ser autor de oito livros de cartoons e dois de ficção.

Foto: António Carrapato / PÚBLICO

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