Leonor Pinhão

Há muitos, muitos anos, era eu jornalista de “A Bola” e por razões do serviço meti-me num táxi no Largo da Misericórdia e disse ao homem que ia volante:
– Boa tarde, leve-me ao Estádio de Alvalade, se faz favor.
O homem estremeceu. Senti-lhe o frémito. Arrancou e ainda no início da Rua das Taipas disse-me com a voz tomada pela emoção:
– É o Mário Jorge, não é?
O Mário Jorge era um jogador do Sporting, um rapaz moreno e de cabelo comprido e desgrenhado como o meu.
– Sou – respondi.
O taxista não voltou a abrir a boca até me deixar na Porta 10-A mas via-se que ia feliz. Não é todos os dias que se leva um Mário Jorge ao treino. Poderão perguntar-me como é que alguém pode dizer que uma outra pessoa está feliz só por lhe ver a nuca. Eu acredito que sim, que a observação atenta da parte posterior da cabeça de um homem nos diz muito sobre o seu estado de espírito. Esta é a história de uma boa ação que pratiquei abdicando de bom-grado de todas as minhas identidades. Nunca a contei ao Mário Jorge.


Notabilizou-se no jornal “A Bola”, passando depois por publicações como o “Público”, que ajudou a fundar e onde foi editora e grande repórter. Actualmente é cronista do “Correio da Manhã” e “Record”. Facebooktwittergoogle_pluslinkedinmail

Um comentário sobre “Leonor Pinhão

  1. Não sei se foi verdade——. mas torna se mais verosímil sendo você filha do grande Grande Carlos. Esses sim eram tempos da Bola. Agora nem prima… Carlosferre

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