Keso

Cresci num bairro social, no centro da cidade do Porto, algures entre a Ribeira e o Aleixo, e, como qualquer miúdo deste pedaço de margem do Douro, já nasci Dragão. O meu ano de nascimento corresponde ao ano de fundação dos Super Dragões, claque do Futebol Clube do Porto, pedaço de bancada fundamental (O Tribunal) para a história do clube e também para a minha história.
O meu Pai sempre foi um portista ferrenho, mas nos horários dos jogos, em geral, ele estava a trabalhar e nunca me podia levar ao estádio. O primeiro jogo que assisti foi um Porto-Penafiel para a Taça, decorria o ano de 1992, se não estou em erro. Coincidiu com o período de férias dele e lá fomos. Por esta altura eu tinha oito anos, uma caixa de Lego e uns marcadores como brinquedos. A minha brincadeira favorita era montar bancadas de estádio e, com uns recortes e uns desenhos, simulava aquelas bandeiras e faixas que os verdadeiros Super Dragões tinham no estádio. Lembro as históricas e belas faixas do núcleo da Trofa, da Ribeira, da Hostil e, claro, a maravilhosa faixa principal da claque.
Até aos meus doze anos consegui ainda assistir a uma porrada de jogos no Estádio da Antas, na Superior Sul, junto dos Dragões, porque havia um vizinho que fazia parte da claque e já levava o filho com ele. O filho era o meu melhor amigo no bairro. Na altura, a canalhada podia entrar com adultos e não pagava nada. Das poucas memórias da minha infância, pelo menos as mais emotivas, guardo uma boa parte naquelas bancadas de betão armado do Estádio da Antas. A infame Curva Sul.
Mais tarde, pelos meus quatorze anos, eu fiz uma série de pinturas nas faixas dos Super Dragões do meu bairro, o Bairro de Vilar, para os “Hooligans Vilar”, como se auto-intitulavam, e era mesmo normal, nas poucas vezes que eles se juntavam para ir aos jogos fora, voltarem menos de metade pois ficavam detidos pela polícia por desacatos ou delitos. Estes eram, sem dúvida, exemplos que o meu Pai não queria para mim, por isso, na altura, ele não levava a mal que eu fizesse as pinturas mas nem a ferros ele permitia que eu fosse aos jogos com aqueles delinquentes.
Um dia, eu não resisti ao chamamento. Na madrugada que antecedia um decisivo Sporting-Porto, pintávamos mais uma faixa, uma em que um pitbull com um chapéu da policia fumava um charuto. A faixa ficou pronta pela meia-noite, o bairro estava em alvoroço com a ida a Lisboa na manhã seguinte, e eu, aquele com que todos contavam para ilustrar a sua identidade destemida, mais uma vez iria ficar por terra. A noite custou-me a passar. O meu amor ao clube fervilhava, o fascínio pelos desacatos e pelo confronto com os lagartos também, eu tinha de, de uma vez por todas, fazer parte daquela cena.
Na manhã seguinte levantei-me para os ver partir. Bem cedo. As camionetas dos Dragões partiam pelo meio-dia. De autocarro, demorávamos uma hora a chegar às Antas, muitos já estavam bêbedos, drogados, outros simplesmente felizes e de marmita numa saca plástica. Eu tinha de ir. Entrei em diálogo de ideias com um Velha Guarda. Eles gostavam de mim. Eles queriam que eu fosse. Eles conheciam o meu pai. Eles sabiam que mesmo sendo um puto eu não me ficava a ninguém. Eles sabiam que mesmo sem bilhete eu entrava no estádio. Eles sabiam, mais do que eu, que eu era já um deles, como eles, ou pior. Meti-me no autocarro com eles. Fomos para as Antas e, enquanto sentado no autocarro a ouvir cânticos de apoio ao clube, a minha cabeça já só estava no meu pai, que estaria a dormir até às duas da tarde e que quando acordasse já não poderia fazer nada. Eu já estaria a meio caminho de Lisboa. Talvez no regresso as coisas ficassem azedas mas se o Porto ganhasse talvez não.
Chegamos ao estádio. Finalmente, de bilhete na mão e meio pé numa das geringonças, eu ia ser baptizado com a primeira invasão à Mouraria. Mas não. Não sem antes avisar o meu Pai. Não sem o aviso. Sim, sem permissão. Mas não sem ele saber. Foi quando subi a Fernão Magalhães com 20 escudos e procurei uma daquelas cabines telefónicas com cúpula azul.
– Estou?
– Pai? Sou eu. Estou nas Antas e vou ver o Porto com o pessoal.
– O quê? Tu não vais a lado nenhum!
Bip… bip… bip…
Desliguei.
Na vida, aprendi muita coisa. Ainda tenho muito para viver. Ainda tenho muito para aprender. Mas a primeira grande lição foi nunca atentar contra a minha consciência. Contra os meus valores primordiais. Contra a minha real vontade. A minha primeira grande lição foi nunca entrar em dívida moral (não religiosa) comigo próprio.
A meio da Ponte do Freixo, o meu pai e toda a sua ira, parou duas camionetas dos Super Dragões à minha procura. Ele era conhecido por isso ninguém levantou o bico. Ele queria saber onde estava o filho dele. Ele queria saber. Eu, voltei para casa. E por casa fiquei sem saber onde ele estava. Quando ele voltou deu-me um soco no nariz e comecei a sangrar. A lição era simples. Violenta. Mas simples.
– Se era realmente importante para ti explicavas. Falavas. Dizias. E eu deixava-te ir.


Licenciado em Cinema, Marco Ferreira é um músico e DJ do Porto que conta já com três discos de originais no repertório (“Raios Te Partam” (2003), “O Revólver entre as Flores” (2011) e “KSX2016”).

 

Facebooktwittergoogle_pluslinkedinmail

Deixe um comentário