José Nunes

Último jogo da temporada 93/94. Finalíssima da Taça de Portugal, entre Sporting e Porto. Sporting e Porto que tinham empatado 0-0, dias antes, obrigando a que a final, que, na altura, não se decidia em penaltis, tivesse de ser repetida.
Porto, comandado por Bobby Robson, treinador despedido pelo Sporting (nunca o tinha sido, até então, na sua carreira e não sei se voltou a sê-lo). Robson, que o Porto aproveitou logo, sagrando-se campeão nas duas épocas seguintes.
Sporting, com Carlos Queiroz, o homem que Sousa Cintra preferiu a Robson, para dar sequência ao trabalho feito nas selecções jovens, numa equipa que tinha Figo, Peixe, Nelson, Capucho, Amaral, Paulo Torres, todos eles jogadores que passaram pelas mãos de Queiroz, nos escalões jovens das selecções portuguesas.
E lá estava eu, jovem repórter de campo da Rádio Comercial, de serviço a essa partida, integrado numa equipa composta pelos relatores Fernando Emílio e Paulo Garcia, o comentador José Manuel Delgado e, lá em baixo, no relvado, o Carlos Botto e este vosso criado.
Jogo disputadíssimo, o Porto ganha por 2-1, golos de Rui Jorge e Aloísio, contra um de Vujacic. Ambiente impressionante nas bancadas, muito tenso, e, no final, os adeptos do Sporting “em brasa” com o árbitro. De tal forma que a entrega da taça foi muito complicada.
A equipa do Porto festejava a vitória no campo, os jogadores do Sporting, que eu acompanhava, cabisbaixos, e as condições de segurança para subirem à tribuna presidencial onde a Ministra da Educação, Manuela Ferreira Leite, iria, em representação do primeiro-ministro Cavaco Silva, entregar a Taça de Portugal, estavam longe, de facto, de serem as melhores.
E era isso mesmo que o repórter Carlos Botto, que acompanhava os jogadores do Porto, ia dizendo: “Bom, neste momento, os jogadores do Porto conferenciam, no sentido de avaliarem as condições de segurança para subirem à tribuna presidencial, pelo meio dos adeptos do Sporting, que estão em fúria com o árbitro José Pratas…”
De repente, começa-se a ouvir uma voz a entrar pelo microfone do Carlos Botto, a dizer “Éh pá… Isto vai dar merda…” Era o capitão do Porto, João Pinto, que dava conta aos colegas da sua preocupação acerca da entrega da taça…
Assim que se ouvem estas palavras, em directo, na emissão, faz-se um silêncio de alguns segundos, silêncio que é quebrado pelo Carlos Botto, assim: “E o repórter também acha que isto vai dar o que o João Pinto acabou de dizer…”


Começou no Correio da Manhã Rádio e passou pela Nostalgia, Nacional, Mais Rádio Futebol, Antena 1 e 3. É o autor do programa de rádio Linha Avançada e comentador de futebol na RTP.

Esta é uma das 20 histórias inéditas, num total de 100 presentes no livro “Relato – Histórias de Futebol”, que pode ser adquirido em todas as boas livrarias ou encomendado aqui.

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