José Carlos Freitas

Em quase 40 anos no jornalismo, como costumo dizer, acompanhei o futebol desde o Maradona até ao Cristiano Ronaldo. A primeira coisa marcante do México’86 foi que engordei nove quilos. Uma estupidez! O jornal onde trabalhava, O Jogo, era o único diário desportivo, os outros eram trissemanários, o Record, A Bola e A Gazeta dos Desportos, e era tudo a correr: comer a correr, os horários eram absolutamente incríveis, eram sete horas de diferença para cá, e naquela altura os jornais fechavam bastante cedo. Às oito da noite o jornal estava fechado e lá era uma da tarde. A essa hora, quando havia, estava a sair do treino da manhã. O dia a dia lá era absolutamente incrível.
Eu tinha estreado uma coisa que era o antecessor dos computadores portáteis: o Tandy. Era um aparelho parecido com um computador, também tinha um ecrã cinzento, e a memória daquilo dava para 30 mil caracteres, uma página do jornal. O Jogo, na altura, era em formato broadsheet, bem grande. Eu escrevia duas páginas por dia, no Tandy dava para pouco mais de uma página, depois era à máquina e o resto devia ser por telefone, mas os telefones da América são diferentes dos telefones da Europa a nível lá dos ciclos e não sei quê, aquilo não funcionava, então ditava para o gravador. Acordava às sete da manhã, estava uma hora e meia a ditar para o gravador, tinha de soletrar o nome das pessoas e dizer coisas como “dois pontos, parágrafo, travessão, abrir as aspas”, etc. Então era assim uma hora e meia. Gravava e depois havia pessoas na redacção do jornal que desgravavam e passavam a papel. Eles tinham gravadores já ligados a um telefone específico, todos os desportivos tinham isso, que tinham um controlo de pedais, para avançar e recuar, e desgravavam. Era um processo absolutamente arcaico, mas era o que havia. Ou era por telex, mas era sempre uma confusão porque só havia um no hotel e era muita gente para aquilo. Mas o Tandy era a grande novidade. Fomos daqui 24 ou 25 jornalistas e só três é que levavam isso. Tinha recebido o aparelho para aí uma semana antes de ir para o Mundial. Parece a pré-história do jornalismo moderno.
Depois ia tomar o pequeno-almoço, ia para o treino da manhã, já estava agendada uma chamada do Porto para lá, da redação principal de O Jogo, e à uma da tarde, que eram oito da noite daqui, faziam-me uma última chamada, quando a conseguíamos acertar, para fazer um ponto de situação do dia. A partir das três da tarde já estava a trabalhar para o dia seguinte. Depois era fazer o treino, depois jantar, depois falar com os jogadores com que quiséssemos, não havia assessor de imprensa da Federação, depois ia escrever até à uma da manhã para acordar às sete. E era assim todos os dias. Engordei nove quilos em quase dois meses e quando regressei a roupa já não me servia.
Esquecendo Saltillo, foi das melhores experiências que tive na vida porque fui ver os jogos e contar histórias. Vi a Argentina várias vezes, vi o Brasil e aquele grande golo do Josimar no Estádio Jalisco, que é como o Maracanã para eles. Tinham jogado o Mundial de 1970 todo no Jalisco, tirando a final, e em 1986 era suposto fazerem a mesma coisa para irem à final, mas foram eliminados. Junto ao Jalisco até há uma praça com uma estátua oferecida pela seleção brasileira aos mexicanos para recordar a campanha de 1970. E vi a mão de Deus. Estava lá naquela conferência de imprensa, que foi completamente surreal! Os ingleses atacaram o homem de toda a maneira e feitio, chamaram-lhe anti-desportista e tudo mais, quando o tipo se sai com aquela da mão de Deus. Na altura, a FIFA tinha uma novidade para os jornalistas, foi a primeira vez que isso aconteceu: no centro de imprensa principal, que ficava no centro da cidade e não no Estádio Azteca, para aí umas duas horas depois tínhamos uma cassete de vídeo com o jogo, então estavam uns 30 gajos à volta do vídeo para tentar parar aquilo no frame da mão. Até que houve um inglês que lá conseguiu parar aquilo no frame certo: “está aqui, foi com a mão!”.
Curiosamente, uns dias antes, na Cidade do México, eu e uns colegas estávamos num restaurante argentino e fomos para o primeiro andar, que estava mais sossegadinho. Passado para aí um quarto de hora dá-se uma grande confusão, uma gritaria…. Quem é que lá vinha com quatro guarda-costas? Diego Armando Maradona! Posso dizer que almocei mesmo ao lado do Maradona e não lhe dei nenhum autógrafo.
Tenho outra história com piada do México. De Saltillo já toda a gente contou a história, mas eu conto outras. No Azteca, que é um estádio descomunal, tem um parque de estacionamento daqueles à americana com uns dez mil lugares, estacionas o carro e andas uns 20 minutos para chegar ao estádio. Vi lá o México-Bulgária, aquele jogo com o pontapé de moinho do Negrete. Os jogos lá eram ao meio-dia porque por volta das quatro da tarde havia sempre um tremorzinho de terra. Quando nos contaram aquilo achámos piada e pensámos que era tanga, mas não, todos os dias havia um tremor de terra. Depois daquele jogo metemo-nos no autocarro para irmos para o centro de imprensa principal, mas estavam milhões de mexicanos na rua a entupir as autoestradas todas, de tal forma que o nosso autocarro deve ter aquecido tanto que pifou. À nossa frente ia um autocarro de transportes públicos e o nosso condutor não faz mais nada: manda abrir a porta do autocarro e tira os passageiros para nos levar ao centro de imprensa. Ficaram os gajos todos a baterem-nos palmas! Um povo espectacular, viveram aquele Mundial de uma forma incrível. Só ali para as pessoas saírem do autocarro e darem o lugar aos jornalistas, mais em lado nenhum! Foi aí que conheci uma grande figura da televisão inglesa, o Martin Tyler, que também é conhecido por dar voz aos jogos da FIFA, e assisti ao Inglaterra-Argentina da mão de Deus sentado ao lado dele.
Fui para o México para acompanhar a Selecção com o meu director, o senhor Serafim Ferreira. Quando Portugal é eliminado ele veio-se embora, mas eu fiquei até à final. O meu grande companheiro na altura era o Frederico Martins Mendes, também já falecido, do JN. Era um tipo impecável, um senhor do jornalismo que me ensinou muitas coisas. Uma história engraçada que tivemos logo no primeiro ou no segundo dia foi quando chegámos à Cidade do México. No outro dia de manhã metemo-nos num táxi para nos levar ao centro de imprensa, mas o motorista não sabia onde é que era. Então parou na esquina da rua do hotel junto a um polícia de trânsito para lhe perguntar, mas ele também não sabia. E o Frederico Martins Mendes, que ia à frente, no lugar do passageiro, diz-me: “Estamos feitos, que estes gajos não sabem nada…”. Quando o taxista ia arrancar, o polícia, que não tinha dado a informação, meteu-lhe a mão na janela: “Una propina, señor. Una propina”. Queria uma gorjeta pela informação que não tinha dado! Também só no México….
No dia em que o Bento partiu a perna, em Monterrey, por acaso foi a única vez que perdi um treino. Só havia um ou dois jornalistas portugueses a acompanhar esse treino, de resto estava tudo no centro de imprensa de Monterrey. Em Saltillo não tínhamos condições nenhumas, mas ali já tínhamos telefone directo e telex, na altura não havia sequer ainda fax, e, com a diferença horária, ninguém foi fazer o treino. Era às onze da manhã, que se lixe o treino! Quando nos apercebemos que o Bento tinha partido a perna, eu estava com um carro alugado, que não era meu, era de um fotógrafo que também não foi ao treino porque tinha ficado no hotel em Saltillo a comer uma mexicana, deu-se esta cena: dentro de Monterrey, que é uma cidade pequena para eles, mas grande para nós, tem para aí um milhão e meio de habitantes, com avenidas de sete faixas de rodagem e 15 kms de comprimento, vou para aí a 170 km/h numa dessas avenidas quando oiço o apito de um polícia. O Serafim Ferreira disse-me: “não pares, não pares!”, mas parei. Fiz uma grande travagem, parei para aí cem metros à frente do polícia, fiz marcha-atrás, e quem meteu conversa com o polícia foi o Frederico Mendes, que era um diplomata. Mostra a credencial, o polícia pede desculpa por ter mandado parar e diz para irmos “un poco más despacito”.
Outro exemplo gritante da diferença das condições técnicas à nossa disposição: no Europeu de 2012, na Polónia, no segundo ou no terceiro jogo o Hélder Postiga lesionou-se, foi substituído e, naquela noite, disseram que na tarde do dia seguinte ele ia fazer uma ressonância. Através dos meus contactos soube que afinal a ressonância não era à tarde, já tinha sido feita de manhã, e que ele não jogava mais. Soube isto, como se costuma dizer, por sinais de fumo. Em 15 segundos, enquanto o pessoal ia entrando para o campo, havia um treino aberto de manhã, soube isto e liguei para o pessoal que estava no online do Record. Disse: “olha, a informação é esta. É já para meter no site”. Depois tive uma daquelas respostas, que acho interessante, da malta que está nas redacções e nunca passou para o outro lado da porta:
– Tens a certeza?
– Não, o pai Natal é que tem a certeza. Se te estou a dar a informação é porque tenho a certeza!
Meio minuto depois, já estava essa informação na Internet.
No México era tudo diferente. Ou eram os tipos das rádios, com as tais chamadas programadas, que podiam entrar em directo, ou então esquece. No hotel não tínhamos chamadas directas para Portugal. E às vezes demorava uma ou duas horas a ser feita a ligação. Por isso é que estávamos bem nos centros de imprensa.
Quatro anos depois, no Itália’90, já os centros de imprensa tinham computadores, com bases de dados com muita informação sobre a história do Mundial, as selecções que estavam presentes, e tal. Em quatro anos houve um avanço tecnológico brutal, quase que indescritível. Já havia gente, pouca ainda, porque era uma coisa muito cara, que tinha aqueles telemóveis grandes que pareciam um tijolo, mas muita gente tinha um modelo mais aperfeiçoado desses Tandy, que se ligava ao telefone.
Naquela altura, quando alguém se credenciava para o Campeonato do Mundo, o que era feito directamente para a FIFA pelo menos seis meses antes da prova, tínhamos de pagar uma caução de 200 dólares que depois era devolvida durante o Mundial. Era muito dinheiro. No México, a própria FIFA não tinha as coisas organizadas como deve ser, era tudo em listas escritas à mão. Havia o centro de imprensa, a sede do Comité organizador local e a sede do Comité da FIFA, e todos eles devolviam as cauções aos jornalistas. Imagina a quantidade de malandros, pelos menos 20 ou 30, que foram levantar o dinheiro aos três sítios diferentes! Até que a FIFA descobriu e começou a marcar, com aqueles furadores de papel, a credencial dos jornalistas que tinham levantado o dinheiro para não haver mais confusões. Mas, entretanto, já muita gente tinha levantado três vezes os 200 dólares….
Em Turim, no Mundial de Itália, vi tipos de países africanos que dormiam e literalmente moravam no centro de imprensa porque não tinham dinheiro para pagar um hotel e, ao fim de três dias, estavam desesperados à espera que a FIFA lhes devolvesse a caução porque não tinham dinheiro para comer. Para aquela malta, 200 dólares era uma fortuna! Tal como vi jornalistas brasileiros a venderem camisolas da selecção brasileira para fazerem dinheiro.
Os brasileiros invadiram Turim. Jogaram lá duas ou três vezes, salvo erro, perderam lá com a Argentina, e estavam em Asti. Mas em Turim, além dos jornalistas e dos adeptos, também houve uma invasão de putas e travestis brasileiros que iam para a rua estragar o negócio das raparigas italianas. Havia pancadaria de meia-noite! E nunca mais me esqueço que um jornal de Turim, tenho pena de não o ter guardado, um dia fez capa com uma gaja com um cartaz a dizer “Vera puttana”. Puta verdadeira. Como quem diz “não sou travesti brasileiro”.
Para acabar, em 2016, uma realidade completamente diferente: no México tinhas 20 e tal jornalistas portugueses, em França tinhas cento e tal, fora não sei quantos estrangeiros, tudo maluco atrás do Cristiano Ronaldo e, nessas condições, dar notícias é muito complicado porque as conferências de imprensa e os treinos abertos são iguais para todos. E aquilo a que chamo notícias, que é uma coisa que eles não querem que a gente saiba, nós conseguimos ao segundo dia e fez capa do Record. Para mim foi a única notícia no sentido em que não estava programado os jornalistas escreverem, que foi quando o Cristiano Ronaldo estava lá com o fisioterapeuta espanhol a tratar dele.
Nós sacámos a foto, sacámos a história e publicámos. Havia uma equipa de televisão espanhola que estava lá só para acompanhar o Cristiano Ronaldo e, quando aquilo é capa do Record, o jornalista ia batendo no cameraman dele por não ter apanhado aquilo! Os meus ex-camaradas de Correio da Manhã e CMTV também não faziam outra coisa que não fosse Cristiano Ronaldo. Treparam pelas paredes por termos dado aquilo e não lhes termos dado indicação nenhuma. Tive de mandá-los dar uma volta ao bilhar grande, de outra forma, porque estava a trabalhar para o Record, não era para a CMTV nem para o Correio da Manhã. São coisas que às vezes as pessoas não percebem.
O nosso fotógrafo, o grande Pedro Ferreira, o nosso querido Sonecas, topou que eles passaram à frente de toda a gente para o ginásio, mas ninguém ligou nenhuma: “olha, vai ali o Cristiano mais um gajo”. É a tal história: tu não sabes quem é que está, não estás habituado, não conheces as pessoas, não percebes a diferença. O Pedro Ferreira, que já conhecia muito bem quem é que fazia parte da Selecção, desde médicos a massagistas, viu um gajo diferente, tirou-lhe a fotografia, ampliámos e na credencial estava lá o nome dele: Juan não sei quantos. Fomos ver à net quem era, falei com umas pessoas e contámos a história. O tipo estava com autorização da Federação, a pedido do Cristiano Ronaldo, para acabar um trabalho que tinha começado um mês antes.
Antes, nesse mesmo dia, já havia especulações de que o Cristiano estava lesionado, não ia jogar, e os homens da comunicação da FPF não ficaram muito satisfeitos que desse a notícia, mas perguntei-lhes: “querem que seja eu a publicar a história no Record ou preferem que seja um Correio da Manhã qualquer a inventar para aí uma confusão de que está cá um espanhol e que os médicos da Selecção não prestam para nada?”. E contei a história.


Tantos jornais, nacionais e estrangeiros, desportivos e não só, que não chegam os dedos das duas mãos. Sempre com a mesma paixão: contar histórias. Agora, vai dando palpites na SIC Notícias. Facebooktwittergoogle_pluslinkedinmail

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