Joaquim Teixeira

Na minha primeira época no Leça, em 1993/94, substituí o Frasquinho, o António Frasco. Eu tinha saído do Nacional da Madeira, eles estavam em último lugar, e fui para o Leça. Chegámos ao final da primeira volta ainda no último lugar e disse ao presidente:
– Presidente, as coisas não estão a melhorar, portanto quero fazer aqui uma limpeza no balneário ou então vou-me embora.
E o presidente disse-me:
– Acredito muito em ti. Não te vais nada embora, ficas aqui.
– Pronto, presidente. Eu fico, mas temos de fazer estas modificações.
Ele concordou. Escolhi sete jogadores e disse-lhes:
– Vocês podem trazer o shampoo, podem trazer o gel, podem trazer tudo que comigo não jogam mais.
Íamos jogar contra o Rio Ave em Vila do Conde. Eu jogava com três centrais: o João Festas, o falecido Isaías e o Alfaia. Eram três torres. Estava 0-0 e no último minuto o Alfaia sobe para ir a um canto, que era o que estava estudado. E eu gritei:
– Alfaia, não, não! Fica, fica!
Isto porque um pontinho fora contra o Rio Ave era uma maravilha. Mas ele não ouviu. Canto e golo. Ganhámos 1-0!
Fomos a segunda equipa mais pontuada da segunda volta, ficámos no oitavo lugar. Como fizemos aquele trabalho, pensei que no ano seguinte, com três ou quatro jogadores, dava a volta àquilo. E assim foi. Fomos campeões nacionais. O Manuel Fernandes, no Campomaiorense, ficou em segundo, e o Jorge Jesus, no Felgueiras, em terceiro. Fomos os que subimos. Ainda havia o Carlos Manuel no Estoril, o Vieira Nunes na Académica…. Foi dos anos mais competitivos de sempre na II Divisão de Honra.
E tenho outra história muito engraçada. Fui jogar ao Estoril, o Carlos Manuel era o treinador do Estoril, e estávamos mais ou menos a meio da tabela. O Estoril estava à nossa frente. E eu disse ao presidente:
– Vamos lutar para subir de divisão. Temos ordenados em atraso, você não tem possibilidade de pagar, não há problema nenhum, mas se ganharmos este jogo você tem de dar 200 contos de prémio aos jogadores.
– Ó Teixeira, 200 contos?!
– Os jogadores andam aqui com seis e sete meses de atraso. Os prémios você vai ter de os pagar. Depois o resto, se não pagar a gente mete-os em tribunal!
Tinha uma relação muito boa com ele, dava para termos estas conversas.
Ganhámos lá 2-0, um jogo fantástico! O árbitro era o Bento Marques e eu, estrategicamente, disse-lhe assim ao intervalo:
– Ó senhor árbitro, você está a fazer uma exibição fantástica, mas já me amarelou dois jogadores e vou ter de substituí-los.
– Mas você vai substituí-los por medo?
– Sim, sim, por medo. A minha equipa é muito agressiva e eles batem-se muito bem.
Não foi nada por causa disso. Foi só para lhe dar ali um cheirinho. Então, na segunda parte meti o Serifo e o Earl, que eram jogadores muito rápidos, duas setas, e foi assim que ganhei o jogo.
E nesse jogo, no Estoril, fiz uma coisa que nunca ninguém tinha feito em Portugal. As equipas, normalmente, a 30 minutos do jogo iam para dentro do campo para aquecer, depois vinham e mudavam o equipamento. Comigo, a partir dessa altura, a equipa já ia preparada para começar o jogo. O que é que eu pensei? Falei com o meu preparador físico e disse-lhe:
– Professor, isto do aquecimento é uma treta. Os jogadores aquecem, depois vêm para o balneário e arrefecem. A partir de hoje vamos fazer o aquecimento em cima do jogo.
Os jogadores já iam com as chuteiras, os pés ligados, tudo direitinho. Só iam com uma t-shirt que depois trocavam pela camisola do jogo. Assim a equipa adversária pensava que íamos ter falta de comparência porque nunca mais aparecíamos no campo. Foi nesse jogo que comecei a fazer isso e senti um rendimento diferente dos jogadores porque entravam logo num ritmo muito alto.
A época foi andando e perdi 2-0 com o União de Lamas. Isto a sete jogos do fim. O presidente andava dentro do balneário a bufar, a bufar, a bufar, e eu perguntei-lhe:
– Ó presidente, desculpe lá: você está doente?
– Perdeste com estes gajos!
A malta estava a tomar a banho e disse-lhes:
– Fechem aí os chuveiros. Quero dar-vos aqui uma notícia. O presidente está muito chateado, então vamos fazer o seguinte: esta semana não há treino. Como pára o campeonato, vamos descansar. No sábado vamos fazer um treininho recreativo, o presidente vai marcar um bom restaurante e vamos almoçar porque estamos todos cansados. O presidente está cansado, eu estou cansado, vocês estão cansados…. Vocês têm trabalhado muito, estão todos espremidos e merecemos.
O presidente fez tudo o que lhe disse para fazer, fizemos um almoço espectacular, rimo-nos, contámos histórias, e depois ganhámos cinco dos últimos seis jogos! Ganhámos em Paços de Ferreira, que era dificílimo, ao Felgueiras, que era dificílimo, ao Campomaiorense, que era dificílimo, à Académica, que era dificílimo, e foi assim que subimos de divisão.


Após o Leça destacam-se as passagens como adjunto pela Selecção Nacional e pelo FC Porto, e um trabalho de cinco anos na formação do 1.º de Agosto, de Angola. Facebooktwittergoogle_pluslinkedinmail

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