Joaquim Evangelista

A minha relação com a bola é metafísica, adoro jogar futebol, adoro futebol. Quando era miúdo e adolescente a bola estava primeiro, depois a namorada. Ainda hoje, não necessariamente com a namorada, acontece, tenho esse lado inexplicável. Nasci em Bragança, Trás-os-Montes, e vivi, até aos 18 anos, junto ao castelo, dentro das muralhas, ao lado da “Domus Municipalis”. A parada da tropa era o nosso campo de sonhos, onde tudo acontecia. Colocávamos pedras ou sapatos para fazer de baliza, mais tarde troncos e jogávamos de manhã à noite. Todos tínhamos alcunhas: o Nelo Tripeiro, o Tó Pichas, o Jorge da Preta, o Zé Bicharano, o Calhecas, o Laró, o Chico Minhoca, o Paulo Pressinhas, o Tó Laminuta, o João Teixeira, o Chico Taberneiro e o Varilhas, que era eu. Um tio avô meu tinha um moinho de água, junto ao rio Sabor, e moía farinha e acho que as varilhas são instrumentos em que se apoiam as peneiras. Acho que vem daí. Está relacionada com esse meu tio António, que vivia a três ou quatro quilómetros, nesse moinho junto ao rio, sem luz. Ainda me lembro da candeia a petróleo, dos colchões de palha, do burro, das cobras e lagartos e da matança do porco, mas lembro-me em especial do arroz doce da minha tia Rita. Deixava sempre um fundo na panela para eu rapar. Eu juntava canela, que maravilha. Acho que sou guloso por causa dela. Passava lá muito tempo. A minha mãe disse-me que quando nasceu a minha irmã fiquei zangado e fugi para o moinho. No Verão, os meus irmãos, primos, amigos e a gente da cidade era lá que se encontravam. Ali aprendi a nadar e a estabelecer uma relação com a natureza. Tenho imensas recordações.

Voltando ao futebol, lembro-me de alguns episódios em particular. O meu pai era muito autoritário. Queria que eu estudasse e trabalhasse e não gostava que eu jogasse à bola, por duas razões: primeiro porque achava que não conduzia a nenhum futuro e por causa das companhias. Era um bairro muito complicado. Muitos dos meus amigos não tiveram condições para estudar e para concluir a Primária. Era um calvário. Muitos tinham de trabalhar desde cedo, outros emigravam, o caso da minha irmã, e outros, infelizmente, acabaram agarrados à droga. Mas todos, sem excepção, eram meus amigos. Eu tive muita sorte. Os meus avós, os meus tios protegiam-me muito. As pessoas do castelo gostavam muito de mim e eu delas. Éramos uma família grande. Os meus amigos, mesmo os que tinham uma vida difícil, sempre me protegeram e foram os primeiros a ficar contentes quando acabei a faculdade ou vim para o Sindicato dos Jogadores. Ainda hoje sinto esse carinho das pessoas do castelo, que é reciproco.

Em Bragança, o castelo é um bairro à parte. Quem vivia no castelo era temido. A malta da “vila”, era como chamavam às pessoas que viviam dentro das muralhas. Os “bandidos” da vila e eu um menino. Fiz a catequese, o crisma e a profissão de fé. Ao domingo de manhã ia à missa e ajudava o Sr. Padre. Não faltava às novenas, se bem que havia uma razão não católica para ir: era um ponto de encontro entre rapazes e raparigas. Ao fim-de-semana havia confissão para revelar os pecados. Dentro das muralhas havia o largo de baixo e o largo de cima e os jogos de futebol faziam-se em função desse critério. Os que moravam mais perto do largo de cima contra os que moravam mais perto do largo de baixo. Às vezes a coisa corria mal e havia porrada. Eu era do largo de cima e a minha equipa ganhava quase sempre. O problema maior era quando os jogos eram entre a vila e os outros bairros. Esses sim, acabavam sempre à porrada e à pedrada e uns a correr atrás dos outros. Era um ver se te avias.

Mais tarde, regularmente, também fazíamos jogos de solteiros contra casados. Num desses jogos fiz uma maldade a um dos casados, fiz-lhe uma cueca. Ele vem a correr e deu-me um porradão numa perna que só não partiu por acaso. Fiquei coxo durante um mês. Ainda por cima cheguei a casa e o meu pai, ao saber do sucedido, ainda me deu um enxerto de porrada! Com o meu pai era muito respeitinho. Por ele ser assim, estava sempre a inventar maneiras de não ser apanhado a jogar à bola. Lembro-me, por exemplo, para não esfolar os ténis, de jogar com meias por cima para que ele não percebesse que tinha estado a jogar! O meu pai tinha uma mota, uma Zündapp, acho que ainda está lá em casa, e quando estava a jogar à bola tinha de estar atento para ver quando ele chegava a casa. Assim que ouvia o som da mota a entrar nas muralhas do castelo disparava a correr da parada para casa para ver se chegava primeiro. Ainda eram uns 300 metros. Ganhei algumas corridas, mas normalmente quem ganhava era o meu pai. E, claro, depois chegava-me a roupa ao pêlo.

Na vila, dentro do castelo, havia calejos, ruas ou travessas paralelas a separar as casas. Eu vivia numa dessas ruas e também jogávamos ali à bola. Para meu azar, de facto agora que penso bem a minha relação com a bola não foi necessariamente feliz, duas portas ao lado da minha vivia a menina Dina, uma senhora com idade mas que era assim tratada por fazer anos no dia 29 de Fevereiro. Era muito beata, era quem tinha a chave da igreja, e detestava futebol. Bastava a bola bater no chão e vinha logo ralhar connosco. Sempre que apanhava a bola guardava-a e não a devolvia. E nós, para nos vingarmos, íamos ao quintal roubar-lhe as ameixas, os figos e os ovos das galinhas. E também tinha lá uns pombos… Aquilo era doentio. Acho que ainda hoje tenho pesadelos.

Outro personagem curioso era o Sr. Morais, que vivia junto ao pelourinho. Mas esse era perigoso, vinha mesmo atrás de nós e se tínhamos o azar de o deixar apanhar a bola, era o fim. Fazia questão de lhe dar uma facada! E se nos apanhasse estávamos lixados. Tudo aquilo para nós era um desafio: a menina Dina, o senhor Morais, o meu pai… tinha ali tudo contra! Mesmo a minha mãe às vezes não facilitava. E nós só a querer jogar à bola. Nem ligávamos nada às miúdas, só queríamos bola, bola, bola. Lembro-me de às vezes ir sozinho para a parada. Mais tarde tivemos lá uma baliza a sério, com postes em ferro, e eu passava horas a rematar a uns bons 10 ou 15 metros só a tentar acertar na barra. Quando falhava lá tinha de ir buscar a bola. A determinada altura, depois de tanto treino, o normal era acertar. Não havia PlayStation…

Havia outra coisa engraçada, mas muito perigosa. Quando a bola passava para o outro lado das muralhas, em vez de irmos dar a volta, que era longe, subíamos e descíamos a muralha, que tinha cinco a oito metros! Trepávamos pelas pedras. Hoje fico doido só de pensar nisso. Bastava uma pessoa largar uma mão, desequilibrar-se… Éramos muito irresponsáveis.

Foi em Bragança, na vila, que conheci o Paulo Bento. A família dele também morava dentro das muralhas e ele ia lá passar férias. Era um grande jogador. Baixinho na altura, depois cresceu muito. Lembro-me que quando ele lá estava fazíamos as equipas, jogando ele de um lado e eu do outro. Normalmente ganhava a minha equipa e a malta dizia que eu era melhor jogador que ele (espero que ele não leia o Relato). A verdade é que ele fez a carreira que se sabe. Como homem e como amigo o Paulo é espectacular: é humilde e um homem de família, sempre ajudou os tios. Desejo-lhe tudo de bom e que regresse rapidamente ao futebol.

Como disse, o meu pai nunca quis que jogasse. Queria que trabalhasse e tinha de ajudá-lo nas minhas férias. Quando tinha idade de júnior, por coincidência, o treinador do Bragança era conhecido do meu pai e conseguiu dar-lhe a volta para me deixar jogar. Ele nem ia ver os meus jogos! Ou melhor, foi ver um: levei cartão amarelo e deixou de ir. Participei no campeonato nacional de juniores e o futebol, mais uma vez, alargou-me horizontes, porque até ali só conhecia Bragança. Deslocámo-nos a Guimarães, Ponte da Barca, Póvoa de Varzim, Vila do Conde… Era a zona norte. O mais importante foi sair de casa. Estar longe dos pais, com os amigos. Aquela camaradagem da bola. Os jogos eram em condições difíceis. Só campos pelados, debaixo de chuva, com granizo, um frio terrível e se apanhámos dois campos com água quente nos balneários foi uma sorte. Depois, ainda fiz um ano pelos seniores no Distrital. O Eurico, que era um central que jogou comigo, foi para o Benfica. Entretanto deu-se a minha vinda para a faculdade, que muito devo à minha mãe. Não era suposto vir, mas a mãe de um amigo meu queria muito que ele viesse, mas não queria que viesse sozinho, então convenceu a minha mãe que se endividou na altura e, mesmo contra a vontade do meu pai, acabei por vir estudar para Lisboa. Foi o meu anjo da guarda. O meu anjo da guarda era e é a minha avó, que sempre foi minha protectora. Viveu sempre connosco, chegámos a viver 14 na mesma casa, na altura que os meus tios regressaram de Angola. A minha avó sempre me protegeu. Lembro-me das colecções de cromos. Era ela que me comprava as carteirinhas. Lembro-me que me protegia do meu pai e contam-me que nas peregrinações à Senhora da Serra me levava às costas. Era como se fosse minha mãe. Passava mais tempo comigo e dormia com ela. Ainda hoje não consegui superar a perda dela. Era muito boa a minha avó Aurora. A minha mãe sai a ela.

Chego à faculdade e havia lá uma associação desportiva, mas era uma coisa muito fechada, reservada, não deixavam entrar ninguém, porque havia descontos nas propinas para quem fizesse parte enquanto atleta universitário. Naquele ano abriram um treino de captação de futebol de 11, acho que era só para inglês ver. Fui lá, faço uma jogatana do caraças e fui o único que foi admitido. Nessa altura fiz um grande amigo, o Luís Neves, agora Director nacional adjunto da PJ. Tive a sorte de o conhecer. Ele ajudou-me imenso. Chego a Lisboa, não bebia, não fumava (ainda hoje não fumo) e era outra realidade. Devo a ele muito do que sou hoje. Tive grandes amigos, em Lisboa: o Luís, o João Nogueira da Rocha, o Albano… Há outra história recente curiosa. Um dos meus amigos de faculdade é apaixonado por futebol, apesar de não ter muito talento. Chama-se Vítor Osório e foi recentemente eleito Presidente da Federação Cabo-verdiana de Futebol. Não é fantástico o mundo do futebol?! Quando acabo o curso, integro a equipa de juristas de Lisboa (há um campeonato forense) e num dos jogos de treino aparece o Carraça. Nessa altura o Nogueira da Rocha fica a assessorá-lo e eu integro o departamento jurídico do Sindicato dos Jogadores. Dá-se esta feliz coincidência. O casamento entre o futebol e o Direito. Agora as histórias são outras, multiplicadas por cada um dos jogadores que tive oportunidade de conhecer, mas essas ficam para outros “Relatos”.


Eleito presidente do Sindicato dos Jogadores Profissionais de Futebol em 2005, foi reeleito para um terceiro mandato em 2013 e tem-se destacado pela defesa dos jogadores em tempos de crise.

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4 comentários sobre “Joaquim Evangelista

  1. adorei ler..Como brigantina ,( ainda que há 27 anos viva em braga), fiz questão de comprar um cantinho meu na vila há 16 anos..hoje considero-me VILEIRA e sempre quis partilhar daquele espaço temível no meu tempo de adolescente.. posso dizer claramente que não troco a vila por nenhum canto da cidade de bragança…já agora o paulo pressinhas é um dos amigos que ficou e com quem troco sempre um abraço …aquele abraço…cheio de amizade …bem haja

  2. Obrigado senhor Joaquim Evangelista! Já não tive o privilégio de o conhecer e de lidar consigo mas também eu nasci e cresci na vila… só hoje li mas o seu relato fez – me recordar bons velhos tempos…!

  3. O 1º treino que fizeste com o Malã, talvez não saibas, fui eu que pedi ao teu pai para te deixar ir. Eras o melhor jogador de Bragança. Terias feito história no futebol, mas o teu pai queria-te Dr.

  4. Li esta “crónica/relato” com muito interesse. No conteúdo e forma, acho-a acessível e entendível por qualquer pessoa. Com a minha ligação afetiva (de mais de 40 anos) a Bragança, onde resido, ainda se entende melhor, por conhecer as tendências da cultura dominante na época. Como apaixonado por futebol, que sou, desejo-lhe a continuação de bom trabalho em prol dos futebolistas que necessitam de apoio (e, infelizmente, são muitos!)

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