João Vilela

Estive cinco meses no Irão, joguei no Tractor, e passei por algumas situações engraçadas. Por exemplo, tínhamos muitas dificuldades em fazer uma coisa simples como comprar comida. Pouca gente falava inglês, principalmente na nossa cidade, em Tabriz, e quando íamos ao talho fazia-me alguma confusão comer borrego, não estava muito habituado a comer cá. Depois não havia carne de porco, que para eles é sagrado, e a carne de vaca existe mas é diferente do que temos cá, não têm tanta variedade. E quando queríamos pedir a carne de vaca tinha de ser por gestos ou por sons. Agora imaginem o que é estarmos num talho, com várias pessoas, e apontarmos para a carne e dizer “muuuu”. Só assim é que eles percebiam qual era a carne que queríamos. E também acontecia irmos ao supermercado e ser uma confusão com as contas, mas são coisas que só quem passa por elas é que percebe a dificuldade. Tive a sorte de sermos alguns, imagino que sozinho ia ser bem pior, assim ajudávamo-nos uns aos outros.

Também apanhámos um terramoto, tivemos de dormir uma noite na rua por uma questão de segurança. Nós e milhares de pessoas, dormimos na rua com medo que a terra voltasse a tremer, porque abanou duas vezes. Ficámos acordados até bastante tarde, na palhaçada, porque depois do susto só nos dava vontade de rir. Isto também porque estávamos com um colega que era holandês e iraniano, tinha dupla nacionalidade, e estava num prédio de 20 andares quando se deu o terramoto. Então saiu de lá numa velocidade louca e dizia que era mais rápido que o Bolt a descer escadas!

No nosso caso, estávamos em casa: eu, o Flávio Paixão e o Anselmo, vivíamos no mesmo apartamento. Foi antes de irmos para um treino que a terra tremeu. Assustámo-nos imenso, fomos para a rua. Eu e o Anselmo ainda voltámos ao prédio para ir buscar a mala, porque faltava para aí meia-hora para o treino e, por coincidência, no momento em que subíamos a terra voltou a tremer. O Flávio, lá fora, diz que viu o prédio a tremer e ficou preocupado connosco, mas descemos pelas escadas e estávamos bem. Com a pressa de sair de casa nem tínhamos telefones connosco, foi mesmo um grande susto.

Em termos desportivos, apesar de ter sido uma experiência curta, achei fascinante a relação que existe com os adeptos no Irão. Muito parecido com o ambiente turco, tínhamos sempre muita gente, mesmo a jogar fora aquilo era uma loucura! Os estádios são enormes e estão quase sempre cheios, foi aí que vivi mais intensamente a experiência de ser jogador e ter tantos fãs a acompanhar. Mesmo na rua nunca nos deixavam sossegados, gostei muito dessa parte. Em relação ao futebol em si, acabei por não jogar muito, não fui feliz nesse sentido, mas a relação com os adeptos foi fantástica e inesquecível.


Formado no Benfica, onde foi campeão nacional de juniores, cumpriu nove épocas ao serviço do Gil Vicente, com passagens pelo Fátima e Tractor pelo meio. Está agora no Schaffhausen, da Suíça.

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