João Rosado

Pecador mas acima de tudo crente. Vou acreditar que o relato deste duplo episódio não me vai trazer consequências graves no futuro e que a moldura penal para o meu único “delito” profissional já não tem enquadramento atual. Ou seja, vou acreditar que, passados 22 anos, expirou toda e qualquer obrigatoriedade de prestar contas à justiça marcada pelos ponteiros dos relógios. Noutras palavras e se preferirem, à justiça do despertador.
Viajemos então no tempo até 1996. Agosto de 1996. Calor tórrido em Lisboa, voo abrasador até à longínqua Erevan, a Bragança do fim da Europa, mais de nove horas de distância.
Objectivo do singular percurso? Acompanhar como enviado-especial do jornal “O Jogo” o duplo compromisso das seleções portuguesas, representação A e sub-21, ambas com confrontos agendados frente às congéneres arménias.
Naquele tempo, era em vão toda e qualquer reclamação pelo número de caracteres e de páginas que era obrigatório escrever para “dissecar” (agora reparo como “dissecar” e “congéneres” são termos que não saem de moda em nenhum relato…) todos os pormenores de reportagem, ainda por cima estando em causa a cobertura de dois jogos e de duas equipas nacionais.
Por isso, assim que cheguei ao hotel, a preocupação inicial passava por alinhavar algumas ideias para despachar as primeiras impressões da viagem e só depois jantar com a devida tranquilidade. Dessas duas missões, só uma foi cumprida com relativo sucesso, permitam-me.
A segunda esbarrou completamente no poste (e atenção que não fui o único a atirar aos ferros, mas já lá vamos…). O restaurante do hotel estava fechado (restando saber há quanto tempo estava nessa condição) e as máquinas automáticas de snacks e bebidas, pura e simplesmente, estavam ali para ajudar à decoração fantasma. Sim, aceitavam moedas mas… era em vão, tratava-se apenas de gentileza ilusória das máquinas, incapazes de retribuir com uma vulgar sandwich. Muito músculo, muita armadura e pouco coração, concluir-se-ia, a exemplo do que acontece com alguns jogadores.
Claro que restava a óbvia alternativa, contra-atacar com um raide pela cidade e reservar mesa no restaurante mais próximo do hotel. Em… vão. Fosse pelo adiantado da hora, fosse por alguma quebra geral de energia, nem restaurantes abertos nas imediações nem tão-pouco ruas ou avenidas minimamente iluminadas. Como qualquer equipa que se preze, eu e outros colegas, preferimos aceitar a “derrota” em vez da goleada proposta pela rude Erevan e recolhemos com o estômago vazio aos quartos mas na disposição de vingar o “desaire” festejando um duplo triunfo de Portugal dentro das quatro linhas.
Dois dias depois provar-se-ia que era uma expectativa… em vão.
Talvez porque demorei tempo a adormecer, na manhã seguinte precisei que um dos companheiros do jejum noturno me acordasse a tempo de viajar para a cidade onde numa sexta-feira se disputou o jogo dos sub-21 (lá está, mantenho a fé que, volvidos 22 anos, estou dispensado de qualquer género de acerto), categoricamente vencido pela equipa das quinas por 4-3 ou quiçá 3-2.
Por falar em equipa das quinas, já não sei dissecar por quantos bateu a sua congénere local, mas a grande verdade é que cumpriu a seleção mais jovem o seu objectivo, ao contrário do que aconteceu em plena capital arménia com o onze escolhido por Artur Jorge. Menos de 24 horas (sim, tenho a certeza de que foram menos de 24 horas) depois da vitória das promessas lusitanas, lendas como Vítor Baía, Rui Costa ou Sá Pinto não foram além de um empate sem golos contra o combativo exército anfitrião.
Nem sequer um penálti assinalado a cinco minutos do final permitiu a Portugal ganhar. Sem o lesionado Figo, a fome de pontaria prosseguiu, com Oceano a acertar no poste da marca dos 11 metros. A falta sobre João Vieira Pinto na grande área arménia acabou por ser como a campanha para o Mundial’98, absolutamente em vão.
Como quase tudo naquela cidade…


Comentador de futebol na TSF, SIC e SIC Notícias, conta passagens pelos jornais A Capital, Record, O Jogo e DN, pelas rádios Antena 1 e Renascença, pela SportTv e ainda foi cronista da revista GQ. Facebooktwittergoogle_pluslinkedinmail

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