João Ricardo Pateiro

Escolhi uma bola de vento amarela, que no fundo é a esponja do microfone, para o Campeonato da Europa de 2016 porque sendo a bola amarela, num país que é conhecido pela Volta à França, que quem ganha vai com uma camisola amarela, acreditei que se relatasse com uma bola de vento amarela isso daria sorte à selecção portuguesa. Acaba por ser uma superstição e agora recordo-me dela, naturalmente, porque as coisas resultaram. As superstições são muito assim, quando as coisas resultam bem achamos que foi por termos feito aquilo. Se Portugal não tivesse sido campeão da Europa, nunca mais me lembraria da esponja amarela. Como resultou, relaciono isso sempre com a vitória de Portugal. Não passa de uma superstição, mas é uma história curiosa do evento que mais marcou a história do futebol português, que foi o Campeonato da Europa ganho há dois anos em França.
Agora vou estar no Mundial da Rússia e vou levar uma bola azul, que é a cor da TSF. Esse é outro dos aspectos que está relacionado com a superstição, pelo menos com a minha, que é tentar não repetir. Ao contrário do que muita gente supersticiosa acredita, eu tento não repetir exactamente as mesmas coisas, ir variando, para não abusar da sorte. É um bocado aquela coisa do “não voltes a uma casa onde já foste feliz”. Neste caso é “não voltes a repetir uma situação que já te fez feliz” porque pode não acontecer da mesma forma que e será frustrante.
Ainda nas superstições, há uma história engraçada passada em Marcoussis, quartel-general da selecção portuguesa, que está relacionada com um galo que estava no jardim. Portugal ficou no centro de treinos de rugby da selecção francesa e é natural que existissem vários galos espalhados pelo jardim. Não falo de galos verdadeiros, mas do símbolo de França que é o galo. Não sei de que material eram feitos, mas era como o nosso galo de Barcelos no estilo francês. As coisas estavam a correr mal a Portugal, tínhamos empatado os dois primeiros jogos, e há uma altura em que Fernando Santos me disse, numa conversa com os jornalistas:
– O que está aqui a dar azar é aquele galo.
E disse-lhe:
– Ó mister, mas agora também não se pode tirar dali o galo, é o símbolo de França. Ainda arranjamos aqui um problema diplomático!
O que é certo é que não se tirou dali o galo, mas o galo mudou de posição, virámos o galo ao contrário, e a partir desse momento as coisas começaram a correr bem a Portugal e, até à final, continuámos sempre com o galo naquela posição.
Todos nós fizemos notícia disto, todos contámos a história do galo. Entretanto já era conhecido o adversário de Portugal na final, que era a selecção da casa, a selecção francesa, e a dois dias da final, quando Portugal chegou a Marcoussis para treinar, o galo estava outra vez na posição inicial. Ou seja, os franceses também souberam da história e viraram o galo!
Aquilo criou algum desconforto, sublinho, sempre dentro deste mundo das superstições, que no fundo é um mundo que remete para zonas de conforto. É importante que as pessoas ao lerem isto não vejam como uma coisa muito séria, mas, para quem acredita, o que é certo é que estas coisas criam zonas de conforto.
Chegámos lá nesse dia e estava o galo ao contrário e eu, que sou um bocado ligado a essas coisas das superstições, disse:
– Se querem a minha opinião, não mexam no galo porque o galo só nos ia dar sorte até à final. Se agora mexêssemos no galo para nos dar sorte ia ser contra nós. Como foram os franceses que mexeram no galo isto vai dar-lhes um azar tremendo e vamos ser campeões da Europa.
Dois dias antes de Portugal ser campeão da Europa, na sala de imprensa do centro de treinos, sentei-me onde normalmente falavam os jogadores e o Fernando Santos, estávamos a fazer testes de som, e relatei o golo de Portugal campeão da Europa. Não relatei o golo do Eder, no meu relato fictício era um golo do Ronaldo. E é engraçado porque uma televisão alemã capta esse momento e depois quando Portugal foi campeão da Europa partilharam no Facebook esse relato premonitório. Perdi o rasto a esse vídeo, mas na última vez que o vi tinha 80 e tal milhões de visualizações. Até fiquei assim um bocado… “como é que é possível? 80 e tal milhões!”, fiquei esmagado por isso.
São histórias engraçadas à volta do Europeu. Recordo-me também de na véspera do Europeu ter ido a um supermercado que ficava em cima do centro de treinos e o funcionário da caixa me ter dito que Portugal não tinha qualquer hipótese de ser campeão da Europa. E eu disse-lhe:
– Como é que podes dizer isso numa modalidade como o futebol, que está cheia de surpresas e de resultados imprevisíveis?
– Claro que não tem hipótese nenhuma.
Lembro-me que no final até comentei com o meu colega, o Paulo Cintrão:
– Epá, apetecia-me ir lá ao supermercado e voltar a vê-lo.
Depois acabámos por não ir a esse supermercado em Marcoussis.
Outra história engraçada relacionada com o Campeonato da Europa foi à saída do Stade de France. A última imagem que tenho do estádio é a de um jornalista francês, já com o estádio vazio, horas depois do jogo ter terminado, a dizer: “Portugal c’est champion de Europe avec un but de un jouer de Lille”, assim com uma cara desolada, como quem diz “organizámos nós isto, gastámos milhões, e vem agora aqui um jogador do Lille estragar a festa. Nem foi um jogador do Paris Saint-Germain, do Marselha, do Lyon ou do Mónaco”.
Outra história curiosa da final do Europeu. Cheguei ao hotel já eram umas duas da manhã, ficámos a 25 kms de Paris, e fiquei na recepção. Começaram a chegar colegas de outras rádios, televisões e jornais e perguntaram-me se não ia para o quarto dormir. E eu disse:
– Eu estou aqui acordado na recepção porque tenho medo de ir para o quarto, adormecer e isto ter sido um sonho. Portanto vou ficar aqui acordado na recepção.
Depois, naturalmente, acabei por ir para o quarto dormir.
São algumas das histórias engraçadas que tenho à volta do Campeonato da Europa. Depois o próprio dia, o relato do jogo, o momento do golo do Eder, tudo isso é uma tatuagem que fica na alma. Na nossa, dos que lá estivemos, e na alma de um povo. Os portugueses nunca mais esquecerão esse dia e esse momento do golo do Eder. Acho que só o título de campeão do Mundo poderá superar aquilo que aconteceu ali em Paris porque foi a primeira vez que Portugal ganhou uma grande competição.
O golo do Eder foi tão marcante que ainda hoje recordo a forma como eu e o Paulo Cintrão relatámos o golo. Há uma altura em que digo: “levanta-te Camões, sai dos Jerónimos e vem festejar connosco. Levanta-te Eusébio, sai do Panteão Nacional e vem festejar connosco. Traz a Amália e vamos cantar ‘numa casa portuguesa fica bem este golo com certeza’”. São coisas que nunca mais vou esquecer porque foram vividas com muita intensidade.
A minha música para o Eder, por ele ser ali da zona de Coimbra, era: “O Eder é uma lição, marca por tradição, um golo em Paris, Portugal campeão”. Há coisas que são preparadas por nós, momentos que tentamos antever e preparamos, há outros que são coisas que saem na hora e por vezes resultam bem, noutras não tão bem, porque são de improviso. Mas a rádio também é muito isso e vive muito dessa paixão e da forma como se vivem determinados momentos. Claro que preparamos os jogos, temos coisas que queremos dizer, mas depois há um lado de improviso que no fundo provoca toda esta adrenalina e também cola as pessoas à rádio. A magia da rádio tem muito a ver com isso.


Começou numa rádio local em Vila do Conde, em 1991 passou para a Rádio Nova, seguiu-se uma passagem pela TVI e pela Rádio Comercial e está na TSF desde 1997. Facebooktwittergoogle_pluslinkedinmail

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