João Paulo Sousa

Antes de começar tenho de avisar que grande parte dos problemas da minha vida têm a ver com a minha família e com o futebol. A minha família não é como as famílias normais, que são do Benfica, do FC Porto ou do Sporting. Lá em casa há cachecóis e canecas do Sporting. Quando o Sporting joga nós vemos o jogo, mas a minha família é, na verdade, de um clube chamado SPORTE. É uma coisa lá deles… O meu pai sempre insistiu que eu fosse do SPORTE e o único orgulho dele é dizer “o meu filho é do SPORTE!”. E a pressão é enorme! E isto é injusto, porque eu nunca pressionei os meus pais. Nunca lhes disse para pararem de ouvir Marco Paulo, Padre Borga ou Toy.
Só uma vez é que tentei que eles mudassem isso. Tive uma conversa com o meu pai: “Pai, estou farto do Marco Paulo, farto do padre Borga e eu sei que o Toy está ‘estupidamente apaixonado’ e que isso ‘é mais forte do que ele’, mas eu não quero saber. Eu quero ser teu amigo e estar mais próximo de ti. Mas para isso preciso que ouças também a minha música, ouviste?!”. Então peguei numa cassete dos Nirvana. Já foi há uns anos. Pus no rádio: Smells Like Teen Spirit. E durou sete segundos aquele momento mágico em que eu e o meu pai, juntos, ouvimos a mesma música, desta vez escolhida por mim. Até que o meu pai se virou para mim e disse palavras que eu nunca mais vou esquecer: “Bah, mas esse homem está aí a ralhar com quem?”. E eu, já de lágrimas nos olhos, disse: “Pai, paiiiiiii… Dá-lhe uma oportunidade, pai. É minha banda favorita!”. E foí aí que eu vi uma lágrima no canto do olho do meu pai e senti que ele estava disposto a aceitar aquilo e perguntou-me: “Filho, esse homem… esse homem ao menos é do SPORTE?”. E nunca mais ouvimos música juntos.
Eu bem tinha avisado que a culpa era da minha família. E do futebol…


Participou na quinta temporada de Morangos com Açúcar e foi apresentador no Disney Kids durante três anos. Em 2012 saltou para o Curto Circuito, da SIC Radical, onde ainda se mantém.

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