João Nuno Coelho

Tinha 6 anos. Acabara de entrar para a primeira classe na escola primária e ainda estava na fase de adaptação à nova realidade e aos colegas. Para mais, com as minhas botas ortopédicas (por causa do pé raso) e os meus óculos de lentes grossas não era uma escolha muito prometedora para os jogos de futebol no recreio.
Porque éramos os mais pequenos, o campo que tinha balizas ficava sempre para os “grandes”, os da terceira e quarta classes. Mas um dia, por qualquer razão, tivemos direito ao campo só para nós. E depressa se organizou um jogo entre as duas turmas da primeira classe da escola, em que participavam todos os alunos.
Lembro-me bem do meu entusiasmo ao começar este jogo – parecia uma coisa a sério, com balizas e tudo. Tenho a recordação de sermos jogadores a mais para o espaço do campo, de andarmos todos ao monte atrás da bola, sem qualquer organização, como é típico destas idades. E de no meio da grande confusão, ver a bola à minha frente, dar-lhe um chuto e enfiá-la na baliza adversária. Lembro-me também da festa que os meus colegas me fizeram.
Num jogo com muitos jogadores e pouco espaço, aquele golo tornou-se um bem precioso, porque único. Devia estar quase a “tocar para dentro” e cada vez mais eu era o herói. Até que o destino decidiu dar-me uma lição. Não tenho memória do lance, mas sei que marquei novo golo, só que desta vez na minha baliza. O orgulho deu lugar ao desconsolo.
Depois deste meu primeiro autogolo (o primeiro de poucos no futebol e de muitos na vida) o jogou durou pouco mais e terminou com um muito sério empate a uma bola. De herói completo passei a semi-herói. Mas de desconhecido passara a protagonista. De “caixa de óculos”, a alguém que era capaz de marcar no jogo mais importante. De descartável, a primeira escolha na selecção das equipas.
Emoção. Drama. Uma história sem guião. Uma profusão de sentimentos contrários vividos intensamente. Com certeza que não pensei em nada disto naquele dia, mas sei que é isto que me cativa no jogo e me transformou para sempre num “maluco da bola”.
Tenho consciência de que não me apaixonei pelo jogo quando vi os primeiros jogos. Isso aconteceu quando participei nas primeiras partidas, quando passei à prática. Depois, de uma forma natural, o jogo foi-se assumindo como central na minha vida, inclusive em termos profissionais – embora neste caso com a bola dentro da cabeça e não nos pés.
Adoro ver futebol. Adoro falar de futebol. Adoro ler, estudar, pesquisar sobre futebol (e ainda me pagam). Mas nada disto se compara ao gozo de jogar. Jogar futebol, ou jogar a bola – aquilo que os jogadores e treinadores profissionais de futebol dizem que nós, amadores, fazemos.
Jogar a bola sempre me deu tal prazer que nunca consegui (e desisti de tentar) explicar essa paixão. Mas há quem diga que o futebol é tão popular porque permite aos homens voltarem a ser criança, regressar à infância, única fase da vida em que podes ser absolutamente feliz, totalmente livre.
Hoje em dia, acredito que no futebol esse regresso à infância encontra-se praticamente limitado ao “jogar a bola”, porque quase tudo o que está relacionado com o futebol-espectáculo de massas perdeu grande parte da magia. É um negócio, dominado pelos mais poderosos, numa guerra constante de interesses, quase todos económicos. E os futebolistas não podem escapar à engrenagem. Bem dizia Galeano que a história do futebol era uma viagem em que o prazer foi dando lugar ao dever.
Mas não para mim. Como jogador (amador) sou um privilegiado: no liceu, ajudei a criar uma equipa de amigos que hoje, passados 30 anos de divertimento partilhado, está mais activa do que nunca (até tem “camadas jovens”, das quais sou treinador). Por isso, sempre pude viver em pleno a definição de Xavi: “o futebol é uma bola e uns quantos amigos”.
O problema é que se a idade não é obstáculo a que faças todas as outras coisas relacionadas com futebol, impede-te de continuar a jogar com genica ad eternum. E mais cedo ou mais tarde tens mesmo que parar – pelo menos em termos competitivos. E futebol sem competição não é futebol.
Depois de uma grave lesão (ruptura do Aquiles), há cinco anos, tive que entrar no doloroso processo de perspectivar o fim da “carreira”. Como não consigo abandonar de uma vez só – seria demasiado para mim – estou a desacelerar, até parar um dia destes. Sei que será uma primeira “pequena morte”, ainda que de certa forma esta já tenha começado, na sua versão mais lenta.
Durante os longos meses de recuperação da lesão, afastado da bola, aconteceu-me uma coisa incrível: quase todas as noites sonhava que estava a jogar. E aí era outra vez livre.


Sociólogo e autor de livros ligados ao futebol, tornou-se um rosto familiar com o programa Liga dos Últimos. Actualmente pode ser encontrado n’A Grandiosa Enciclopédia do Ludopédio, também na RTP.

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