João Blümel

Vou ser sincero. Quando me fizeram o convite para escrever este relato ri-me por dentro e pensei que só podia ser uma brincadeira dum amigo meu. Alguém que deva ter dito “Olha, o Blümel é que era uma boa escolha para escrever um relato. Ele percebe imenso de futebol e não passa um dia sem comprar o jornal e acompanhar os resultados todos. Até a segunda liga dos Sub-17 ele acompanha!”. E acho que por esta última frase se depreende que na verdade eu percebo muito pouco de futebol. Eis a minha história…

Todos os miúdos têm um fraquinho por futebol. E de todos os miúdos, eu sempre fui o mais fraquinho. Desde criança que sempre adorei fazer desporto e confesso que até era bom aluno. Era provavelmente o único nerd que tirava 5 a tudo, incluindo a Educação Física! Adorava jogar basket, volley, andar de patins, fazer ginástica acrobática, escalada, enfim… Gostava de quase todos os desportos, menos um: futebol. Agora que reflicto sobre isto, acho que grande parte do meu desinteresse pode ter partido da minha inacreditável inaptidão para jogar. Lembro-me de jogar com os meus amigos quase todos os dias e, mesmo assim, era sempre, mas sempre, o último a ser escolhido. Não era uma questão de treino… estava mesmo nos genes! Qualquer miúdo zarolho, coxo ou obeso era sempre escolhido primeiro que eu. Pensando bem, quase que podia dizer que o futebol arruinou a minha auto-estima. Mas isso não seria verdade.

Houve uma altura da minha vida em que coleccionava os cromos da Panini e em que sabia de cor o nome de todos os jogadores do meu clube. Vejam lá se adivinham: Domingos, Rui Barros, Jorge Costa, João Pinto, Vítor Baía, Secretário… O que eu quero dizer com isto é que todas as minhas noções de plantel “actual” do “meu” clube têm agora 20 anos de idade! Ou seja, na altura em que eu estava por dentro do que se passava no Futebol Clube do Porto e no futebol nacional, o Titanic ainda não se tinha afundado nos ecrãs de cinema e o Mimo da TMN estava a dar os primeiros passos.

Mas depois vem o afecto do futebol. As histórias que o meu pai contava sobre quando era adolescente e ia a pé até às Antas, atravessando a cidade toda só para ver o Porto a jogar. Ou quando não conseguiu bilhete para o Porto-Sporting em 81 e trepou o holofote para ver tudo. A emoção com que ele se recorda de termos sido campeões intercontinentais em 1987 e o mau-humor com que ainda hoje fica cada vez que o Porto perde. Tudo isso me faz sorrir e relembrar que o futebol também é objecto de partilha e de afecto. Que cria laços entre família e amigos, que é desbloqueador de conversa no táxi e no café e que também é muito nosso, muito português.

Dizem que hoje o futebol é um grande negócio e pouco desporto. Como estou por fora nada sei, só sei que me delicio a ver as emoções no ar, por todos aqueles que vibram com a sua energia. E é gooooooooooollllllooooooooo…


Nasceu no Porto, mas vive há 15 anos em Lisboa. Mentalista a tempo inteiro, sabe sempre o que os outros estão a pensar. Podem vê-lo em espectáculos um pouco por todo o país.

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