João Alves

Tenho uma história como jogador, com o José Maria Pedroto. Era um jogo para a Taça de Portugal, contra o Lamego, de onde ele era natural, equipa que estava na III Divisão. Foi na altura do Boavistão, até foi quando ganhámos a primeira Taça de Portugal.
Eu estava tocado e pensava que o mister Pedroto ia dar-me folga nesse dia. Disse-lhe que não estava em condições de jogar e perguntei-lhe se podia descansar enquanto recuperava da lesão, até porque há muito tempo que não passava um fim-de-semana com a família. E o Pedroto disse-me que quando chegasse a altura do jogo a gente depois falava. Ainda reforcei: “mister, quero recuperar bem e pôr-me em condições para depois não ter problemas no resto do campeonato.” Marquei o fim-de-semana com a minha família, para desanuviar um bocado do futebol, e quando saiu a convocatória acabou por convocar-me. Fiquei surpreendido, ainda por cima estive toda a semana sem treinar, e fui ter com ele. Voltei a dizer-lhe que não estava em condições e ele “está bem, não estás em condições mas vais fazer companhia à gente, gostamos muito que estejas connosco” e não sei quê. Lá me deu a volta à maneira dele. Ficámos num hotel ao pé da Nossa Senhora dos Remédios, lembro-me perfeitamente disso, era um sítio muito pitoresco, muito giro, e quando chegou a altura da palestra ele dá o meu nome para jogar. Fiquei admirado e voltei a dizer que não estava em condições, mas lá fui para o jogo, com a ajuda de anti-inflamatórios.
Vimo-nos aflitos para passar essa eliminatória, que acabou por abrir caminho à segunda Taça do Boavista, numa final disputada nas Antas contra o Vitória de Guimarães. Joguei quase ao pé coxinho mas marquei um golo e dei outro a marcar. No final do jogo o mister veio ter comigo: “estás a ver que afinal tinha razão? Se não tivesses vindo não tínhamos ganho o jogo.”
E foi com ele que ganhei um hábito. Quando chegávamos a sítios em que o autocarro tinha de dar a volta em marcha-atrás saíamos todos. Uma vez, num campo que ficava numa grande subida, começou aos gritos com o motorista, que ia fazer a marcha-atrás, e foi tudo com os sacos com os equipamentos a subir uma rampa. E ainda andámos um bom bocado. Ele era muito supersticioso nessas questões. São os tais treinadores que marcam muito os jogadores.
Também quero partilhar uma história como técnico sobre um Braga-Estrela da Amadora para o campeonato. O António Oliveira era o treinador do Braga e ele tinha grandes amigos lá na Amadora, estava a par das coisas no Estrela: quem ia jogar, quem não ia jogar, mandou lá um observador, apareceu lá alguém muito ligado a ele a ver os nossos treinos…
Tínhamos um jogador que era o Ricardo Lopes, que também jogou no Guimarães, um excelente jogador. Ele estava em grande forma e não foi convocado. O rapaz ficou meio chateado, porque era um titular indiscutível, disse-lhe que queria que descansasse e se preparasse para o jogo seguinte. A equipa fez a viagem para o Norte dois dias antes, estava muito mau tempo. Nessa noite disse ao secretário-técnico para telefonar ao Ricardo e para o mandar ir porque tinha sido convocado à última da hora. Sem ninguém saber, o Ricardo aparece no estágio na véspera do jogo, juntou-se à equipa e ganhámos 1-0 com um golo dele. Não fez parte da lista de convocados, em termos de comunicação social também foi uma surpresa ele depois ter aparecido na ficha de jogo e deu-se a coincidência de ter sido ele a fazer o golo.


Além de Boavista e Benfica destacam-se passagens por Salamanca e PSG, nos anos setenta. Já como treinador tem no currículo duas Taças de Portugal, por Estrela da Amadora e Boavista.

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3 comentários sobre “João Alves

  1. Penso que foi o João Alves, ao serviço do Benfica que marcou o golo ao Tibi FC Porto, depois de um longo período sem sofrer golos. Dando origem à expressão “vai buscar Tibi”.

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