Joana Marques

Lisboa, meados de 1992 ou coisa que o valha (não dava para jornalista, sou péssima para informações exactas): no recreio do colégio falava-se de futebol, e os meus amigos perguntavam-me de que clube era. “Porto!”, atirei eu, prontamente. “Porto!?!?” ergueram-se as vozes (dentro do que é possível erguer quando estamos na pré-primária). Perante os olhares acusatórios, saquei do meu melhor bluff e disse, timidamente: “estava a brincar… sou do Sporting”. Realmente os miúdos, quando brincam ao faz de conta, fazem-se passar por coisas absurdas: índios, cowboys, adeptos do Sporting (!?). Não sei onde tinha a cabeça. Quer dizer, até sei: senti que ela estava no cepo e achei que a mentira podia ser a solução para me safar de uma sessão de bullying. Nesse dia percebi que ser do Futebol Clube do Porto não ia ser fácil. E depois devo ter ido para casa ver a Rua Sésamo. Mas foi precisamente por não ser fácil que percebi que valia a pena, e decidi que nunca mais teria de mentir. E por isso ainda hoje sinto as dores daqueles comentadores-supostamente-isentos que têm de passar a vida a morder-se, para fingirem ser o que não são, e para não lhes fugir a boca para a verdade. Não desejo isso a ninguém. É como se tivessem ficado aprisionados no recreio da primária para sempre.
Ainda me cruzo muitas vezes (demasiadas vezes) com o espanto alheio. “És do Porto? Porquê?”. Como se fosse preciso uma justificação (haveria tantas, passem pelo museu!) e como se os nossos heróis tivessem de viver no nosso bairro. Pobres de nós, não poderíamos admirar Nelson Mandela se tivessemos nascido em Odivelas.
Este meu amor foi crescendo, perante os olhares reprovadores dos que nos rodeavam. O Porto e eu, tipo Romeu e Julieta, mas com final feliz. Menos veneno, mais troféus. Dizem que as relações mais difíceis são as que se mantêm à distância. Mas este amor é à prova de bala. Que é como quem diz, à prova de épocas más, goleadas fora de portas, flops, penalties falhados, bolas à barra…. Basta um golo. Um golo apenas e eu perdoo-lhe tudo. E ele perdoa-me que eu o tenha insultado loucamente durante 90 minutos. Queremos o melhor um para o outro. O meu coração terá sempre a mesma cor: azul e branco. E sim, o velho capitão tinha razão, esta combinação forma uma nova cor. Uma espécie de acordo ortográfico dos pantones. Se pode haver rosa-fuschia a ou pêssego-alperce, também pode haver azul-e-branco-Porto. Porque uma cor só era pouco para nós.
A escassos dias de ser mãe, a pergunta que mais ouço, logo a seguir à clássica “é menino ou menina?”, é se vai ser do Futebol Clube do Porto ou do clube do pai. Não sei. Até pode ser doutro qualquer. Felizmente a mim nunca ninguém me obrigou a ser de nada. Os meus pais não me inscreveram em clube nenhum, não me baptizaram, não me tornaram militante de nada. Faz-me sempre confusão ouvir gente a dizer que é de determinado clube porque “lá em casa eram todos, não havia outra hipótese”. Imaginem o azar se tivessem nascido numa família de homicidas.
Se gostava que o meu filho sentisse a mesma emoção que eu quando entro no Estádio do Dragão? Gostava. Adorava que ele cantasse com mais afinco o hino da Maria Amélia Canossa do que as canções do Panda. E aliás, tendo o clube do pai tantos adeptos (14 milhões, ou 30, ou lá o que era, na última contagem) acho que mais um menos um não lhes fará diferença, mas ao fim de trinta anos a comemorar golos sozinha, já estou mais que habituada, e poderei continuar, se necessário for. É até um momento libertador. Há quem vá para as montanhas do Tibete para se encontrar, a mim bastam-me noventa minutos de Porto.
De qualquer forma, de uma coisa tenho a certeza: hoje não há razão para nenhuma criança lisboeta hesitar antes de afirmar, a plenos pulmões, com confiança e orgulho, que é do Futebol Clube do Porto. Será o maior do recreio, mesmo que seja o mais baixinho da turma.


Depois de ter sido metade do programa “Altos & Baixos”, com Daniel Leitão no Canal Q, é hoje guionista, comediante e uma das “Donas da Casa”, com Ana Galvão na Antena 3.

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8 comentários sobre “Joana Marques

  1. Grande Joana!
    Ainda bem que a vergonha de ser do nosso FCP passou a orgulho.. Um orgulho imenso e um amor eterno.
    Aproveito para te dar parabéns pelo teu trabalho. És uma lufada de ar fresco no humor português que tem sido pautado pelos pseudo-inteligentes com capacidades dúbias.
    Espero no próximo mês encontrar-te nos aliados para festejarmos mais um campeonato!

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