Jaime Cancella de Abreu

Quando o livro do Mourinho estava para ser lançado, algures pelo final de Junho de 2003, fui um dia almoçar a Setúbal com ele e com o Luís Lourenço, que foi quem escreveu, para lhes mostrar todo o design do livro, muito arrojado para a época. Almoçámos e no fim da refeição abri a pasta e tirei a maquete da paginação e da capa do livro para o Mourinho ver, porque para mim era muito importante que ele, não só gostasse, como também se identificasse com o trabalho que estava a ser realizado. Ele olhou para aquilo, viu e respondeu-me assim:
— Mas tu achas que eu alguma vez te vou pedir ajuda para fazer a equipa do FC Porto?
E matou o problema. Ou seja, ele estava a dizer-me: “Tu és o editor, tu é que sabes. Da mesma forma, eu sou o treinador do FC Porto e também não te vou pedir ajuda para alinhar um onze.”
Esta história tem muito interesse porque é bem reveladora da personalidade do Mourinho. Não é o convencido, nem acha que é o maior, como as pessoas às vezes pensam. Além de ser extremamente simples no contacto direto, muito “tu cá tu lá”, sabe onde residem exatamente as suas competências. Ao contrário de muita gente – e eu conheci vários ao longo da minha atividade de editor – que quando se sente importante acha que o é em todas as coisas, valorizando muito a sua opinião em áreas que não lhe dizem respeito, o Mourinho simplesmente descartou a responsabilidade para mim, mas pela positiva, como quem diz: “Tu é que percebes disto e, se propões assim, eu estou necessariamente de acordo.”


Gerente-executivo da Prime Books, editora especializada em publicações desportivas, responsável por alguns dos maiores sucessos de vendas de livros do futebol em Portugal.

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