Ivkovic

O empresário Lucídio Ribeiro estava a falar com o Sousa Cintra sobre a minha contratação. Combinámos um encontro em Paris e juntámo-nos lá num restaurante. Ao mesmo tempo ia falando ao telefone com um familiar meu, que tinha outro clube interessado em mim e me ia dando sinais de como estavam a correr as conversações. Era um clube da Bélgica, e claro que o Sporting era maior. As pessoas à minha volta iam traduzindo e o Sousa Cintra ia com a minha cara, eu estava alegre, a brincar, mas quando estávamos a falar de coisas importantes, do salário, prémios, apercebeu-se que alguma coisa não estava a correr bem. Eu até já estava a contar histórias, da minha vida, da Selecção, e ele gostou. Até que eu disse ao intérprete para dizer ao empresário que aquilo assim não ia dar. Estava a falar em croata, mas o Cintra, como é um grande empresário, disse logo: “Espera aí, espera aí! O que é que se passa, qual é o problema? Diz-me a mim, diz-me a mim.” Não entendi o que ele estava a dizer, mas percebi que era comigo. Então disse-lhe que queria um valor todos os meses, que me garanta que vou receber, juntamente com os prémios, um ordenado fixo, jogássemos três, quatro ou dez jogos. Ele começou a dizer que não havia problema, para o deixar perceber. E começa-se a rir. Estava com ele um director, também importante, e ele diz: “Deixa estar, o homem é um grande craque. Assina aquela merda e vamos embora, pá!”
Fomos para Lisboa no avião dele, tanta turbulência, quatro lugares lá dentro, levantámos de Paris e estava meio-morto quando chegámos. Fomos ao restaurante do vice-presidente Abílio Fernandes, no centro de Lisboa. Deixou o carro no meio da estrada, cumprimentou um polícia, parecia um xerife nos Estados Unidos. Eu ria-me tanto. “Este é o craque, olha aqui!” Tanta alegria, ele vivia de uma maneira que parecia que num dia vivia cem anos. Era tudo uma maravilha, depois de repente uma tragédia, depois fica doido, depois começa-se a rir. Tantas mudanças de comportamento, era uma coisa impressionante. Adorava futebol, era apaixonado. Só que não percebia muito.
Uma vez fomos eliminados na Roménia, para a Taça UEFA, com o Dínamo Bucareste. Ganhámos 1-0 em Lisboa e perdemos 2-0, após prolongamento, lá na Roménia. Naquela Direcção da altura não havia muita gente que percebesse de futebol. O Sousa Cintra trouxe amigos, mas não tinham experiência no futebol. Perdemos na Roménia, uma tragédia, houve uma reunião lá em cima na Direcção e perguntaram ao Marinho Peres o que tinha acontecido. Parecia um tribunal. O Abílio Fernandes, o tal vice-presidente, começa: “Como é que foi possível perderem?” Como ele tinha o restaurante, eu na altura passei-me da cabeça e disse: “Ó Abílio, sabes o quê? Vai mas é vender o peixe no teu restaurante! Faz o que tu sabes e deixa o futebol em paz, vai-te embora.” Aquilo foi uma bomba! O Sousa Cintra diz: “Ó pá, eu adoro-te, mas como é que pudeste dizer uma coisa destas?” E eu dizia: “Mas como é que eu posso explicar como é que perdi o jogo? Porque é que eu não dormi na noite anterior, acordámos todos às quatro da manhã e encontrámo-nos no corredor do hotel, ninguém dormia. Como é que eu posso explicar agora como é que isto aconteceu, pá? O futebol é imprevisível.” Mas aquilo foi um escândalo, os jogadores estavam a rir-se, foi uma confusão. “Ó Abílio, vai lá vender o peixe!” Claro que o vice-presidente ficou maluco, ficou chateado comigo. Mas eu disse a verdade, era a mesma coisa que perguntar no restaurante porque é que o peixe está mal assado. É assim…
Nunca esqueço o meu presidente, foi ele que me trouxe para o Sporting. Graças a ele senti a grandeza do clube, onde tinha muito prazer em jogar.


Depois de quatro épocas como titular em Alvalade, ainda passou por V. Setúbal, Estoril, Belenenses e Estrela da Amadora, onde terminou a carreira aos 37 anos.

Esta é uma das 20 histórias inéditas, num total de 100 presentes no livro “Relato – Histórias de Futebol”, que pode ser adquirido em todas as boas livrarias ou encomendado aqui.

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Um comentário sobre “Ivkovic

  1. Grande Ivkovic! Eras melhor pessoa que GR mas ainda assim é bom recordar-te. Um abraço desde Angola!

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