Idalécio

Quem me conhece sabe bem o difícil que era arranjar chuteiras com o tamanho 47, sempre tive uma grande dificuldade. Ainda para mais naquela altura, final dos anos 80, início de 90, agora já se vão vendo de várias cores e tamanhos, mas quando comecei era complicado. Nos juniores, no Louletano, acabei por fazer alguns jogos de sapatilhas, uma vez que jogávamos num campo pelado, sem relva. Às vezes era possível, embora fosse difícil, mas acabei por ter de jogar assim porque não era fácil encontrar o meu número.

Havia a famosa marca Desportex, que de vez em quando lá encontrava, ou a Coppa Mondiale, que tinha de pedir por encomenda nas lojas, mas depois os timings de entrega não eram os melhores, havia sempre demoras e nem todas as marcas faziam, não era de um dia para o outro que conseguia. Um jogador com um pé normal, ou com um pezinho de senhora, como eu chamava a alguns, não passava por estas dificuldades, mas naquela altura não era fácil para mim. Tenho 1,96 metros, costumo dizer que comia a sopa toda quando era pequenino, e sempre tive problemas também com o equipamento: a camisola ficava justa e os calções pareciam boxers! E passei à reserva territorial, os meus colegas até diziam que era porque na tropa não tinham botas para mim.

Quando cheguei ao Farense tive uma história curiosa. Eles tinham conseguido o apuramento para as competições europeias e íamos defrontar o Lyon. O Jorge Soares, o meu colega na defesa, acabou por me desenrascar umas chuteiras para realizar o jogo em Faro. Não era o mesmo número, ele calçava o 44 ou o 45, mas as botas já tinham alargado bastante, eram umas Adidas, e o meu pezinho delicado já cabia lá dentro. Não sei se não terá sido esse o motivo para não termos passado a eliminatória…

Depois, quando fomos a França, aproveitámos para ir ao shopping às compras para ver se encontrava umas botas que me servissem. No nosso Portugalzinho tinha muitas dificuldades para encontrar. Felizmente, o Rui Correia, o guarda-redes, que na altura estava no Braga, arranjou-me um contacto da Lotto e a partir daí nunca mais tive dificuldades. Depois acabei por ter a Umbro durante muitos anos, através do Paulo Araújo que era a grande referência e a pessoa que me desenrascava sempre. Quando precisava de alguma coisa, nem que mandasse de Inglaterra, estava sempre salvaguardado.

Jogar na UEFA foi uma experiência gira, o Farense tinha feito uma época brilhante. E é engraçado porque eu estava no Louletano e comecei a ver alguns jogos do Farense, ainda jogava o mister Paco Fortes. Tinham sempre grandes equipas, um ambiente fantástico, e eu pensava “fogo, quem me dera um dia poder jogar aqui”. E depois cheguei lá pela mão do falecido empresário Manuel Barbosa. Eu estava com moral, digamos assim, dentro do meio futebolístico e o meu pai chegou ao contacto dele. Na altura ia à selecção de sub-18 e sub-20, acabei por assinar com ele e ajudou-me a sair do Louletano para o Farense. Pôs-me lá por empréstimo, fazia muito isso. Adquiria o passe dos jogadores e metia-os por empréstimo aqui e ali, como foi o caso do Christian, que depois ainda chegou à selecção do Brasil, ou do Helcinho. Éramos jogadores que ele representava e estive ligado a ele durante muitos anos. Aliás, estive uns sete meses sem receber no Farense e ele assumiu tudo, tratou de tudo. Não digo que me pagou imediatamente os salários todos, mas ajudou-me a resolver a questão e meteu-me no Braga. Assinei só por um ano, também nas mesmas condições, depois assinei dois e, por último, assinei por três, num acordo em que ficou 50% do passe do Braga e a outra metade dele.


O Braga foi a equipa que mais representou na I Liga (130 jogos), defendendo ainda Farense, Nacional e Rio Ave no principal escalão. Hoje trabalha no Novikov, um dos melhores restaurantes de Londres.

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3 comentários sobre “Idalécio

  1. O Novikov não vale nada se não tiras uma fotografia com o enorme Idalécio!! Idalécio obrigado por sempre nós receber tão calidamente. ❤

  2. Grande Idalécio. Desejo-te as maiores felicidades nesta nova etapa da tua vida. Obrigado pela tua companhia a quando do jogo Chelsea – FC Porto. Abraço.

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