Humberto Bernardo

Em 1983, à beira de completar 11 anos, assisti à épica final da Taça UEFA com o Anderlecht. Até hoje, estou convencido que a minha história é tão única como a de qualquer outro adepto, dos 80 mil presentes.
O meu pai apresentou ao jornal “O Dia” a ideia de fazer um suplemento especial, que seria distribuído gratuitamente a todo o público que fosse ao estádio. Estava convencido que as pessoas o guardariam e que não seria difícil arranjar patrocinadores que custeassem a ideia. Assim foi. Propôs, coordenou, angariou os patrocinadores e orientou toda a distribuição no estádio. Lembro-me, durante anos, de manusear as impressões originais das fotografias de cada jogador do plantel, que foram a base visual de todo o suplemento.
Portanto, a minha tarde daquele dia de Maio foi passada com o meu irmão a acompanhar o meu pai enquanto verificava que todos os postos de distribuição entregavam o suplemento aos adeptos. Era uma tarefa um pouco chata, mas recordo, a partir de determinada altura, de estar a ver e a sentir a emoção dos jogos especiais. O pessoal circulava de forma diferente, em grupo, caminhava visivelmente para um espaço de decisão, com a emoção, o cântico e a esperança dos grandes momentos. Apesar de fazer parte do grupo de “coordenadores” do suplemento do jornal, eu sentia-me, afinal, como adepto do meu clube.
Finalmente, entrámos para o estádio. Cheio à pinha, ficámos no peão norte. Ainda passaram umas horas nas quais comemos o farnel, assistimos ao aquecimento e ficámos nervosos. Uma das grandes vantagens daqueles tempos era a de não haver speaker a orientar a bancada. Gritávamos em uníssono por união espontânea dos adeptos.
Ao nosso lado, um grupo bem animado de malta do Norte fazia-nos rir (a mim ao meu irmão) pelos vernáculos permanentes. Ao meu pai? Not so much… Uma das coisas que nos deu galo foi ter jogado a primeira parte para sul. Estou convencido que se fosse ao contrário não tínhamos sofrido o golo.
E recordo o passe de Humberto. Sim, foi na baliza contrária à que me encontrava, mas qualquer criança com 10 anos, se habituada, consegue distinguir o percurso da bola e antecipar o movimento dos jogadores.
Aos 36’, Lozano marca na conclusão de uma boa jogada, onde tivemos azar na sequência inicial de ressaltos. A táctica de Erikson passava por pressionar alto no lado esquerdo dos belgas, por onde canalizavam o seu jogo. Do outo lado, do direito deles, eram só carregadores de piano para tentar travar Fernando Albino Sousa Chalana.
Os jogadores juntaram-se no habitual molho de comemoração e, ao meu lado, um dos senhores daquele grupo atira imediatamente uma garrafa de bagaço, ficando a um ou dois metros do alvo. A minha sensação foi mista. Fiquei admirado com a lata de atirar uma garrafa e também aliviado por não ter acertado em ninguém.
O meu pai descompôs o homem. Foi uma discussão terrível. Disse-lhe que aquilo era um comportamento miserável, antidesportista e inadmissível! Nem os amigos do senhor o socorreram. Foi de facto, muito além do aceitável, mesmo para aqueles tempos. Hoje, o fenómeno é diferente. Está controlado e as situações excepcionais que acontecem, são isso mesmo: raras, localizadas e identificadas.
É por isto que não se compreende a actual ideia de dirigentes com comportamento de adepto irracional. Terão de ser desempenhos distintos. E muito menos se aceitam programas de televisão onde os adeptos apelam e praticam violência verbal e física!
Podemos brincar, eu próprio chamo amigavelmente tripeiros-lagartos aos meus amigos dos outros clubes, mas com o limite da civilidade, do respeito e do desportivismo!
Não se admite que certos “adeptos” atirem garrafas de bagaço uns aos outros, seja na televisão, no café, ou no estádio!
Os meus votos para ’18 são de paz e amizade entre todos os adeptos. Sejam do Glorioso, sejam azuis e verdes, sejam os roxos do Anderlecht!


É consultor de comunicação. Tem mais de 20 anos de experiência no sector audiovisual e multimédia como apresentador, no desenvolvimento de conteúdos e textos e como realizador. Trabalha actualmente no sector do Turismo.

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2 comentários sobre “Humberto Bernardo

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