Guilherme Fonseca

Para ser completamente honesto, o que estou a fazer aqui é batota. A história que vos vou contar é tanto minha como do Fernando Alvim e aposto que ele nem sabe que é personagem secundário nisto. Mas aqui vai.
Cresci ao pé do estádio do Benfica. É por essa razão – e só essa – que sou do Benfica. É pouco emotivo mas a verdade é assim, académica e fria. Só sou do Benfica porque para ter aulas de ténis dava jeito ser sócio daquele clube. E assim foi, o filho de dois pais totalmente alheios a futebol, cresceu a dizer que era do Benfica porque morava ao lado do estádio – mesmo que esse estatuto de sócio tenha durado pouco mais de um ano, até lhe pedirem para renovar as quotas e ele não o ter feito.
Ora, além de crescer com aulas de ténis e mais tarde de volleyball no Benfica, também cresci a ver o Curto Circuito no CNL e na SIC Radical. Não perdia um. Adorava ver o Bruno Nogueira, o Rui Unas, o Fernando Alvim, etc, todos os dias na minha televisão. Eram, à falta de melhor termo, os meus irmãos mais velhos. Diziam piadas porcas, faziam-me rir, mostravam-me música que eu não conhecia. Ora, é neste ponto da história que os dois universos se juntam.
Um certo dia, fui ao Colombo fazer compras com a minha mãe. Estacionei na garagem e quando dei conta, estava ali o meu “irmão mais velho” Fernando Alvim. Paralisei. Era ele. E trazia qualquer coisa debaixo do braço. Aliás, carregava entusiasticamente qualquer coisa para enfiar na mala do carro. A minha mãe percebeu que eu o vi, puxou-me o braço, e obrigou-me a pedir-lhe um autógrafo. Quando chegámos perto – e a minha mãe interpelou o Fernando Alvim com uma folha arrancada da sua agenda e uma caneta – é que percebi o que era que carregava.
O Fernando Alvim, que eu conhecia e admirava da televisão, estava a gamar cadeiras do “falecido” Estádio da Luz. No processo de mandarem abaixo o velho e de erguerem o novo, que se vê agora na Segunda Circular de frente para o Colombo, foram ficando alguns restos mortais no terreno. E o Alvim, munido de um amigo e de força de braços, foi surripiar cadeiras do estádio para ficar com elas em casa. Suponho que estivesse a tentar ser discreto, mas quando uma criança que não abria a boca de nervos e uma mãe energética com uma caneta em riste, o interrompem, fica difícil.
Simpático e sorridente, assinou a folha da semana daquele mês – até fez um smile e tudo. Apertou-me a mão e continuou alegremente a carregar peças de mobiliário com anos e anos de história de rabos benfiquistas. É das memórias mais carinhosas que tenho de infância, ver uma pessoa que admirava a guardar relíquias de um estádio que via da minha janela. Era como se me estivessem a provar que os meus heróis tinham bom gosto.
Hoje em dia tenho a sorte de ser, eu próprio, apresentador do programa que cresci a ver todos os dias. Só me falta estar a carregar o carro com cadeiras de um estádio em fanicos e ser apanhado por um Guilherme mais novo. Digam-me quando houver obras no Estádio da Luz que tenho aqui um ciclo de vida para fechar, se faz favor.


Começou a fazer stand-up em 2006 e em 2010 integrou a equipa do Canal Q, onde ainda colabora como argumentista. Actualmente também apresenta o “Curto Circuito All Stars”, na SIC Radical.

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2 comentários sobre “Guilherme Fonseca

  1. Isto era para ser um simples relato da experiência do autor… tem calma “Sócio do SLB antes e depois das cadeiras”

  2. Ora, fartei-me de rir.

    Como se apanham benfiquistas um pouco ridículos e modernos, é assim… não percebem nada, mas mesmo nada, do que estão a dizer. E julgam que a sua experiência do antigo estádio é notável, quando não é.

    O que é bom-gosto, é no fundo mau-gosto.

    Para que raios queria o Alvim cadeiras do antigo estádio do Benfica? Não entendo… a verdadeira experiência do antigo estádio estava nas bancadas nuas. É aí que estava a História do Benfica.

    Tudo o resto não tem grande significado. Cadeiras de plástico, desconfortáveis, condiziam com a decadência desportiva do Glorioso.

    Outra falhas óbvias no discurso: “peças de mobiliário com anos e anos de história de rabos benfiquistas”, “a guardar relíquias”.

    Isto é para rir, não liguem. É mesmo para rir. Só pode ser uma piada, já que não faz qualquer sentido. Quais “relíquias”? Realmente quem ler isto cai numa grande asneira.

    O antigo estádio do Benfica só teve cadeiras a toda a volta uns cinco a seis anos. E em épocas de crise aguda, sem títulos, na maior crise de sempre do Benfica. É uma história curta, muito curta, no grande quadro das coisas.

    De resto, só os cativos, na centrais abertas e no sector coberto do 2º anel, é que tiveram cadeiras durante uns quinze anos. Mesmo as cadeiras a toda a volta do 2º anel e do 1º anel aquando da remodelação nos anos 1980 foram retiradas, ficando só nos sectores que referi. Estamos a falar na 2ª metade da década de 1980, realmente uns quinze anos em quase 50, ainda por cima nuns sectores com percentagem de adeptos muitíssimo reduzida em relação ao restante estádio. Não posso precisar uma percentagem, obviamente, mas não estou muito longe da verdade se disser que cerca de 95% do antigo estádio da Luz não teve cadeiras durante a quase totalidade da sua História.

    Se as cadeiras do antigo estádio da Luz representam alguma coisa do Benfica, lamento, é a sua queda desportiva e económica. É assim que eu vejo: quanto mais cadeiras tinha o antigo estádio do Benfica, maior era a crise do clube. Portanto, e isto é para tentar fazer uma piada, as cadeiras é que destruíram o Benfica. Guarda-las, é recordar a queda de um Gigante. Mais valia o Alvim ter ficado com um bocadinho de pedra, isso sim, era uma relíquia.

    Por amor da Águia, falar em “relíquias” em relação às cadeiras do antigo estádio da Luz, das duas uma: Ou nunca teve o rabo na pedra, ou não sabe o que diz.

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