Geraldo Alves

Na altura do Mourinho no Benfica, ele chamou-me a mim e ao Nuno Abreu para treinarmos com a equipa principal. O João Tomás estava muito bem, ia à Selecção e tudo, e foi na véspera do jogo contra o Sporting, o último do Mourinho. Nessa semana houve um treino em que começou a chover torrencialmente mas o Mourinho não estava nem aí, o treino era para continuar. E houve um lance com o João Tomás em que fiz um carrinho, com o campo molhado, ficámos ali prensados, não consegui evitar o choque. Opá, e fiquei um bocado assustado, como é normal. Era miúdo, estava a chegar à equipa principal, ainda por cima foi com um jogador que estava a ser importante para a equipa e vinha lá o derby contra o Sporting. Correu tudo bem: ele recuperou e marcou nesse jogo, e eu fui convocado e acabou por ser a minha estreia na I Liga portuguesa.
Enquanto o Mourinho lá esteve não nos mandou de volta para a equipa B, via o nosso potencial e gostava do nosso estilo porque incutíamos agressividade no trabalho. Lembro-me que, antes disto, a seguir ao jogo com o Marítimo, em que perdemos 3-0, quando o Lagorio, um avançado argentino, marcou um hat-trick, houve um treino em que ele disse palavras que nunca mais esqueci e vi que era um treinador excelente: “Não acredito como é que três internacionais (Paulo Madeira, Fernando Meira e Marchena) deixaram um avançado marcar três golos. Eu não acredito que ele seja melhor que vocês”. E nesse mesmo dia fez um treino que consistia no seguinte: meteu o Toy numa área dividida em três e disse ao Fernando Meira e ao Marchena, que o iam defender: “se ele receber a bola, em qualquer uma destas zonas, é um 1-0 para a equipa deles. Se ele rematar à baliza é 2-0 para eles. E se meter golo, vale três”. E era igual para nós. Do outro lado estavam o Paulo Madeira e o Nuno Abreu a defender o João Tomás, se não me engano. Eu estava a jogar no meio-campo. E o Toy não fez nenhum golo nem recebeu uma única bola, o Fernando Meira e o Marchena engoliram-no! Sem fazerem falta, tudo na lealdade, engoliram o Toy. Tanto que no jogo a seguir, contra o Farense, jogaram eles e jogaram bastante bem.
Com esse treino, muita coisa mudou no balneário e até na forma de treinarmos. A partir daí só ganhámos até o Mourinho sair. Ele conseguia mesmo tirar o melhor dos jogadores.


Além do Benfica, por cá representou Beira-Mar, Gil Vicente e Paços de Ferreira. Depois jogou na Grécia (AEK) e Roménia (Steaua, Petrolul Ploiesti e Astra Giurgiu), onde terminou na época passada.

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