Futre

Estava com 18 ou 19 anos e, na altura, o Futebol Clube do Porto tinha de fazer uma digressão a Paris, íamos jogar futebol indoor. Aquilo eram dois ou três jogos e tinha de ir eu e o Gomes, porque o cachet era maior se fossemos.
Na véspera da ida jogámos com o Salgueiros, lá no Salgueiral. Muita porrada, deram-me cabo dos gémeos ali, não é? Quando o despertador toca às seis da manhã, para ir para o Estádio das Antas e depois seguirmos para o aeroporto, mal ponho os pés no chão, volto a meter-me na cama. Não podia, tinha os gémeos super inchados, até rasgados, tinha marcas dos pitons.
Ligo para o estádio e digo ao Octávio, “Eh pá, mister, não me posso mexer e de certeza que não vou viajar.” E ele, “tens de ir”, “o cachet”. Eu continuava a dizer-lhe que não podia e desliguei o telefone. Ligam-me outra vez, era o Artur Jorge. “O que é que estás a fazer, tens de vir.” E eu, “Mister, não posso.” Ele continuava a insistir: “Vem já para aqui, mete-te num táxi.” Respondi que não saía dali, até que para aí uma meia-hora, uma hora depois, voltam a ligar e veio o Pinto da Costa. “Paulinho, o que é que se está a passar?” Expliquei e ele:
— Mas sabes que tens de vir.
— Presidente, eu sei que de tenho de ir, mas dói-me mesmo muito, tenho os gémeos inchados.
— É o que é, mas mete-te num táxi e vem cá para vermos isso.
— Presidente, fazemos ao contrário, você mande aqui a equipa médica. Estou a dizer-lhe que não posso meter os pés no chão. Mande a equipa médica aqui a casa e vai ver que tenho razão.
Nunca mais me esqueço, eu a dizer-lhe:
— Presidente, nem com um guindaste vou poder ir a França!
— Vamos fazer uma coisa, Paulinho. Eu mando aí os médicos e vai depender deles.
— Presidente, vai mesmo depender eles. Uma ordem sua… Mas vai ver que nem com um guindaste consigo sair da cama.
E assim foi. O médico chegou lá a casa e disse que não podia viajar. Sabia que tinha razão e fui pela minha cabeça. É uma história que, parecendo que não, ainda por cima com 19 anos e dizer que não ao Pinto da Costa… Não só eu, qualquer jogador do Porto. Mas também acho que comecei a mostrar o meu carácter ali, também rebelde.


Campeão europeu de dragão ao peito, partiu para o Atlético de Madrid, onde se tornou a primeira grande estrela portuguesa no estrangeiro. As lesões impediram que tivesse ainda mais glória.

Esta é uma das 20 histórias inéditas, num total de 100 presentes no livro “Relato – Histórias de Futebol”, que pode ser adquirido em todas as boas livrarias ou encomendado aqui.

Facebooktwittergoogle_pluslinkedinmail

Deixe um comentário