Fernando Seara

Eu e o saudoso Eusébio da Silva Ferreira, o King, fomos convidados para ir ao aniversário do Santa Clara, em Ponta Delgada. Fomos de avião e o nosso Eusébio começou a contar peripécias da sua vida de jogador, de goleador, de grande avançado do Benfica e da Selecção. E relatou pela primeira vez, segundo ele disse, todas as peripécias do Portugal-Coreia do Norte, do Mundial de ’66.
Foi um alvoroço em pleno céu do Oceano Atlântico e o comandante do avião, perante a agitação que aquelas histórias estavam a provocar, num primeiro momento participou, mas era tamanha a confusão que ameaçou regressar a Lisboa se cada um dos passageiros não voltasse de imediato ao seu lugar. Foi aquilo a que chamo a revolta das histórias do nosso Eusébio, contando os seus golos nesse fantástico jogo e quase que provocando uma pequena rebelião num avião da TAP. Era tanto passageiro a querer escutar que todos chegavam às primeiras filas, onde nós estávamos, e o Eusébio, já com a voz mais alta, a contar os momentos, a sinalética para o Simões, para o Torres, para o Mário Coluna, para o Jaime Graça…
Para mim fica um relato de vida, porque é um relato de história, eu que vivi esse Portugal-Coreia do Norte em Viseu, numa televisão a preto e branco. Lembro-me que saí da escola primária e, no primeiro café da esquina, Portugal estava a perder. E quando chego a casa, o saudoso senhor meu pai, na sala da televisão, apenas me disse: “Senta-te, cala-te, já empatámos.”


Advogado, professor e com uma carreira política onde se destaca a presidência da Câmara de Sintra, foi comentador desportivo durante vários anos, mais recentemente no Prolongamento, da TVI24.

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