Fernando Mendes

Quando estava no Benfica, ainda com o Eriksson como treinador, fomos até ao Canadá numa digressão de final de época. Ficámos lá uns 15 dias e tínhamos jogos agendados com o AC Milan, Marítimo, mais umas equipas. Nestas digressões, depois dos jogos podíamos sair à noite e fazer o que quiséssemos. Como não contava para o Totobola, tínhamos muita liberdade. Não a 100%, mas dava para estarmos à vontade. Fazíamos os jogos e íamos jantar onde queríamos. Íamos jantar com emigrantes, individualmente ou em pequenos grupos, mas não ia o plantel todo junto.
Depois de jantar íamos sempre sair à noite, era normal. E iam buscar-nos de limousine ao hotel ou ao sítio onde estivéssemos. Normalmente acabávamos de jantar, íamos ao hotel para nos vestirmos e depois íamos de limousine para as discotecas ou para os sítios onde quiséssemos ir. Grande nível, mesmo à craques da bola! E o grupo que andava sempre comigo era o Rui Águas, o Hernâni, o Pacheco, o José Carlos e o César Brito. Foi quando vi pela primeira vez bares que vendiam shots. Só passados alguns anos vi shots cá, mas lá era mato! Costumávamos beber shots e depois uma cerveja ou um whisky por cima, e dia sim dia não apanhávamos grandes cargas. Tínhamos de mandar parar a limousine para um gajo vomitar… Numa dessas noites, chegámos ao hotel todos desgraçados, eram 4 ou 5 da manhã, por aí, o pessoal ia subindo e fiquei com o Rui Águas lá em baixo. E eles lá têm um dia que anda gente a noite inteira na rua. Havia gente com fartura! E estávamos sentados à porta do hotel e só víamos passar Porsches, Nissans, Ferraris, essas porcarias. Na brincadeira falámos em comprar uma bomba daquelas. Estava lá um emigrante, um senhor de Coimbra, nunca mais me esqueço, o senhor chamava-se Fernando Vaz, que ouviu a conversa e perguntou-nos: “Mas oiçam lá, vocês querem um carro destes?” Disse que sim, mas estávamos perdidos de bêbedos, nunca mais me lembrei daquela merda.
Acabou a digressão, vim para Lisboa e fui emprestado ao Boavista. Já estava lá há seis ou sete meses e liga-me o tal senhor a pedir para me encontrar com ele num hotel no Porto. Pelo nome nem sabia quem era o homem. “Daqui é Fernando Vaz. Estive consigo no Canadá e tenho aqui o carro para lhe entregar.” Foda-se, um carro? Com a bebedeira lembrava-me lá eu do carro. Fui ter com o senhor ao hotel, era mesmo em frente ao bingo do Boavista, e quando cheguei à porta do hotel estava lá o carro que supostamente lhe tinha encomendado: um Nissan 300ZX, vermelho. Como se não bastasse, o homem pergunta-me: “Então e o Rui Águas?” E eu: “Então, o Rui Águas está em Lisboa.” “É que também tenho um Porsche para lhe entregar não sei onde em Lisboa à espera dele.” Liguei para o Rui Águas e responde-me ele: “Eu comprei um Porsche?!” Também não se lembrava. E acabámos por ficar com os carros! Salvo erro, ele ainda tem o Porsche. E a carga de trabalhos que foi para mudar as matrículas? Vinha com matrícula de Ontário. Entretanto o homem desapareceu, nunca mais o vimos. Na altura dei-lhe 3000 contos pelo carro e ainda faltavam 1500, mas nunca mais o vi. Andei dois ou três anos com o carro com matrícula do Canadá, sem documentos, a minha sorte foi que nunca me mandaram parar. Só fi quei mesmo com a chave! Depois lá consegui um senhor, que tinha um stand em Lisboa, para tratar da papelada daquela porcaria e lá ficou tudo à maneira.
Nessa mesma digressão só fazia merda, andava sempre na palhaçada com aqueles gajos todos. No final do jogo com o AC Milan fomos ao hotel para nos vestirmos porque depois íamos ser recebidos numa casa do Benfica ou assim, não me lembro bem. Tínhamos de ir mudar de roupa, porque estávamos de calções e tínhamos de ir todos pipis. Estava no quarto com o Hernâni, era sempre o meu companheiro de quarto. Estávamos no 11.º andar, salvo erro. Íamos a sair do quarto, vimos o Eusébio e descemos juntos. Começo a mexer nos botões do elevador, naquelas patilhas e, na brincadeira, perguntei ao Eusébio: “Ó King, já viste o que seria se eu agora carregasse nesta merda? Era para aqui uma caldeirada do caralho!” Então e não é que meto a mão em cima daquilo e parou mesmo? Em cinco minutos estavam uns 500 bombeiros dentro do hotel! Fecharam aquela porcaria toda, era bombeiros a entrar com máscaras, com botijas de oxigénio… Evacuaram as pessoas dos quartos, era ver os hóspedes a descer pelas escadas, todos para a rua! E andava ali o Eriksson a pedir desculpa às pessoas… Eu escondi-me no quarto mas ainda tive de ir lá abaixo para dizer que tinha sido sem querer.


Formado no Sporting, foi campeão pelo Benfica e pelo FC Porto e, com as passagens por Boavista e Belenenses, é o único jogador a ter representado os cinco campeões nacionais.

Esta é uma das 20 histórias inéditas, num total de 100 presentes no livro “Relato – Histórias de Futebol”, que pode ser adquirido em todas as boas livrarias ou encomendado aqui.

Facebooktwittergoogle_pluslinkedinmail

2 comentários sobre “Fernando Mendes

  1. Fazia melhor ficar caladinho do que vir contar estas estórias de mau profissionalismo…por essas e por outras é que acabou como acabou.

Deixe um comentário