Erivaldo

Há sempre coisas que marcam um jogador e estas marcaram-me mesmo muito. No meu último ano no Sporting de Braga B, era o Abel Ferreira o treinador, tivemos um jantar de despedida da equipa. Estávamos a despedir-nos dos treinadores e o mister Abel disse que me queria dar uma última palavra. Virou-se para mim:
– Como é que tu estás?
– Você sabe. Não estou satisfeito, pá. Quero ir-me embora, o mundo está todo contra mim.
O mister Abel foi muito claro. Disse-me isto:
– Vou ser o mais honesto possível: a tua época foi muito razoável. Estás em Braga, tens aqui família, tens aqui amigos e estás acomodado. E uma pessoa quando fica acomodada deixa de ter preocupações. Fazer bem ou um bocadinho menos bem é igual. Estás muito acomodado. Faz-te bem mudar de ares. Vai experimentar coisas novas. Sai da tua zona de conforto.
E esta conversa ficou-me na cabeça até hoje. Hoje valorizo as palavras dele. Durante a minha formação, no Braga, fui muito cabeça dura. Pensava que sabia mais do que os outros, mas hoje sei que se pudesse voltar atrás faria as coisas de uma maneira diferente. Sinto que estou a evoluir mais agora do que evoluí na altura porque agora quero aprender. Pensava que jogava muito, que era melhor que os outros e que eles é que não me percebiam. Mas cheguei a esta conclusão.
No Natal, os jogadores costumam trocar prendas com os treinadores e houve um ano em que o mister Castanheira me ofereceu o livro Quem Mexeu No Meu Queijo, um livro para crianças que retratava exactamente isso, aquela mudança. Tiravam o queijo aos ratos e havia um que ficava chateado porque tinha ficado sem queijo e esperava que lhe dessem mais, e havia outro que, como não tinha queijo, ia à procura dele. Hoje vivo literalmente essa realidade.
Hoje procuro superar-me e ser melhor diariamente. Tento também ouvir mais e ficar bastante atento às pessoas que me passam feedbacks menos positivos porque algo vou tirar deles, o que no fim faz a diferença. Depois é saber separar as críticas. Claro que nem sempre são boas, mas hoje percebo que antes de reclamar devemos olhar para nós e tentar perceber onde estamos a falhar.
Mas na altura em que ele me deu o livro achei que não fazia sentido nenhum. Foi das coisas que mais me tocaram e que me tocam hoje. Enquanto profissional saliento muito esses gestos e as palavras deles. O homem que sou hoje devo-o também a eles. Não existe idade para esse tipo de aprendizagem. Claro que quanto antes melhor, mas se não for naquele período de formação será depois. O importante é crescer, não só como jogador, mas, principalmente, evoluir enquanto homem!
No Braga tinha tudo, nunca me faltou nada. É um clube muito organizado e com todas as condições. Os clubes da Segunda Liga não têm metade das condições de um Braga, um Benfica, um FC Porto ou um Sporting e eu estava longe de conhecer essa realidade. Felizmente, ou infelizmente, acordei e apercebi-me das coisas, que o mundo era diferente. E nós, para termos o que queremos, temos de ir atrás. Não podemos ficar à espera.


O avançado do Leixões despontou no Sp. Braga, passou pelo Recreativo do Libolo, de Angola, e tem feito a carreira na Segunda Liga ao serviço de clubes como Feirense, Aves e Ac. Viseu. Facebooktwittergoogle_pluslinkedinmail

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