Elsa Bicho

Ainda estou para perceber como consegui virar costas ao jornalismo desportivo e ao jornal A Bola. O amor de mãe sobressai a tudo e é bem verdade. Mas tive o privilégio de, durante 18 intensos anos cheios de histórias e aprendizagens, ter privado com centenas de pessoas interessantes, fazer grandes e verdadeiras amizades, ter também apanhado valentes secas e gelado vezes sem conta pelos palcos futebolísticos deste país.
Podia relatar-vos trezentas peripécias desse meu então quotidiano, mas partilho convosco outras confrangedoras situações que me fizeram ser conhecida (infelizmente não pela minha escrita ou pelas minhas muitas reportagens). É que sou estupidamente claustrofóbica. Evito metros, não viajo de avião e até ao nono andar… pernas para que vos quero! Ora, ir à Luz, Alvalade ou Dragão era sempre uma aventura.
Vez houve em que fui fazer reportagem de um FC Porto-Benfica. Aproximou-se a hora de subir para a bancada e logo o meu estômago começou às voltas. Nunca antes tinha ido ao Dragão. Uma estreia e pêras! Impelida pelo meu pânico, ao ver que não descobria o acesso pelas escadas, dirigi-me a um assessor. Simpatiquíssimo. Abençoada criatura. Já estava tão em nervos que nem recordo o seu nome. Expliquei o que se passava, que não conseguia andar de elevador, para mais carregados de gente, e que precisava de ter acesso à tribuna de Imprensa. O rapaz mandou-me esperar e assim fiz. Passados largos minutos voltou a vir ter comigo.
“É a primeira vez que se nos depara uma situação como esta mas pedimos-lhe desculpa [sim, pediu-me desculpa]. A verdade é que nem sabemos se temos escadas para aquela bancada”. “Então, mas como é que uma estrutura como esta não tem escadas?”, comecei logo eu a disparatar, já a saltar-me a tampa, com o ataque de pânico a caminho. Voltou, gentilmente, a pedir-me para aguardar regressando bem em cima da hora do jogo (o que ainda me estava a deixar mais descontrolada). Veio, então, acompanhado de um funcionário, vestido de fato macaco. “Olhe, afinal há uma porta, que eu até desconhecia, e só este senhor tem as chaves”.
E lá fomos os três, escadas acima, por corredores ainda em estuque, nos meandros do Dragão, após transpor a dita porta que ainda não tinha tido serventia.
Mais giro foi por as escadas só darem acesso das garagens ao relvado. Ou seja, tive de entrar, literalmente, em campo para, então, conseguir subir pela bancada exterior. Parece que estou a ver os olhos esbugalhados do Martins Indi a olhar para mim – entramos ao mesmo tempo e o rapaz não deve ter pensado boa coisa. Afinal, quem era aquela que andava por ali a passear-se, para mais com escolta? Mas foram todos incansáveis.
Cinco estrelas foi sempre também o Carlos Gonçalves do Benfica. É que se poucas foram as vezes que fui ao Dragão, ao estádio da Luz ia quase todos os quinze dias. Horas antes do jogo mandava mensagem ao meu bom amigo, pedindo-lhe para deixar a porta das escadas abertas. E não falhava. Colegas meus vinham atrás de mim e logo a steward tinha ordem para os barrar (outra abençoada que tantas vezes me aturou as travadinhas): “Não, não – só esta menina é tem autorização para subir por aqui!”. Não é para qualquer um, hã?
Pior foi a vez em que voltei à Luz mas para um jogo da Seleção Nacional. Ou seja, o estádio fora entregue à FPF e o meu anjinho Carlos Gonçalves não me podia valer. Lá comecei a preparar a ida com antecedência, melgando todos os assessores da Federação: “Não te preocupes, Elsa. Quando estiveres a chegar liga”. E assim fiz.
Senti-me num filme do James Bond. Era ver stewards e seguranças a falarem pela rádio. “Chegou a Elsa Bicho. Podem abrir”. “A Elsa Bicho já está a subir”. “A Elsa Bicho já está na tribuna de Imprensa. Podem fechar as portas das escadas. Missão cumprida”. Aish! Trabalheira. Vergonha. Mas adorei!
Em Alvalade a cena repetia-se. Ainda que o acesso às escadas estivesse sempre aberto. Tinha era de ir carregada com computador e mala às costas por nove pisos até lá acima. Mas até era pior a descer. Só lá tinha um probleminha: é que depois, para aceder à garagem, no piso -2 e escrever na sala de Imprensa, tinha de dar a volta ao estádio para entrar pelas cancelas que a porta das escadas já estava sempre fechada depois dos jogos terminarem.
Lá ia eu, a correr, apressada, Alvalade abaixo…
Numa noite, um amigo em estado, digamos, despassarado, meteu-se comigo: “És corajosa! Se fosses um gajo ia-me a ti que apetece-me andar à porrada!”.
Cá está uma das muitas vantagens de ser mulher num mundo maioritariamente de homens!


Alentejana, nascida em Beja há 41 anos, trabalhou 18 anos como jornalista no jornal A Bola. Hoje é responsável pelo blog bichanando.blogs.sapo.pt

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4 comentários sobre “Elsa Bicho

  1. Já me tinhas contado estes episódios e na altura, parti-me a rir com o respetivo relato que fizeste, mas lê-los, é simplesmente hilariante. Elsa Bicho, ainda bem que existes, pá

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