Dyego Sousa

Em 2011, terminei o meu contrato com o Leixões e no final da época surgiu uma proposta para ir para Angola, para o Interclube. Fui conversar com o presidente num hotel em Lisboa e ficou tudo certo, as passagens e essas coisas, mas ele não queria falar do contrato, só queria que fosse até Angola para ver as infraestruturas do clube e dizia que em termos de valores não me ia arrepender porque ia ser uma coisa boa. Eu dizia que não, queria saber quanto era, que não ia para uma coisa incerta e aí ficou decidido que ia ser um contrato milionário: ia receber logo um milhão na mão e cinco mil dólares por mês. Todos os jogadores recebiam isso, o presidente era muito rigoroso, queria que recebessem todos igual, só o prémio de assinatura é que mudava de jogador para jogador. Tudo bem.
Desse milhão tinha de dividir uma parte com o empresário que ia levar-me e ficou tudo ok. Quando cheguei lá, entrei na sala do presidente e tinha uma mochila cheia de dinheiro para mim. Tínhamos falado sempre em dólares mas deu-me um milhão de kwanzas! Quando comecei a ver bem quanto era, para enviar para Portugal, deu oito mil e poucos euros…
Fiquei cinco ou seis meses em Angola e o meu certificado internacional nunca mais chegava para poder jogar. Era emprestado por um clube do Brasil ao Leixões, quando terminou a época o meu certificado voltava automaticamente para o Andraus. Não sei se o Interclube pediu ao Leixões ou ao Andraus, só sei que quando foram ver o que tinha dado de errado já tinha acabado o prazo das inscrições. O presidente também ficou chateado porque eu não jogava e fiquei com medo que ele ficasse com o meu passaporte e não pudesse sair de Angola. A equipa era da polícia e quando alguns jogadores da minha equipa tinham um comportamento mais inadequado o presidente prendia-os, ficavam uma noite na cadeia! E eu pensei: “pá, queres ver que ainda vou preso aqui?!”
Cheguei a ver o nosso guarda-redes preso porque um dia chegou bêbado ao treino, outro porque se envolveu numa confusão no trânsito, coisas assim. Lá era mesmo regime militar. O presidente entrava no balneário, no refeitório ou onde estivéssemos e tínhamos de bater continência até ele mandar baixar a mão. Nunca tinha visto nada assim.
Entretanto fiquei doente e queria vir tratar-me em Portugal porque as condições são melhores e ele não me queria deixar sair, pensava que eu queria fugir e não voltasse mais. Foi a minha esposa falar com ele, deu a minha morada de Portugal e do Brasil e disse que não íamos fugir, que eu estava doente e tinha de ser tratado em Portugal e voltava. Depois de muita conversa ele acreditou e deixou-me sair. Acabei por nunca jogar lá. Vim tratar-me, quando estava bom voltei, fiz a pré-época, lesionei-me e disse que não queria ficar mais lá. Cheguei a acordo com eles e vim-me embora. Ainda fiquei seis meses parado aqui, já tinha encerrado a janela de transferências, estávamos no início da segunda volta, e no princípio da época seguinte assinei pelo Tondela. Daí fui crescendo em Portugal: Portimonense, Marítimo e daí vim para o Braga.


A primeira passagem por Portugal foi pelos juniores do Nacional. Regressou ao Brasil e quando voltou foi para ficar, com a passagem por Angola pelo meio.

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