Domingos Amaral

A família dos meus avós paternos era de Guimarães. Tinham uma quinta e nós íamos lá sempre passar o mês de Setembro. Iam os netos: eu, os meus irmãos e os meus primos. Divertíamo-nos imenso, desde os meus 4 ou 5 anos que ia para lá. O irmão do meu pai, que se chamava João e era 7 ou 8 anos mais novo que ele, adorava futebol. Então, a partir de certa altura, tinha os meus 5/6 anos, pegava em mim, no meu irmão, que é um ano mais velho que eu, e no meu primo, que é um ano mais novo, e íamos os quatro para o estádio municipal ver os jogos do Vitória de Guimarães. O meu tio era um tipo giro e puxava por nós para estas coisas. Tinha um Volkswagen, um carocha assim mais racing, com um volante pequenino, e usava aquelas luvas sem tapar os dedos, mesmo à piloto de Fórmula 1. Eles os três eram do Sporting, eu do Benfica, mas íamos todos ver o Guimarães.

Portanto, sempre foi um clube pelo qual tive imenso gosto porque era o clube da terra dos meus avós e foi onde vi os meus primeiros jogos. Era na altura em que começava o campeonato e quase todos os anos víamos pelo menos um jogo. Acho que o primeiro que vi foi um Guimarães-Setúbal. O Guimarães ganhou, acho que 2-1, e lembro-me do prazer que foi ver um golo. Só tinha visto pela televisão, mas ver ao vivo era uma coisa extraordinária! Os adeptos do Guimarães sempre foram muito fervorosos, o estádio vibrava imenso. Era no sítio onde é o actual, que foi remodelado em 2004, e já era grande, devia levar 15 ou 20 mil adeptos, não tenho bem a certeza. Mas lembro-me que estava bastante cheio e foi assim um momento alto da minha vida, a primeira vez que fui ao futebol. Uma das coisas que achei imensa graça nesse tempo, não sei se propriamente nesse jogo, foi ouvir palavrões. Éramos miúdos, em casa não se ouviam palavrões, e uma das grandes descobertas que tive no estádio do Guimarães foi o palavrão. Lembro-me perfeitamente que estávamos na bancada com o meu tio e ao nosso lado estava um gajo enorme que passou o jogo todo a gritar palavrões. Do urso até ao filho da puta, aquilo era um chorrilho de palavrões! Metade dos quais nós nem sequer conhecíamos, mas a ideia que tenho desde sempre do futebol é que era um sítio onde dizias palavrões. E foi aí que percebi que as pessoas ficavam irracionais com o futebol, tinham aquelas explosões de fúria e era sempre contra os jogadores da equipa adversária. Ainda hoje digo ao meu filho que o único sítio onde o deixo dizer palavrões é no estádio. Desde Guimarães que aprendi isso!

Um dia também fomos a Braga, com quem o Guimarães tem uma rivalidade histórica, portanto aquilo era mesmo ir ao terreno do inimigo. Estávamos ali caladinhos, numa bancada cheia de gajos do Braga, e foi a primeira vez que senti que não gosto nada de ver futebol no estádio dos adversários. É extremamente desconfortável, há uma pressão brutal sobre ti para que não te manifestes, é perigoso. Gritámos quando foi o golo do Guimarães e estavam umas pessoas ao lado que nos queriam bater! Teve de ser o meu tio a pedir desculpa e a explicar que éramos miúdos… E era vimaranense por empréstimo, porque de facto era benfiquista, mas senti depois esse desconforto no campo do adversário em duas ou três vezes que fui às Antas e a Alvalade. É um espectáculo que se torna desagradável por estares num ambiente demasiado hostil. Mas foi em Braga que senti isso pela primeira vez. Infelizmente, nos últimos anos, quando o Benfica vai a Braga as coisas não lhe correm bem… Braga não é um local onde goste de ver futebol! Em Guimarães, sim. E tenho sempre essa ligação muito forte ao clube: sigo com muita atenção a carreira do Guimarães e vibro com as vitórias. Mesmo quando o Benfica tem algumas dificuldades com o Guimarães, como quando foi naquela célebre final da Taça de Portugal, ao contrário de 95% dos benfiquistas, para quem aquela ferida foi extremamente dolorosa, para mim não foi tanto. A perder, que seja com o Guimarães.


Começou como jornalista n’O Independente e foi director das revistas Maxmen e GQ. Já tem dez romances publicados e ainda marca presença no programa Irritações, da SIC Radical.

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15 comentários sobre “Domingos Amaral

  1. Concordo que o nome é vitória Sport club e tenho uma curiosidade idêntica a este texto (sendo eu também benfiquista) não me doeu tanto perder a final para o Vitória pois aprendi a simpatizar bem com esse clube por influência as imensos cânticos que ouvia no secundário por parte de um amigo fervoroso do Vitória … A partir daí não me foi indiferente… Até dava por mim a cantar musicas do Vitória quando estava só … A paixão do futebol tem destas coisas, muitos anos de glória para o clube da bela cidade de Guimarães !

  2. Engraçado eu vivi no D.Afonso Henriques precisamente o mesmo: – um casal, 3 miúdos entre os 6 e os 10, 12 anos, jogo entre o derrotinha e o Gil vicente. Bancada semi despida de gente. Golo do Gil. Os catraios celebram. Meia duzia de espanhois descem furiosamente a bancada e ameaçam pais e miudo. Futebol é assim. Em Braga ou em Guimarães.

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