David Soares

Em 2010, era eu um rapazola com vinte e três anos de idade, de barba rala, que vivia no limite do terror depois de ter emigrado para Dublin e percebido que a vida não era um mar de rosas. O clima era frio, tinha perdido o meu emprego e a minha metade da renda estava por pagar. Vivia pela primeira vez rodeado de pessoas de etnias e países tão diferentes que seria preciso um parágrafo inteiro para nomear todos, o que para um miúdo nascido e criado na pequeníssima cidade de Almada pode ser uma sensação esmagadora.
Tinha no entanto um escape à minha disposição. Não importa o quão mal estivessem as coisas, não importa o quão ressacado estivesse ou quem estivesse na minha cama, aos domingos de manhã era dia de bola. Às oito da matina toda a gente saltava da cama, bebia meio litro de bebida energética do Spar, porque não havia guita para Red Bull, e lá íamos a rapar frio até ao campo em Ballsbridge onde a malta se encontrava.
Pode parecer uma coisa insignificante para algumas pessoas. Mas numa cidade onde se falam centenas de línguas, o futebol é o idioma universal. Tal como a camaradagem. O simples facto de sermos escolhidos para a equipa com coletes ou sem coletes tornava cinco homens adultos, sem um único motivo para gostarem uns dos outros, em irmãos. Porque, quando entras em campo e aquela porta se fecha nas tuas costas, não importa quem está na tua equipa ou quem está contra ti. Durante os próximos sessenta minutos vou sangrar pelos meus companheiros e sei que posso esperar o mesmo deles. E no grande esquema das coisas não há momentos mais puros do que esses. Em quantos instantes da vida é que abraçamos perfeitos estranhos por algo tão trivial como fazer uma bola passar por uma linha no chão e embater numa rede?
Em retrospetiva posso dizer, com toda a certeza, que o futebol de domingo foi um factor chave para a pessoa que me tornei. Mesmo nos momentos mais tristes da nossa vida, não é preciso muito para nos sentirmos bem. É tão simples como dar uma cueca a um gajo, ou defender um penalty. Abraçar o nosso guarda-redes que não conseguiu defender aquele remate quase a terminar o jogo, ou comemorar com o ponta-de-lança que empatou a partida a escassos minutos do final.
E mesmo quando o futebol de domingo desapareceu há tantos anos, a memória permanece. A memória de um bando de jovens confusos e assustados, que encontraram a sua casa num relvado sintético a dar pontapés numa bola.


Pai, comediante, escritor e aprendiz de exorcista. Pode ser encontrado a fazer stand-up comedy nas noites de Dublin ou a combater as forças do mal um pouco por todo o país. Facebooktwittergoogle_pluslinkedinmail

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