Daúto Faquirá

A minha primeira vez na I Liga foi em 2006/07, pelo Estrela da Amadora. Para quem chega dos escalões secundários, carregado de sonhos, expectativas e uma ambição sem fim, o começo do campeonato não podia ter um impacto mais negativo. E depois do Sintrense, Odivelas, Barreirense e finalmente Estoril, sempre com sucessos acumulados, as minhas ilusões eram legitimamente ilimitadas. O céu era o limite!

Mas a realidade não se adivinhava fácil. Entrada tardia no clube (contrato celebrado com a época quase a iniciar-se), um plantel extenso e por definir, jogadores a entrar e a sair a um ritmo alucinante… Enfim, pré-época atribuladíssima, um conjunto de contratempos e um contexto com tudo para dar errado. Quase a crónica de uma descida por acontecer. Para agravar o cenário e exponenciar as dificuldades, as unidades mais importantes e que tinham sido determinantes no alcance dos objectivos da época anterior (9º lugar e manutenção conquistada) tinham saído, casos de Bruno Vale, Maurício, Santamaria, Coutinho, Paulo Machado, Semedo, Manu, entre outros.

Tudo somado criava um contexto nada fácil para a minha tarefa no Estrela e o meu começo na I Liga estava difícil. Mas havia mais. O clube tinha o campo em obras e até à 8ª jornada teria de fazer os seus jogos caseiros em campo alheio… Que destino se desenhava no horizonte. Que sombras pairavam no ar.

E a época arrancou. O recrutamento de jogadores, a formação do plantel, a pré-época, treinos e mais treinos e mais treinos, os jogos de preparação e o sorteio do calendário. E que sorteio… os três grandes nas primeiras jornadas: Naval (fora), FC Porto (casa), Beira-Mar (fora), Sp. Braga (casa), Marítimo (fora), Sporting (casa), Benfica (fora) e V. Setúbal (casa). Nada mau para começar e com a agravante dos três primeiros jogos caseiros terem de se realizar em casas emprestadas: FC Porto na Luz, Sp. Braga e Sporting na Amoreira. Nenhum jogo em casa, no nosso forte.

Face ao quadro com que nos deparámos (eu e a minha equipa técnica) não foi de estranhar que o arranque tricolor fosse extremamente negativo (seis derrotas e um empate – Braga – nos primeiros sete jogos!). Eu desesperava por encontrar uma equipa-tipo, algumas das minhas apostas revelavam-se falhadas, as derrotas sucediam-se e fazer crescer a equipa neste cenário quase apocalíptico tornava-se tarefa hercúlea. As coisas complicavam-se, os pontos escasseavam e a campainha do alarme soava…

Felizmente que quem em nós apostou revelava uma convicção e confiança inabalável nas nossas capacidades e foi-nos dando força, transmitindo incentivo, passando mensagens de apoio. Esse homem foi o senhor António Oliveira, presidente a quem eu presto aqui uma sentida homenagem. Mas sabíamos que o túnel estreitava e um treinador vive de resultados. E que mesmo um presidente paciente e amigo encontra limites no seu apoio, sofre pressões. Nada de novo. Vida de treinador: escolhas feitas, caminho traçado, decisões tomadas, consequências assumidas.

Mas o momento chave chegou. O Estrela da Amadora partia para a 8ª jornada perdido num cenário no mínimo aterrorizante: último classificado, 1 ponto conquistado, 2 golos marcados e uns nada invejáveis 13 sofridos, algumas experiências falhadas e nenhum onze base definido. Era o primeiro jogo que realizávamos no nosso renovado estádio: relvado novo, novas esperanças… Eu tinha a consciência de que a deadline tinha chegado. E se não ganhássemos o jogo, a minha sobrevivência no clube e, quiçá, a minha passagem pela I Liga corria sérios riscos de ser interrompida ali. Tudo estava em jogo. Tanto investimento e ilusões construídas que em noventa minutos se podiam esfumar. Havia que mexer no destino e mudar a sorte. A nossa sorte.

Resolvi apostar pela segunda vez naquele que viria a revelar-se o melhor quarteto defensivo e que na jornada anterior tinha conseguido conter com relativo sucesso o ataque benfiquista: Paulo Lopes, Tony (mais tarde Rui Duarte), José Fonte, Amoreirinha e Edu Silva. Reintroduzi Tiago Gomes nos titulares do meio-campo a fim de juntar mais dinâmica, agressividade e capacidade de passe e pressão à intermediária, e troquei Jaime por Rui Borges para ganhar outra mobilidade nas costas dos avançados. Do outro lado, um Vitória de Setúbal seguro e consistente, que dispunha de todas as suas melhores peças para atacar os três pontos, liderado por António Conceição, o treinador que substituí na Amadora.

Na Reboleira assistiu-se a um bom espectáculo de futebol, com ambas as equipas a procurarem o golo e os guarda-redes a responderem à altura, mas seríamos nós a ser mais felizes. Já depois de eu lançar dois flanqueadores para actuar em 4-3-3, Paulo Sérgio (lançado nos minutos finais) assinou o seu/nosso momento de glória a dez minutos do fim e sentenciou a primeira vitória amadorense. E assim mudou o meu destino. Nada mais seria igual.

A partir daí deu-se a nossa ascensão rumo a um campeonato tranquilo. A partir desse momento somámos dez jogos seguidos sem conhecer o sabor amargo da derrota. E ao virar o campeonato, o Estrela somara 16 pontos e encontrava-se já tranquilamente várias posições acima da linha de água. Este trajecto seria ainda condimentado pelas vitórias frente ao Belenenses (de Jesus) em casa e FC Porto no Dragão. E assim, contrariando aquilo que parecia um destino aziago e onde não parecia caber a palavra sucesso, com muito trabalho, persistência, paciência, determinação, convicções fortes, conhecimento, bom senso, experiência acumulada ao longo de um caminho construído com consistência e investimento contínuo, ou seja aquilo de que é feito um treinador, foi possível ser feliz… Mexer no destino e mudar a sorte.


Depois do Estrela treinou V. Setúbal, Olhanense e em 2013 teve a sua primeira experiência fora de Portugal, ao serviço dos angolanos do 1º de Agosto.

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8 comentários sobre “Daúto Faquirá

  1. Gostei muito da sua passagem pelo Odivelas foi pena não terem subido da 2ªdivisão B para a 2ª liga.

  2. Magnífico Mister! Homem sábio e de valor! Saudações por fazeres história no futebol português!Persiste em mexer no destino e mudar a sorte! Certamente alcançarás mais glórias e sucesso amigo Daúto

  3. Grande Daúto. É um prazer ser teu amigo e conhecer-te há imenso tempo ( muitos anos ). A tua carreira tem sido sempre a subir e espero que possas subir ainda muito mais. Um grande abraço e tudo de bom para ti.

  4. Grandiximo Daúto!!!desde que levaste o meu Sintrense à 2´Liga, onde xeguei a partilhar o banco contigo e restante equipa num amigavel:) nunca mais eskeci a Alegria que me invadiu e sigo a Tua carreira..Que satisfaçao em ver-Te subir degrau a degrau e culminada com a chegada mais que merecida!!!!á 1´liga..continua firme,crente nas capacidades que possuis e na Esperança de um dia treinares o meu Sporting!:) grande abraco Campeao;))))

  5. Daúto para mim serás sempre a tradução daquilo que um treinador deveria ser independentemente da modalidade! Forma, técnica, capacidade de encaixe sem nunca perder a essência do que és! Por tudo isso e por muito mais que só quem contigo trabalhou poderá acrescentar… obrigada por seres diferente, consistente e verdadeiro!

  6. Grande homem tive o prazer de partilhar com o Sr. momentos de bom e entusiasmo pelo futebol a quando treinou o Odivelas Futebol Clube, acompanhei o clube na companhia do meu primo António Rocha, tenho comigo um galhardete do Odivelas SAD assinado por toda a equipa. aqui fica o meu desejo de muita saúde e felicidades na sua vida profissional e familiar. Um forte abraço

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