Danielson

Em Portugal tenho vivido muitos momentos felizes, não tenho assim nenhuma história muito engraçada, mas quando estive na Rússia passei momentos caricatos. Aqui era complicado. Fui o primeiro estrangeiro do clube a precisar de documentação, vistos de trabalho e esse tipo de coisas. Eles não sabiam como é que isso funcionava e só conseguiam vistos para eu ficar durante um mês no país, então na quarta semana tinha de voltar para Portugal. Depois passava aqui quatro ou cinco dias até conseguir um visto para mais um mês. Até que lá conseguiram um de turista para eu ficar três meses. Então imagina como estava a minha condição física durante essa época. Foi um momento ruim para mim.
Quando finalmente consegui resolver este assunto, apareceu-me outro: a polícia. Como eu era estrangeiro e não tinha visto de trabalho, só de turista, a polícia parava-me constantemente e, como viam que era estrangeiro, levaram-me várias vezes preso. Depois tinha de ligar para o pessoal do clube para eles irem buscar-me. Como é um país com muita corrupção, as pessoas do clube davam o jeito deles lá e eu ia-me embora.
Uma vez fui atravessar uma rua que tinha uma passagem subterrânea só que resolvi passar por cima. A polícia percebeu logo que era estrangeiro e foi atrás de mim. Fiquei dentro de uma viatura da polícia durante umas duas horas. Comecei a conversar com eles, falavam Inglês. Eles diziam-me que ia ser preso e que não ia sair da esquadra tão cedo. Perguntei se havia alguma maneira de resolver a situação e ele respondeu, como se fosse uma coisa normal:
– Dá-me X, para dividir entre os colegas aqui da viatura, e podes ir embora.
É que não podia andar na rua, tanto que contratei um motorista para estar sempre comigo porque já conhecia as coisas. Mas eles não me podiam ver que mandavam-me parar. Quando ia com a minha mulher, que é loira, ela passava e paravam-me a mim! Diziam-lhe mesmo que ela podia ir-se embora. Depois percebi: sempre que entrava na esquadra da polícia havia sempre dois ou três com a pele mais escura.
E quando dizia que era jogador de futebol ainda era pior: “agora é que você vai ficar aqui mesmo”. Lá tinha de ir o pessoal do clube… E os colegas, quando me viam no dia seguinte, brincavam: “e a polícia? E a polícia?”
No Chipre também vivi um momento difícil. Diziam-me que estava a ir para o Benfica do Chipre. Saí do Nacional, onde fiz duas épocas muito boas, para ir para o Benfica do Chipre. Cheguei lá com muita expectativa, era o maior clube, com um orçamento milionário para um país que é uma ilhazinha, mas não pagavam os ordenados. Pagaram o primeiro mês, para causar boa impressão. Aceitei a proposta por causa do valor, cheguei lá e não recebia. Só recebi no ano seguinte porque conseguimos a qualificação para a Liga Europa e eles tiveram de pagar. Durante cinco meses pagavam 20% do ordenado. Diziam que estava muito apertado, que era difícil e o tempo ia passando.
Mas na Rússia foi o mais caricato que se passou comigo no futebol. Na hora era ruim, até porque estava num país que não conhecia, mas quando contava aos meus colegas achava engraçado. E eles perguntavam:
– Como é que você conseguiu suportar isso e ficar lá até ao final do ano?


Após cinco épocas no Rio Ave, representou Paços Ferreira, Nacional, Gil Vicente, Moreirense, Cova da Piedade e Salgueiros, onde joga. Pelo meio teve passagens por Khimki e Omonia. Facebooktwittergoogle_pluslinkedinmail

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