Daniel Ramos

Num dos meus primeiros anos como treinador, devia ter uns 30 anos, era adjunto do António Luís no Vilanovense, fomos jogar a Braga contra o Braga B. Eles jogaram de vermelho e o Vilanovense de vermelho e preto, com predominância do vermelho. Estávamos no jogo e tínhamos três jogadores a aquecer. Ele vira-se para a zona onde estavam os jogadores a aquecer e começa:
– Ó Charles! Chaaarles!
O Charles era um ponta-de-lança que nós tínhamos. Ele estava a chamá-lo para o meter em jogo e ele nada, não responde.
E ele, aos berros:
– Charles! Ó Chaaaarles!
Eu estava sentado no banco, ele em pé, toda a gente a rir, eu também com vontade de rir, e depois de algum tempo naquilo levanto-me e digo-lhe:
– Aqueles são os do Braga.
Tenho uma como jogador. Era júnior do Rio Ave e fomos jogar a Amarante, um jogo com o árbitro Martins dos Santos, que na altura apitava muitos jogos da I Divisão. Há um lance perto do final da partida em que eles vão marcar um livre na zona do meio campo para a nossa área. Eu era ponta-de-lança e ao passar pelo jogador dei-lhe um toque no pé na altura em que ele ia marcar a falta e deu um grande tombo no chão. Fui expulso e foi uma confusão terrível, tivemos de sair do estádio escoltados pela polícia. Não me orgulho do que fiz, foi das poucas expulsões que tive na carreira, mas no momento senti o impulso de fazer aquilo.
Em 2005, no Trofense, num ano difícil em que a equipa toma a decisão de treinar à noite, ao final da tarde, eu sou o treinador e conseguimos subir de divisão. Incrível! A determinado momento da época eu deixava meter música no balneário antes dos jogos. Os jogadores gostavam daquilo e naquela altura não era muito usual mas o grupo estava a merecer. Estávamos na luta com o União da Madeira e antes de um jogo pus a música da Liga dos Campeões. Agora arrepiei-me ao recordar esta história porque vi vários jogadores a chorar. Pensei que alguns jogadores não iam chegar lá, mas mereciam ouvir aquela música. Aquilo teve um impacto grande, tanto que depois em todos os jogos passou a ser a música oficial da equipa até ao final do nosso trajecto. Foi fantástico! Isto não tem piada mas é uma daqueles histórias que nos marcam.
De histórias engraçadas, lembro-me de uma intervenção daquelas difíceis mas que é preciso tomá-las. Dois jogadores meus no Moreirense pegam-se à porrada mesmo no final do treino, o Cascavel e o Luisinho. Termino ali o treino e peço aos jogadores e aos capitães de equipa para ficarem no campo para falar com eles. E disse aos outros: “Vão para o balneário e montem um ringue de boxe.” Entretanto ficámos ali a falar. Embora não fosse uma situação muito grave, é sempre um incómodo. O que é certo é que quando vamos para dentro até eu fiquei surpreendido porque a montagem do ringue foi tão ao pormenor que ficou espectacular! Tinha as estacas do campo, pinos, aquela fita de protecção vermelha e branca, tinha banquinhos para cada um dos supostos lutadores, havia uma pessoa equipada à árbitro, havia a equipa de apoio de um e de outro, não faltou nada! E os jogadores foram apresentados: “De um lado do ringue temos Cascavel, com 20 e não sei quantos anos e não sei quê. Do outro lado do ringue temos Luisinho…” Aquilo foi fantástico! Uma situação que não é agradável acabou por ser ali controlada por todos e o próprio grupo de trabalho saiu reforçado.
Lembro-me também em Ribeirão, estávamos a lutar para subir de divisão com o Chaves e numa quarta-feira vamos para o treino e começa a chover. Fomos treinar a um sintético e íamos em carrinhas. E o Nelsinho, um dos capitães de equipa, que hoje está no Varzim, e outros, disseram-me:
– Ó mister, hoje vamos fazer um grande treino.
E eu respondi:
– Se me garantirem que ganham no domingo em casa ao Vizela, por mim vamos já embora. Nem precisam de treinar.
Entretanto o preparador físico deu início aos trabalhos e meteu-os a correr. Eles deram uma volta, deram a segunda, na terceira nós estávamos ali a falar e quando demos por ela estavam os jogadores todos a entrar nas carrinhas. Nunca pensei que eles assumissem como um dado adquirido que iam ganhar o jogo e que não precisavam de treinar. Fui ter com eles e até lhes disse:
– Já não tenho de dar palestra nenhuma. A motivação está aqui toda. Bom jogo!
Foi um acto de grande coragem dos jogadores, foi uma surpresa para mim, mas estávamos fortes e resultou: fizemos um grande jogo, vencemos por 3-0 e foi um episódio marcante.


O treinador do Marítimo apresenta uma carreira em constante ascensão, com subidas de divisão e um título na II Divisão até à tão ambicionada I Liga, chegando agora às competições europeias.

Facebooktwittergoogle_pluslinkedinmail

5 comentários sobre “Daniel Ramos

  1. Meu amigo Daniel, já como jogador se notava que era diferente, já era um líder. Força meu, grande abraço