Daniel Leitão

Cresci (e bastante) numa casa onde a única pessoa que ligava a futebol era o meu pai, um fervoroso sportinguista. Sempre tentou demover-me do meu benfiquismo e converter-me a essa religião com gente tão devota que é o sportinguismo. Uma espécie de carmelitas descalças do futebol: fizeram um voto de pobreza e levam-no até às últimas consequências. Não ganham nada mas têm um admirável espírito de sacrifício.
Ainda assim, resisti sempre às investidas do meu pai e cedo optei por ser benfiquista. Os equipamentos vermelhos e brancos enchiam-me o olho e faziam-me sonhar com o dia em que eu próprio envergaria aquele equipamento. Ou um doutra cor, já que a minha envergadura fazia adivinhar, já na altura, que só poderia sonhar ir à baliza. Até os sonhos têm limites. A imponência dos 120 mil lugares do Estádio da Luz causava-me arrepios sempre que passávamos de carro em frente ao estádio. Chamem-lhe mania das grandezas, mas não havia como não gostar daquele clube.
Num ano em que perdia os seus (já parcos) argumentos, pois o Benfica já tinha ganho o campeonato a algumas jornada do fim do campeonato, o meu pai resolveu jogar a cartada final: levou-me ao Estádio de Alvalade, a ver um Sporting-Benfica, na esperança que os leões ganhassem e eu mudasse de ideias. Ele viria a descobrir, nessa mesma tarde, que tinha um filho mais teimoso que o Jorge Jesus. Mas é essa a única semelhança que tenho com o “mestre da táctica” já que ele, como vimos, tem facilidade em mudar de um lado para o outro da Segunda Circular.
Lembro-me bem das condições atmosféricas naquela tarde de Maio: céu limpo, brisa ligeira, sol a brilhar e um quentinho no coração, já que o Benfica ganhava dois a zero ao intervalo. Ainda por cima os golos foram marcados (por Valdo e Abel Campos) na baliza atrás da qual nós estávamos sentados. Festejei esses golos como se tivesse recebido o melhor presente de Natal do Mundo (mesmo que fora de época): aos gritos e a pular loucamente… afinal de contas era a primeira vez que via o Benfica ao vivo e a cores. Nesses momentos, o meu pai, entre a resignação e a irritação, mandava-me calar e sentar porque, segundo ele, “estava a tapar a visão das outras pessoas”. Convém dizer que eu, já sendo alto para os meus oito anos, ainda não apresentava o 1,98m que tenho agora.
Quando acabou o jogo não foram só aqueles 90 minutos que chegaram ao fim. A luta do meu pai também. Atirou a tolha ao chão e simplesmente aceitou que tinha um filho benfiquista. Nunca mais me tentou converter. O meu pai é do Sporting e pode não ganhar muitos títulos, mas naquele dia ganhou o meu respeito, pois à saída do estádio comprou-me um chapéu, uma bandeira e um cachecol do Benfica campeão 88/89, que ainda hoje guardo religiosamente. Sei que aquele gesto lhe deve ter custado imenso (se algum dia passar pelo mesmo sei que me vai custar horrores), mas ensinou-me uma coisa muito importante: quando o amor que sentimos é verdadeiro, não se deixa demover por nada nem ninguém. Seja o amor dos pais pelos filhos ou o amor dos pais e dos filhos pelos clubes que escolheram.


Argumentista, venceu o Caça ao Cómico, do Canal Q, e posteriormente dividiu a apresentação de “Altos & Baixos” com a portista Joana Marques, com quem casou e teve recentemente um filho.

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