Conceição Queiroz

Aproximava-se o Mundial de 2018 e tive uma ideia, de entrevistar vários jogadores da Selecção, que propus ao Sérgio Figueiredo, o meu director de informação, e ele disse-me que sim, de imediato. Apenas me perguntou se conseguia porque falava-lhe de nomes que, à partida, pareciam quase impossíveis. Disse-lhe que sim, mas, na verdade, ainda não tinha nada! O meu director confia em mim e disse-me para avançar.
Comecei a fazer os contactos, fui chegando aos jogadores e queria muito entrevistar o Quaresma. Toda a gente me dizia que não, que ia ser muito difícil, “não vais conseguir, esquece, ele não fala com ninguém”, mas não desisto e tentei. Consegui e foi um exclusivo maravilhoso com o Ricardo Quaresma, que era o jogador que mais queria entrevistar e foi uma grande surpresa. Há um grande ser humano por trás daquela imagem de durão que ele passa muitas vezes. É uma pessoa com uma sensibilidade incrível, sempre contra as injustiças, sofre com os males dos outros…. Enfim, aquela entrevista foi uma descoberta.
Fomos ter com ele a Istambul e ficámos lá dois dias. Começámos a gravar assim que chegámos, logo durante o jantar, e depois fiz outra parte da entrevista já em Lisboa. Voltámo-nos a encontrar quando ele veio para o estágio que fizeram antes de seguirem para a Rússia.
Além dele, também fui surpreendida pelo Manchester City. O campeão da liga inglesa foi uma grande surpresa. Eles têm uma política desportiva muito diferente da nossa. Não pensei que me recebessem, mas, de repente, tenho o contacto do Bernardo Silva, que me diz que sim, e viajo para Manchester para o entrevistar lá no centro de estágio. Correu muito bem.
Outra grande surpresa foi o Cédric Soares. Nós falávamos de futebol, mas depois também queria saber o outro lado. “Então e que tipo de música gostas de ouvir?” E ele diz: “Kizomba”. Fartei-me de rir! E quando entrámos no carro dele, eu e o repórter de imagem, tinha música africana a tocar. Achei muito engraçado, nunca me passou pela cabeça. Ele adora!
O Adrien, na altura no Leicester, também foi incrível. Tinha um cozinheiro português lá em casa e recebeu-nos lá para jantarmos com ele. Estava a chover torrencialmente e foi a primeira entrevista de fundo que deu em que falava sobre aquela situação dos 14 segundos que o impediu de jogar durante meses. Aquilo foi terrível para um atleta de alta competição. Também conheci o irmão dele, que é o fisioterapeuta dele e estava lá. Falei muito com os pais dele também. Ajudaram-me imenso, com material da infância dele, fotografias, etc.. Tudo gente incrível.
O João Moutinho também foi uma coisa incrível. Estava no Mónaco na altura. Também falei com o Leonardo Jardim. Mas o Moutinho também me recebeu em casa e jantámos num dos melhores restaurantes do Mónaco. Permitiu as filmagens, conheci as filhas…. Foi impecável. Aliás, todos eles! Nunca permitiram que apanhássemos táxis. Iam buscar-nos ao hotel, levavam-nos para almoçar e para jantar, foram todos incríveis!
O Bernardo Silva é o mais brincalhão de todos. Tem um sentido de humor muito apurado. Ele é que faz a festa no balneário do City, cria um ambiente muito bom. Ele é realmente assim e a entrevista foi muito engraçada. No fim perguntou-me se o imaginava a fazer outra coisa. Respondi: “sei lá…. Talvez fosses gestor”. Ele riu-se. “Sim, talvez desse um bom gestor”.
Ele e o pai iam buscar-nos ao hotel, também nunca permitiram que apanhássemos um táxi. Foi uma grande surpresa. Ficas com aquela ideia de que são pessoas quase inacessíveis e, na verdade, não são mesmo nada disso. Pelo contrário! Muito próximos e disponíveis.
Foi muito cansativo, mas gostei muito deste trabalho. Nunca deixei de apresentar. Trabalhei sem folgas durante dois ou três meses. Saía do estúdio ao domingo, apanhava um avião nessa noite ou na segunda de manhã, depois voltava sexta à noite para estar no sábado novamente a apresentar. Nunca me desliguei da apresentação, fui conciliando tudo. Essa capacidade de trabalho já vem da grande reportagem. Não tinha horários e fazia tudo. Já estou habituada, não assusta tanto. E numa situação destas não hesitas. São exclusivos, é uma oportunidade única.
Tenho paixão pelo futebol, quando comecei como jornalista, em 1994, foi no desporto. Depois estive sempre na grande reportagem, na investigação, mas ficou sempre uma ligação ao desporto. Há jornalistas que não gostam de futebol e aí fica mais difícil. Como pivot tenho sempre comentadores de futebol em estúdio. Ou é o rescaldo dos jogos ou a antevisão, é um tema que está sempre presente.
Ainda fiz também com o João Mário, que me recebeu em Londres, estava no West Ham, e com o Bruno Alves, que estava no Rangers. Recebeu-nos em casa, em Glasgow, e foi maravilhoso. Estava com o irmão, o Geraldo, que em tempos jogou no Benfica. Muito simpático também. Jantámos juntos. O Bruno Alves é muito das coisas saudáveis, do óleo de coco…. Incentivou-me imenso a beber água de Monchique! Sempre que vejo água de Monchique no supermercado lembro-me dele. Às vezes mando-lhe mensagens: “Bruno, graças a ti, de vez em quando bebo água de Monchique!”. Ele diz que é a melhor por causa do PH e tal. É muito ligado a uma vida regrada e de hábitos saudáveis, e cumpre religiosamente.
Adorei-os a todos e foi um trabalho maravilhoso! Tive a sorte de conhecerem o meu trabalho da grande reportagem, então houve ali um quebrar de gelo e um voto de confiança muito grande da parte deles. E depois reagiram bem quando viram as reportagens.
Curiosamente, em Portugal não consigo gravar com ninguém. Aqui a política desportiva é diferente. O jornalista é visto como um bicho papão! Os clubes fecham-se muito. Até o Vitória de Setúbal, sem menosprezo pelo clube, é assim. Queria falar com o Yannick Djaló, formalizei o pedido, e eles não autorizaram! Lembro-me de lhes ter pedido para me enviarem aquilo por escrito para guardar como recordação. Quer dizer, entro no City, campeão inglês, e não consigo falar com um jogador do Vitória de Setúbal em Portugal. É completamente absurdo. E isto aplica-se a muitos outros clubes, não é exclusivo do Vitória. É o que temos.
Em termos internacionais, não vou desistir do Neymar. Estou em conversações com o staff dele. Nunca deu uma entrevista para a televisão em Portugal, mas estou a tentar. Também adorava entrevistar o Salah, do Liverpool, o Pep Guardiola, o Zidane….
O Cristiano Ronaldo ficou em lista de espera. Já me disseram: “há imensa gente, que já pediu há anos”. Tudo bem, fico em lista de espera. Vou chatear, todos os meses. Sou uma chata!


Jornalista desde 1994, é grande repórter na TVI e já viu o seu trabalho premiado mais de uma dezena de vezes, por entidades como a Unesco, a AMI ou a Liga Portuguesa Contra o Cancro. Facebooktwittergoogle_pluslinkedinmail

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