Cássio

Quando joguei no Arouca foi no primeiro ano do clube na I Liga. Nós jogávamos bem mas não conseguíamos vencer, então estávamos numa série de sete ou oito jogos sem vitórias no campeonato. No início de Dezembro jogámos contra o Marítimo e se calhar foi o nosso melhor jogo em casa, mas acabámos por perder 2-1. Acabou o jogo, o presidente deu-nos os parabéns pela boa partida, o treinador, que era o Pedro Emanuel, estava orgulhoso do nosso trabalho e o trabalho ia continuar porque na sexta-feira seguinte íamos jogar contra o Benfica na Luz. Fui com a minha galera para casa descansar, nós morávamos fora de Arouca e íamos quatro no carro, que eram o Bruno Amaro, o Pintassilgo, o Luís Dias e eu, e no dia seguinte voltámos para treinar. Chegávamos sempre cedo ao clube para tomar o pequeno-almoço e normalmente a equipa técnica já lá estava e com o fato do clube. Nesse dia, reparámos que estavam à nossa espera e com roupa normal. Estranhámos aquilo, foi a primeira vez. Depois o adjunto do Pedro Emanuel chega para nós e fala:
– Olha, viémo-nos despedir porque fomos despedidos.
E nós:
– Ué, que negócio é esse? O que é que houve?
E começou a explicar-nos. Eles também moravam fora de Arouca e estavam já em viagem para o Porto. Depois do jogo com o Marítimo tiveram uma reunião com o presidente e com o vice-presidente, que é o filho do presidente, que lhes disseram que a equipa jogou bem, é assim mesmo e tal, e foram para casa. Iam a caminho quando o Joel, o vice-presidente, lhes ligou:
– Olha, vocês nem precisam de voltar aqui porque estão despedidos.
E eles:
– Está bem. Deixa pelo menos a gente amanhã ir buscar as nossas coisas e despedir do grupo.
E assim foi. Nós chegámos lá e na altura o Bruno Amaro era o nosso segundo capitão e o capitão, o Miguel, estava a caminho. O Bruno olhou para mim e disse-me:
– Cássio, preciso de uma ajuda para conversar com o presidente.
– Vamos embora, Bruno. Vamos lá falar com ele para entender o que está acontecendo.
Chegámos à sala onde estavam o presidente e o director financeiro, o senhor António Jorge, e o presidente estava desolado.
– Presidente, o que é que está havendo?
– Opá, eu não sei o que mais faça, já mandei o treinador embora.
E eu e o Bruno começámos a falar:
– Presidente, não é assim que funciona. Você viu o jogo ontem? Nós jogámos bem. Perdemos por acaso, como tem acontecido em vários jogos. Mas a gente vai estar bem e conseguir o objectivo do clube, que é a manutenção.
– Mas tenho de fazer alguma coisa.
– Mas não é assim mandando embora. A equipa jogou bem! Os gajos foram duas vezes à nossa baliza e fizeram dois golos. Nós massacrámos os gajos!
– Eu sei. Mas não sei o que faça mais.
– Não faça nada, deixa do jeito que está. Não vai mandar o treinador embora, presidente. Ele é importante, o grupo está com ele. A gente gosta dele, é com ele que a gente vai.
– Então o que é que eu faço?
– Chama ele aqui e convida ele para ficar.
– Será que ele fica? Será que quer ficar?
– Presidente, cadê você? Não foi você que despediu? Vai falar com ele. Se quiser, a gente vai lá consigo e demove o homem.
E aí ele disse que ia falar com o filho e não sei quê. Saiu da sala, falou e quando voltou disse:
– Não, o homem vai embora mesmo! A gente quer outro.
– Ó presidente, mas a gente acabou de falar consigo e deixou tudo certo, que ele ia ficar.
– Não, deixa o Joel chegar.
Entretanto chegou o vice-presidente todo descabelado, parecia que tinha acabado de acordar.
– Não, o gajo vai-se embora.
Uma confusão danada na sala e o treino, que era para começar às 10 horas, e já eram umas 10h30, nada. O Pedro Emanuel e a equipa técnica na área de treino e a gente lá, debatendo. No fim, o Bruno e eu, falando em nome de todo o mundo, porque a continuidade do Pedro Emanuel era o desejo de 99% do grupo, dissemos:
– Se até ao Natal a gente não estiver fora da linha de água, você manda embora ele e manda embora a gente também. Manda embora todo o mundo!
Foi quando o presidente finalmente disse:
– É isso que vocês querem? Vai ser isso que vai ser então.
Aí chamaram o Pedro Emanuel, que entrou na sala e o presidente perguntou-lhe:
– Mister, o senhor continua com a gente?
– Claro! Isto é um projecto nosso, também não entendi o que aconteceu.
Nisso, o presidente virou-se e falou assim:
– Ah, então não vai ter treino nenhum, vamos almoçar! Eu pago o almoço para todo o mundo!
Saímos de um treino sem treinador para ter treinador e um almoço de grupo. A verdade é que a gente não treinou nesse dia, fomos para o almoço e juntámos mais as peças. No meio da confusão o presidente chorou porque não queria descer de divisão e nós só dizíamos para ficar descansado, que íamos ficar na I Liga porque a equipa era boa e estávamos juntos.
No jogo da Luz ficou 2-2, estivemos a ganhar 2-1, aí houve um penalty esquisito para o Benfica, que empatou 2-2, e dali a gente conseguiu fazer bons resultados e ter um campeonato mais tranquilo na segunda volta. A duas ou três jornadas do fim conseguimos a manutenção e foi uma festa. Depois saí do clube mas o Pedro Emanuel ficou mais um ano com a maior parte dos jogadores.
Foi uma época muito legal e essa foi uma história que aconteceu comigo, entre outras que aconteceram lá, mas foi das mais marcantes. A gente precisava daquilo para unir mais ainda. Apesar de toda a tensão, ao mesmo tempo foi engraçado. No final do dia voltámos os quatro de carro e fomos de Arouca até Penafiel rindo e sem entender muito bem aquilo que tínhamos acabado de fazer. Mas foi legal. Alguma coisa estava desligada e aquilo foi o clique para arrancarmos para uma boa segunda volta. Na altura as pessoas falaram sobre isto na comunicação social mas nunca ninguém confirmou. É a primeira vez que alguém fala abertamente.
A gente tinha muita qualidade mas não estávamos a conseguir passar isso para os resultados. Jogar no Arouca foi muito bom, foi uma experiência incrível e uma coisa que vou levar para o resto da minha vida.


Depois de no Brasil ter jogado no Vasco da Gama, em Portugal defendeu a baliza do Paços de Ferreira durante cinco épocas, esteve uma no Arouca e está no terceiro ano no Rio Ave.

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Um comentário sobre “Cássio

  1. Já ganhei o dia. São histórias destas que humanizam o futebol e explicam, para o bem e para o mal, as muitas trocas de treinadores na mesma época por parte de alguns clubes. Parabéns pelo blog.