Carolina Torres

Num país que vive tão intensamente o futebol era difícil ficar de parte e, portanto, não me safei, sou do FCP. Não foi por acidente ou falta de escolha, apesar dos ferrenhos da minha família fazerem sempre “aquela” pressão. Foi sim pelas vitórias que contávamos juntos como família. Ouvi sempre falar bem do nosso Porto. Bela cidade e bela equipa. Portanto, a decisão foi muito fácil. Principalmente quando tivemos Mourinho a liderar a equipa e eu devia ter uns 12 ou 13 anos e foi decisivo. Era o Porto.

Curiosamente, anos mais tarde inscrevi-me naqueles trabalhos tipo part-time como hospedeira e acabei por ter uma participação interessante no estádio do Dragão. Era incrível entrar naquele espaço em dia de jogo, umas horas antes já se sentia a tensão, a força, a união – no fundo queríamos todos o mesmo, que era precisamente o oposto dos adeptos da equipa convidada, mas isso não interessava para nada. Queríamos ver uma bela partida de futebol. Quando tive o meu primeiro trabalho lá estava excitadíssima, tantas pessoas novas e toda aquela “correria” para que tudo fosse perfeito durante o jogo era incrível. Deram-me uma farda com um dragão e o meu trabalho era muito fácil: prestar assistência às pessoas que vinham ver o jogo nos camarotes… Mas estes eram já veteranos e jogavam em casa portanto o trabalho, esse, era bastante simples e um pouco aborrecido para alguém com hiperactividade como a Carolina Torres de 18 anos. Portanto, não demorou muito para que me tentasse escapar para a parte com mais acção: a venda das revistas! Era o meu objectivo na altura! Dava para sentar e ver o jogo, tinha um colega mesmo engraçado, podia falar com as pessoas, meter conversa, rir-me e, o melhor de tudo, vender. Adorava, na altura, testar os meus skills como vendedora. A minha mãe dizia que eu conseguia vender um pente a um careca com tanto paleio. Tinha uma reputação a manter, meus caros. Mas minto, o melhor era mesmo apanhar um cachorro quente e ver o jogo. Ficávamos relativamente perto da claque e de uma senhora que desatava numa lista gigante de insultos aos jogadores e às respectivas famílias, normalmente, da equipa adversária. A menos que o Porto falhasse algum penalty muito descarado e aí toda a gente merecia pelo menos um insulto bem mandado pela senhora.

Mas sem qualquer dúvida que o auge da minha carreira no estádio do Dragão foi quando comecei a fazer as visitas guiadas. Começava sempre com “Olá, eu sou a Carolina Torres e vou ser a vossa guia nesta visita ao estádio do Dragão”. O trajecto era sempre o mesmo, mas as histórias eram sempre diferentes. Desde escolas a grupos de empresários importantes, toda a gente queria conhecer o estádio por dentro. E todos tiravam as fotografias da praxe. E eu aparecia em muitas delas em nome de uma amizade que ali se criava para o efeito. Conheci muitas pessoas de muitos sítios do mundo. Sim, porque o Dragão era um doce para os nossos turistas. Desde as obras de arte que podíamos encontrar lá às homenagens a grandes momentos do futebol português, era toda uma viagem nas vitórias do nosso clube. E era uma honra para mim poder fazer parte dessa viagem e dessa experiência. Parecia que nunca me cansava, que era sempre diferente… Mas uma coisa é certa: toda a gente se queria sentar na cadeira 21 na fila onde o grande Jorge Nuno Pinto da Costa se sentava normalmente para ver os jogos.

Como devem perceber, se me tiverem visto alguma vez em directo na televisão, sabem que espontaneidade não me falta e, na altura, transbordava. Uma bela tarde de Verão, estava eu sossegada a mostrar o estádio a um casal estrangeiro, passa o grande presidente do FCP. Até eu fiquei super entusiasmada em ver aquela pessoa na minha frente, de carne e osso, a passar mesmo ao nosso lado. Mas não ia “amarelar” certo? Não ia ficar nervosa ou, pelo menos, não ia dar essa ideia. Sou uma mulher do Norte, tenho de honrar esse lugar! E nós, mulheres do Norte, nunca ficámos nem tímidas nem embasbacadas… a menos que estejamos apaixonadas. Portanto era altura de lidar com aquela presença, até porque não tinha muito tempo, o Sr. Pinto da Costa é um homem ocupado. Muito despachada e rapidamente disse ao casal que acompanhava “This is our great president. You can say hi”. Disse-o alto de forma a que ele ouvisse. E criei um momento bastante constrangedor. Acho que nunca ninguém se tinha atrevido a fazer tal coisa em frente ao nosso Pinto da Costa, que nesta situação esboçou um sorriso meio envergonhado e deve ter pensado “ai que rapariga levada da breca”. Já os turistas, sorriram e disseram o tal “olá” que permiti. E eu, bem, eu fiquei a sentir-me a maior do Mundo. Saí a sorrir também, cheia de confiança. Os meus tios ferrenhos ficaram todos orgulhosos porque a sobrinha partilhou o mesmo espaço que o presidente de um clube tão importante e com tanta história como o FC Porto.

O facto de termos tantas mulheres bonitas na nossa equipa chamou à atenção de uns produtores e realizadores que estavam precisamente a fazer um filme sobre futebol. Então acabaram por fazer um casting com todas as hospedeiras que trabalhavam no estádio do Dragão e eu entrei no filme. Toda pequenina e cheia de sotaque do Norte, lá fui brincar aos filmes e às televisões! Deu para conhecer muitas pessoas e acabei por trabalhar com algumas delas mais tarde na SIC.

Portanto sim, como não poderia ser este o clube do meu coração? Aquela sensação de chegar à escola e ainda falar do jogo do dia anterior em que o Porto, obviamente, ganhou… Quando não ganhava também nem falávamos disso. Até porque éramos todos muito miúdos, para que raio falar de coisas tristes?! Cheguei a ter até uma equipa de futebol de raparigas na escola. Não porque jogasse bem, mas porque gostava de desafios, especialmente aqueles que socialmente pareciam ser apenas para rapazes. A nossa equipa tinha boas jogadoras. A Priscila, brasileira, era uma avançada incrível e a Márcia, também Maria-rapaz, era uma defesa sem medos! E eu pronto, ficava a mandar uns bitaites e era o Mourinho da equipa. Era a Special One lá da escola!


Sempre gostou de cantar e participou logo no Mini Chuva de Estrelas, mas foi o Ídolos que lhe abriu as portas da TV, onde apresentou o Curto Circuito. A partir daí tem encantado um pouco por toda a SIC.

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15 comentários sobre “Carolina Torres

  1. És a maior!!!! Curto ABRAVA a tua atitude!! Não existem mulheres como as do Norte!! Beijinhos boa sorte para ti que mereces

  2. Que posso eu dizer…eu não via o Curto Circuito mas passava por lá a fazer zaping, até que um dia…quem é esta “maluca”? que tem uma vitalidade, uma espontaneidade e uma graça que “iluminam” aquela espécie de masmorra que era o cenário do CC de então…nunca mais perdi um programa dela e até os gravava e mais tarde revia…foi a minha melhor terapia “ever” e isso é muito, imenso…tenho saudades e acho que sempre terei…obrigado Carol!

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