Carlos Vidal

De uma forma enraizada, a nossa cultura respira futebol e, como o ar é de todos, lá vamos inspirando o gosto pelo desporto até este nos ficar no sangue. O futebol sempre fez parte da minha vida, eu é que chumbei por faltas. No futebol, claro. A vida, essa, fui levando.
Sendo uma das religiões com mais fiéis praticantes, o futebol obriga-nos a guardar religiosamente memórias. Uma delas é o nosso campo. Longe das regalias do campo pelado do antigo estádio do clube local, ou do luxo do improvisado campo em brita da escola primária, o nosso campo era feito de um invejável alcatrão. Duro e quente, como mandam as regras de qualquer bom alcatrão que se preze. Deduzo que o facto de as balizas serem marcadas com os nossos casacos e camisolas, que apenas serviam para posteriormente evitar gritos parentais à chegada a casa, fossem propositadas para evitar acidentes com balizas de ferro reais. Para não nos perdermos em descrições, o nosso campo era um parque de estacionamento localizado nos novos arruamentos, em Albergaria-a-Velha. As bancadas eram as janelas traseiras dos prédios circundantes, embelezadas com estendais de roupa interior de todas as cores, à luz do que já é feito nos estádios actuais, dando a ideia de estar muita gente a assistir. E nós sentiamo-nos confiantes. Tão confiantes que, quando me diziam que tinha nascido com dois pés esquerdos, eu acreditava que era esquerdino, e assim, duplamente bom.
A distância temporal ajudou-me a perceber que sempre joguei com a elegância de um saco de batatas. É certo que em muito contribuíram os meus joelhos em valgo que, ora me faziam ter a subtileza de uma marioneta partida, ora me faziam correr rápido como quem foge de uma homilia do padre Frederico. Apercebi-me, nessa altura, de que os meus joelhos eram tão virados para dentro que quase rezava para que a idade me trouxesse uma algália, na esperança de que a incontinência não me oleasse as juntas. Mas a tenra idade e inexperiência têm a vil vantagem de mascararmos os nossos defeitos com os dos outros e, de certa forma, tranquilizava-me ver que havia quem recebesse a bola com o pânico semelhante à mão sentida por um fantoche no activo.
Como ninguém me alertou que a ambição desmedida leva à ruína, decidi embarcar, com tantos outros prestigiados atletas, no treino aberto do Sport Clube Alba, clube local que tantas alegrias dá a Albergaria. O Alba cedo se apercebeu do azar de ter feito um treino de captação, já eu captei o que pude. Só foi pena, ter, tão rapidamente, baralhado tudo. Já o relógio marcava os oitenta minutos de jogo quando, inadvertidamente, um gracioso joelho meu apanha um ressalto e, subitamente, marco um golo. Já merecia, diziam uns. Outros não continham o espanto. Já eu, partilhava de ambas as reacções. Senti que se calhar até já merecia mesmo, mas não contive o espanto ao aperceber-me de que foi um auto-golo. Reza a história que a distância para se ser muito bom é exactamente a mesma que para se ser muito mau. Eu escolhi foi mal o lado.
Decidi então regressar ao nosso campo, sentia-me melhor a jogar em casa. O bom de jogar num parque de estacionamento é que o jogo era mais bonito e o ritmo era outro. Dezanove podia ser o número de intervalos, ou mais, dependendo dos carros que passassem e nos obrigassem a suspender momentaneamente a partida. A duração era sempre desde a hora em que todos estavam disponíveis até ao jantar. Tínhamos momentos em que reforçávamos os laços de amizade, quando a bola ia para longe e, após um “pedra, papel, tesoura”, alguém tinha de ir buscá-la. Lembro-me de acertarmos subtilmente com a bola nos carros estacionados e da vantagem de o alarme ainda não vir de série. Lembro-me do Diogo falar do Natal. Do Chico ter o azar de aparecer um vidro à frente de cada remate certeiro e de a sua reparação custar sempre cinco contos. E até de um amigo nosso jogar de muletas e fazer mais faltas do que nós todos juntos. Lembro-me de nada disso ser grave, de a vida ser simples e de o único grande problema ser a bola furar.
Muitos dos jogadores conhecíamos mal, outros mal conhecíamos, mas o respeito foi sempre o denominador comum. Acredito que o desporto-rei é, acima de tudo, um jogo de paixões. E movimenta-as.
Hoje já não há balizas, os carros que por lá passam são os nossos e não motivamos nenhum intervalo ou desconto de tempo. Estacionamos onde outrora marcámos golos e encontramo-nos no café para ver a bola, com a vantagem de termos a equipa agora alargada pelos filhos de alguns dos eternos titulares de coração. Chegam suados, com os casacos – outrora balizas-, sujos e vestidos, com a preocupação e o carinho de evitarem gritos parentais. O passado é, por vezes, a resposta do presente.


Humorista, médico, músico. Venceu a Speed-Battle, no 5 Para a Meia Noite, organiza o Risorius – Festival de Humor e Arte de Albergaria-a-Velha e actuou no Jardim Caixa no último NOS Alive.

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