Carlos Manuel Albuquerque

Uma boa reportagem requer sempre muito planeamento e investigação, certo? Errado. Em agosto de 2011, o Mónaco engalanou-se para a final da Supertaça Europeia entre FC Porto e Barcelona. A RTP destacou-me para fazer a reportagem habitual nestas ocasiões e foi logo na manhã seguinte à aterragem no principado que o fascinante mundo do inesperado me veio parar às mãos.
O hotel onde o FC Porto iria assentar bagagens ficava defronte à famosa avenida transformada em pista na Fórmula 1, com uma vista fantástica sobre o mar. Apesar de não ser de carros que vou falar, a sucessão de acontecimentos é digna de um autêntico Grande Prémio. O plano era registar a chegada dos “dragões” e foi para lá que me encaminhei acompanhado pelo repórter de imagem, à espera que a comitiva portista ali desse entrada. Para um apaixonado pela vela como é o meu colega João Martins, o cenário não podia ser mais inspirador. No entanto, apesar de virados ao mediterrâneo, a brisa que ia soprar provinha da África do Sul.
Tínhamos visitado os aposentos que a equipa orientada por Vítor Pereira ia ocupar durante a estada no Mónaco, tínhamos feito uma entrevista à diretora da unidade hoteleira e, seguidamente, continuámos a aguardar a chegada dos jogadores. Ele nos sofás da sala da receção e eu naquela espécie de vigilância avançada no exterior do hotel. Mas, quando lá voltasse a entrar, a música já seria outra…
O que se ouvia quando regressei ao interior era típico da conversa entre repórter e adepto em qualquer parte do mundo, mas estranhei a familiaridade com que a mesma já decorria. Teria o meu colega encontrado um amigo? Ou seria o chamado “cromo da bola” infiltrado no hotel?
“Este senhor é adepto do FC Porto e diz que é o pai da princesa do Mónaco”, explicava-me o João Martins em tom distendido e, claro, um pouco surpreendido pelo facto de se tratar de alguém tão relevante e, ao mesmo tempo, tão disponível. O meu grau de incredulidade foi naturalmente grande porque, como diz o provérbio, quando a esmola é grande… o pobre desconfia.
Fizeram-se as apresentações e o nosso “penetra” chamado Michael Wittstock, (lá está, um nome que jamais esquecerei), montou outra vez a barraca toda, perante o divertido João Martins que já tinha levado com o número todo. Para mim, descobrir um habitante monegasco com simpatia pela equipa portuguesa era, já de si, motivo suficiente para lhe fazer uma entrevista, mas… bolas, bolas! E se fosse verdade que tinha laços reais?
Michael era sul-africano, pois que seja, mas caramba! Além de conhecer algumas palavras lusitanas pôs-se, a dado momento, a cantar Amália em “É uma casa portuguesa, com certeza! É, com certeza, uma casa portuguesa!” A minha estupefação assimilava e organizava já tudo num guião mental que resultasse numa boa peça televisiva. “Tenho muitos amigos portugueses na África do Sul”, explica-me. Ato contínuo, pega no telemóvel, faz uma festa quando o interlocutor responde do outro lado do equador, e diz-lhe antes de me passar o telefone: “Tenho aqui um jornalista da RTP , fala com ele…”
Do outro lado da linha estava um emigrante português, muito simpático e divertido que, depois das apresentações iniciais, deixa cair a “bomba” jornalística: “Você sabe com quem está a falar aí, no hotel, não sabe?” A esta pergunta assim formulada de sopetão, balbuciei uma resposta que não denunciasse a minha incredulidade, mas que também não afrontasse a honestidade de quem se denunciava assim. “Ele diz que é o pai da princesa…”, disse eu a sorrir e com um olho em Michael que estava ali ao meu lado. “Mas é mesmo o pai da Charlene”, reafirmou convictamente.
Perante as certezas que cresciam a cada palavra, desliguei a chamada pouco depois , entreguei o telemóvel ao pai da mulher do Príncipe Alberto II, e que por acaso andava nas revistas cor-de-rosa por suspeitas de que o casamento da filha, não só estava condenado, como teria sido um acordo de conveniência… ufffa! E lançámo-nos ao trabalho.
Michael Wittstock, sul-africano de 67 anos à altura, pai de uma das mais bonitas mulheres da realeza europeia e ex-nadadora olímpica, empresário de vinhos e… adepto do FC Porto e não do Barcelona, estava ali, todo contente e disponível, a falar para a RTP. Apressámo-nos a registar os seus dotes musicais e umas declarações de fervor clubístico.
Cinco minutos depois de terminada a entrevista, e depois de me pedir contactos em Portugal com quem pudesse negociar os seus vinhos com uma fotografia do casamento de Charlene no rótulo, chegou um carro preto de vidros fumados que conduziria o pai da princesa do Mónaco… “Não me posso atrasar!” E despediu-se para, segundo nos disse, negociar um banco num dos iates ancorados ao largo da Côte D´Azur.
Atónitos com tanta matéria jornalística, telefono para o nosso coordenador no terreno que avisaria Lisboa da real coincidência com que tínhamos tropeçado nessa manhã, e para que contassem com mais uma reportagem nos noticiários das próximas horas. Mas o telefonema que receberíamos dali a pouco ia deixar-nos muito inseguros sobre o que fazer.
Tínhamos filmado a chegada portista e, com todo o material recolhido – e que material! – regressámos ao nosso próprio hotel em contrarrelógio para acompanharmos dali a cerca de duas horas, no Fórum Grimaldi, o sorteio da fase de grupos da Liga dos Campeões e a eleição do melhor jogador a atuar na Europa. Em suma, estávamos muito apertados de tempo – o costume na nossa profissão – e sem almoçar porque já nenhum restaurante nos servia aquela hora (outro dos ossos do ofício). Posto isto, montámos “acampamento” no quarto do João Martins o mais depressa possível, para escrever, sonorizar, editar e enviar a peça para Lisboa.
Encomendámos duas tostas mistas para sossegar a fome e quando me preparava para escrever a primeira frase, o telemóvel tocou para a pergunta mais assustadora da tarde: “Tens mesmo a certeza que entrevistaste o pai da princesa?”. A pergunta do Miguel Barroso, coordenador da operação RTP no Mónaco, caiu tão fundo como o tamanho do buraco do nosso estômago. E se tivéssemos estado a ser enganados o tempo todo? E se o tal Michael não fosse o sogro do Príncipe Alberto? Cantava em português e apoiava o FC Porto e isso chegava para a reportagem, mas… será que o rei vai nu? Em nome do rigor do “furo” era indispensável despistar o enigma, antes de avançar.
A única solução rápida e eficaz de que nos lembrámos imediatamente foi a de consultar as notícias referentes ao casamento da Princesa Charlene com o Príncipe Alberto II e tentar descobrir alguma fotografia de Michael Wittstock. E foi o que nos salvou a pele! Assim que abrimos as páginas da cerimónia disponíveis na Internet, o sorriso voltou às nossas faces. Lá estava ele, muito aprumado, impecavelmente vestido a desfilar no tapete vermelho do Palácio do Mónaco com a filha pela mão.
Michael Wittstock não era um conto de fadas e a reportagem era mesmo… “real”.


Deu os primeiros passos na Antena 1 e mudou-se para a RTP, onde se encontra há 24 anos e se tornou uma das caras do desporto da televisão pública em programas como o mítico “Remate”.

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