Carlão

Estádio da Luz, fase de grupos da Liga dos Campeões, com o Barcelona. Era o Barcelona do Eto’o e de muitos mais, muitos cromos. Era aquele jogo que à partida já estava assim meio lixado e só consegui ver para aí três minutos. Estavam uns gajos numa fila abaixo, ou na nossa mais ou lado, já não sei, gajos do Benfica que mal o Eto’o se aproxima da nossa área começam a fazer aqueles sons tipo macaco: “uh, uh, uh, uh.” E pronto, o pessoal que estava comigo, eu inclusive, começou a dizer “pá, essa cena não é fixe. Não façam essa merda.” E eles responderam logo assim “faço o que quiser, p’ó caralho.” Aí houve um de nós que disse algo do tipo “vê lá se não levas com o telemóvel nos cornos”. Quando é assim, e é uma cena básica, não avisas que vais dar. Habilitas-te a levar e foi o que aconteceu. Aquilo escalou rápido e acho que fui o único que não andou à porrada, fiz aquela cena estúpida de ficarmos ali os dois a agarrar-nos. Desequilibrámo-nos, caio para a fila de baixo, o gajo cai para cima de mim e senti logo uma cena marada no ombro.

O lado cómico disto é que vou lá para os paramédicos do estádio e quando me tocam no braço sai um “foda-se!”. O enfermeiro responde “ai, ai, ai, ai, isto assim com asneiras comigo não dá”. Eu já a passar-me, ele toca-me de novo e sai outro “foda-se!”. E ele “bem, já o avisei”. Eu a passar mal e ele a dar-me lições de moral ou de etiqueta… O gajo ficou de cabra comigo, acho que também por causa do rasta e na altura tinha aquela fama meio de reguila. Nem era muito. Então disse-me que não tinha nada, senão nem estava ali assim. Se quisesse ir ao hospital, que fosse, a ambulância levava-me, mas que aquilo não era nada. E eu “está bem, não é nada para ti, mas vou lá ver”. Tinha deslocado a clavícula, andei com o braço imobilizado, mas saía do sítio algumas vezes. Há pessoal que faz isso na praia a brincar, tira e põe, mas não era o meu caso, aquilo doía. No DVD de Da Weasel no Pavilhão Atlântico há uma parte em que se vê mesmo o ombro fora do sítio, eu a cantar e vão lá metê-lo no sítio. Depois dessa fui mesmo operado. Uma ligaçãozinha de amianto ou um ferro qualquer. Ainda foi um balúrdio.

Mas, voltando atrás, acredito que a maioria do pessoal que usa esses insultos na verdade não é racista. Há pessoal que é mesmo, não há hipótese. Há outros que vão pelo caminho mais fácil, mais baixo, para atacar alguém. É estúpido, e não deve ser encarado de ânimo leve, mas acho que também tem de se diferenciar aquilo que realmente é uma atitude racista e uma ofensa por si própria, que não tem esse pendor. Claro que na bola tu não percebes nada! Numa altura em que tinha lugar cativo mesmo ao pé do banco do Benfica, dei por mim a ver-me saltar para o relvado e dar uma pinga no fiscal de linha. Vi este filme na minha cabeça. Tens aquele povo todo, aquele efeito meio motim e às tantas dás por ti a fazer uma estupidez. O que também é fixe é que ali vais buscar o lado mais animal, mais instintivo. Agora, se depois vires uma filmagem da figura que fazes, pode ser meio triste.


Deixou Pacman nos Da Weasel e deu voz a Algodão, Os Dias de Raiva e 5-30. Agora irá editar como Carlão, com álbum a chegar no primeiro trimestre de 2015.
Foto: Gonçalo F. Santos
Facebooktwittergoogle_pluslinkedinmail

Um comentário sobre “Carlão

Deixe um comentário