Cajú

Cheguei a Portugal com o Deco e, no início, passámos por algumas dificuldades. No nosso contrato com o Benfica tínhamos casa e carro, só que a gente não imaginava qual era e deram-nos um carocha preto. Aliás, foi o Alverca que nos deu o carro e a casa. Os únicos jogadores que tinham um carocha eram eu e o Deco. E era um carro para os dois, a gente partilhava o carocha!
E tenho uma história engraçada da primeira vez que fomos treinar com o Benfica, no Estádio da Luz. Fomos com o carocha. Aquilo tinha um parque de estacionamento para os jogadores só que não o deixámos lá. Demos uma volta ao Estádio da Luz e, quase na saída, estacionámos o carro para ninguém nos ver e fomos andando até aos balneários.
Treinámos, tudo normal. Fizemos um bom treino e, na saída, fomos andando à volta do estádio e quando chegámos lá vimos que as luzes estavam acesas e o carro não pegava. “O que é que vamos fazer agora?”. E durante esse período em que estávamos a pensar no que íamos fazer passavam os jogadores com grandes máquinas, apitavam, perguntavam se a gente precisava de boleia ou de ajuda, e nós:
– Não, obrigado. Está tudo bem. Estamos aqui à espera de um amigo.
Ficámos mesmo envergonhados e a tentar ligar o carocha. O Deco continuava a rodar a chave, o carro não pegava, e ele diz-me:
– Caju, vais ter de empurrar.
– Eu? Não, não pode ser! Não vou nada empurrar.
E as pessoas continuavam a passar. Lembro-me que passou um gajo que ainda brincou connosco:
– Tens de pôr gasolina se não isso não funciona!
A gente ria-se da situação. Até que passou um jogador, não me lembro quem, que parou e perguntou se precisávamos de ajuda. E nós:
– Não, tudo tranquilo. Está tudo bem.
Tive de acabar por empurrar e lá conseguimos ligar o carro. Só passámos sufoco com aquele carro. Era um carocha em segunda mão, aquilo já não funcionava direito. Passámos muitos apertos com ele. Essa foi uma história bacana.
Uma vez íamos para a praia, em Cascais. Íamos pela CREL e aquela autoestrada é só subidas. A gente ia ali e aquilo não andava! Os carros passavam ao nosso lado, apitavam e ficavam a rir-se na nossa cara. Lembro-me que passaram uns gajos, abriram o vidro, riam-se e diziam:
– Mas isso não anda? Embora, pá! Vamos, vamos, vamos!
Mais tarde, quando o Deco já estava a jogar no FC Porto, ligou-me a perguntar pelo carocha porque queria comprá-lo para o guardar como recordação.
A gente morava de frente para o complexo do Alverca. Era um apartamento simples, pequeno. Quando chegámos aqui pensávamos que íamos para o Benfica. Eu e o Deco tínhamos saído do Brasil convictos disso. Chegámos ao aeroporto e estava um director do Alverca e o Toni, que era director do Benfica. O Toni realmente estava à espera de dois jogadores, mas eram o Ronaldo e o Paulo Nunes. Aí, o director do Alverca meteu-nos dentro do carro e levou-nos para Alverca. E a gente sem entender nada. Só depois percebemos que tínhamos sido emprestados ao Alverca. Aquilo bateu uma tristeza…. Chegávamos ao apartamento e, todos os dias, começávamos a chorar. Lembro-me deste dia como se fosse hoje. Estava no quarto, com a porta aberta, o Deco estava no outro quarto, os dois a chorar, e aí o Deco levantou-se, foi ao meu quarto e disse:
– Estamos aqui, vamos ficar aqui mesmo, então vamos começar a jogar de verdade. Vamos rebentar e vamos ser grandes jogadores!
– Está bom. Vamos fazer isso.
A partir daí, começámos a focar mesmo, a treinar e as nossas carreiras foram diferentes. No início a gente pensava em desistir e voltar para o Brasil. Mas nem isso podíamos fazer porque só tínhamos passagem de ida, não tínhamos passagem de volta.


Chegou para o Benfica mas acabou no Alverca, então clube-satélite dos encarnados, e ali jogou seis épocas e meia. Em Portugal, representou ainda FC Porto, Académico de Viseu e Maia. Facebooktwittergoogle_pluslinkedinmail

Deixe um comentário