Cafú

Saí daqui a meio da época, troquei o Boavista pelo Siegen, da II Liga alemã, no último dia das inscrições, em pleno Inverno e foi num ano de nevão. Ainda por cima o clube não tinha grandes condições e naquela altura eu estava a recuperar de uma pubalgia, precisava de fazer uns trabalhos de reforço. Perguntei onde é que era o ginásio e responderam-me que não tinham, então aqueles alongamentos e toda essa preparação tinha que ser feita no chuveiro. Até abdominais fazia no chuveiro!

Houve um dia em que de manhã, antes de sair para o treino, estava a nevar muito e eu não conseguia encontrar o carro, que estava coberto de neve. Depois lá o encontrei com a ajuda daquelas espátulas que eles usam, tinha os vidros cheios de gelo. Lembro-me que ao lado do parque havia uma rampinha e se travasse o carro a meio começava a descer outra vez. E pensei que a nevar daquela maneira não ia haver treino. Chego ao campo e a neve dava-nos quase pelo joelho! Acabámos por fazer um treino de 11 para 11 e parecia que estávamos a jogar na praia, a bola ficava para trás. Ainda me lembro de estarmos ali a correr e ouvir aquele barulho esquisito da neve a quebrar.

Nos primeiros meses custou-me um bocado a adaptação. Levei chuteiras normais e acharam estranho. Perguntaram-me se ia treinar assim e disse que sim, só tinha aquelas, mas acabei por treinar com ténis daqueles que agora se usam muito para jogar no sintético. É que nos primeiros tempos o campo não tinha neve, tinha gelo. Até tivemos de adiar vários jogos em casa porque não havia condições para se jogar. Tentava correr e escorregava muito.

O aquecimento era engraçado porque tínhamos de vestir muita roupa e eu não gostava de treinar com impermeáveis e essas coisas. Mas diziam-me que tinha de ser. Chegávamos aos treinos e os jogadores começavam a correr de um lado para o outro do campo por causa do frio. Foi uma das experiências engraçadas na Alemanha.

Depois acabamos sempre por nos habituar. Pouco andava na rua, em casa estava sempre quente, tal como nas lojas. Eles até comiam gelados nas galerias, aquilo não era bem um shopping, porque lá dentro estava sempre muito quente. Na rua é que se sentia o frio.


Internacional por Cabo Verde, despontou no Belenenses, passou pelo Boavista e teve experiências no futebol alemão e cipriota. Aos 39 anos joga no Salgueiros.

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5 comentários sobre “Cafú

  1. A forma como sai do Belenenses para jogar no Boavista….. não lhe ficou nada bem. (Quem tudo quer tudo perde)

  2. Despontou no Almada Atlético Clube… isso sim… um jogador humilde, envergonhado mas com um imenso talento e capacidade de trabalho