Bruno Ferreira

Na época de 2016/17 chegou-me de Braga um simpático convite para ir animar o almoço convívio de Sportinguistas do Minho, organizado pelo Núcleo de Braga do SCP, onde haveria de discursar o Presidente do Clube, Bruno de Carvalho. Com presença confirmada estava também a atleta olímpica do Sporting Sara Moreira, que assistiria à entrega do Prémio Rugido Minhoto 2016. A apresentação estava a cargo da Filipa Mendes, então profissional da Sporting TV. A data coincidia com o sempre electrizante Guimarães-Sporting, que se disputava às 18h15 daquele 1 de Outubro de 2016, no D. Afonso Henriques, em dia de festa para os sportinguistas minhotos. Mas já lá vamos ao jogo…
Saí de Lisboa na sexta-feira, com os meus dois filhos e a minha mulher, e ficámos hospedados no piso cimeiro de um hotel muito alto, em Guimarães. Na manhã de sábado estávamos todos ainda no quarto a prepararmo-nos para o compromisso enquanto, a pretexto das bonitas paisagens que a altaneira vista oferecia, o Tomé – o meu filho mais novo, com 6 anos à época – de tablet em punho, disparava cliques fotográficos em todas as direcções. A dada altura, enquanto eu fazia a barba, apenas de camisa vestida, vejo pelo canto do espelho o Tomé tirar fotografias.
– Filho, o pai não está vestido, não quero fotografias aqui, vá lá…
O Tomé obedeceu, distraindo-se a fotografar as loiças da casa de banho do quarto. Depois lá prosseguiu a maratona fotográfica pelo resto da habitação. Nesse momento a Marta estava a aplicar creme nas pernas, debruçando-se sobre uma delas, que flectiu, tendo assentado o pé sobre a cama. Lá nos preparámos, e saímos em direcção ao ponto de encontro onde teria lugar a festa sportinguista.
Pouco antes do início das actividades, Bruno de Carvalho e o staff chegaram ao local do almoço. Recordo que estávamos em período pré-eleitoral no Sporting, e o presidente ainda não havia comunicado se se recandidataria, havendo muitíssimo interesse por essa altura no que concerne a esse tema. Mas naquele dia Bruno de Carvalho não me pareceu muito disponível para a imprensa que estava, em peso, representada no evento. Desta forma, o presidente demorou-se a cumprimentar os notáveis leoninos locais e apenas concedeu parcas respostas aos jornalistas.
Na ante sala que separava o átrio do salão onde se iria passar o evento e o almoço, e onde havia umas mesas com petiscos típicos minhotos, os meus dois filhos – o Tomé, que já apresentei, e o André, com 10 anos na altura – estavam sentados nuns cadeirões de verga almofadados, encostados ao fundo, a jogar no tablet uma coisa muito na moda na altura chamada Clash Royale. Bruno de Carvalho terá visto neles a escapatória perfeita para se refugiar do tumulto de gente e repórteres que se arrastavam em seu redor. Aproximou-se deles e perguntou o que estavam a jogar, e se podia jogar com eles. Em poucos minutos estavam os três a tentar bater recordes. Os meus dois filhos sentados em cada uma das pernas de Bruno de Carvalho, animadamente a jogarem e a conversarem. Enquanto o André explicava ao Presidente como se jogava, o Tomé teve a ideia de mostrar fotografias do seu tablet.
– Presidente, Presidente, olha aqui as minhas fotografias!
– Mostra lá as tuas fotografias… Então o que é isto?
– Esta é a sanita do nosso hotel – respondeu, deixando-me gelado – Esta é a janela…
– Muito bem. Belas fotografias que tens aí – respondia, simpático, o Presidente. Nesta fase lembro-me de estar a retorcer os dedinhos dos pés, na esperança de que não aparecesse nenhuma imagem menos apropriada, como aquela em que eu estava a fazer a barba apenas de camisa vestida. Essa não apareceu. Antes tivesse aparecido!
– Olha aqui, Presidente! Estas são as maminhas da minha mãe! – “as maminhas da minha mãe”… a frase ecoou-me na cabeça por segundos que pareceram longos minutos, e todo o ruido de fundo desapareceu. “Presidente! Estas são as maminhas da minha mãe!” O Tomé acabara de apresentar as maminhas da Marta ao Presidente do Sporting, Bruno de Carvalho, numa sala cheia de gente. Tudo se tornou estranha e empasteladamente bizarro à minha volta… “prazer, senhor Presidente, somos as maminhas da Marta…”, passava-me pelos olhos como um excerto de uma peça surrealista. Quem me salvou da situação foi o próprio Bruno de Carvalho que, ao ver a foto da Marta, debruçada sobre a cama, a espalhar creme na perna flectida, e com as suas maminhas completamente à mercê do paparazzo Tomé Ferreira, disse imediatamente:
– A sanita, Tomé, mostra lá a fotografia da sanita!
– Queres ver a sanita? Está bem, a sanita…
Daí a minutos avistei a Marta, chamei-a e segredei-lhe:
– O Bruno de Carvalho acabou de ver as tuas maminhas…
O almoço correu bem. Depois veio o jogo. Marković abriu o contador aos 29 minutos. Coates deu-lhe cor aos 41, e Elias pareceu fechar as contas aos 70. Pareceu. Aos 75 a Marta achou melhor sairmos do estádio a fim de evitar a avalancha de gente que o enchia, até porque, segundo ela, os três pontos estavam entregues.
– Espera, deixa ver só mais um golo! – Respondi. Mas não vi só mais um golo nesses 15 minutos. Vi três. Os três golos com que o Vitória de Guimarães empatou o jogo. Gostar de futebol também é isto…
De regresso a Guimarães valeu-me, a mim e aos meus filhos (bem, à Marta também, embora o resultado do jogo não lhe tenha caído mal…), a melhor francesinha do mundo que jamais havíamos comido, e que nos fez sumir a azia que trazíamos do Afonso Henriques. Qual era o restaurante? O Cantinho da Paula, na Avenida Dom Afonso Henriques… Onde mais?


Licenciado em Relações Públicas e Publicidade, é autor de guiões para programas de televisão e rádio. O seu trabalho distingue-se pela sua voz e pelos textos humorísticos. Facebooktwittergoogle_pluslinkedinmail

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