Bock

Quando estava nos juniores do FC Porto, dias antes de um jogo contra o Sporting para decidir o título de campeão, fizemos uma partida a um colega que chegava sempre tarde: pusemos um balde de água em cima da porta, sabíamos que ele mal abrisse a porta ia levar com a água em cima porque vinha sempre com pressa. O curioso é que em vez de ser esse meu colega a chegar em cima da hora, eram o meu treinador e o director na altura, o mister Costa Soares, infelizmente já falecido, e o senhor Reinaldo Teles. Foram lá para nos dar uma palavra de apreço porque o jogo de domingo ia ser decisivo. Ficaram encharcados e ficámos sem palavras para aquilo que aconteceu…
Nos juvenis fomos a um torneio em Itália, que terminou numa terça-feira, e no domingo tínhamos um jogo contra o Benfica nas Antas, que por acaso acabámos por ganhar. Só que nessa semana em Itália, estávamos em Milão e aquilo era fantástico, pedimos ao treinador para sair à noite e ele não nos deixou. Então combinámos ir para a cama, esperar que fizessem a ronda e, vinte minutos depois, levantarmo-nos para irmos dar uma voltinha sem ninguém descobrir. Vestimo-nos, saímos e quando chegámos às 5 e meia da manhã estavam todos no hall de entrada à nossa espera, de perna cruzada, e nem tivemos desculpa para apresentar ao mister. Foi uma situação muito complicada para o nosso lado e só a vitória sobre o Benfica por 1-0 deu a volta a isso. Não houve multa porque não ganhávamos dinheiro nessa altura, mas levámos umas tareias valentes no treino.
Por falar em dinheiro, também temos uma história curiosa passada nos iniciados. Fomos a um torneio no Rio de Janeiro em que apanhámos uma equipa brasileira. Naquela altura os nossos equipamentos não eram o que são hoje, alguns nem marca tinham, e a outra equipa jogava de Adidas. Quando acabou o jogo trocámos de camisola com eles e quando chegámos ao balneário o nosso director obrigou-nos a ir buscar as nossas camisolas porque não tínhamos ordem para trocar. Chegámos lá e alguns jogadores já se tinham ido embora, não deu para reaver todas as camisolas, e tivemos de as pagar quando chegámos a Portugal. Nunca me tinha passado nada semelhante.
Mais tarde, já nos juniores, eu e uns colegas fomos fazer um jogo a Espanha com os seniores e fomos de estágio. Lembro-me de que ficámos num hotel no centro da cidade e durante a tarde eles começaram a atirar baldes de água para molhar as pessoas. Tivemos uma reunião com o treinador e com o director, e os seniores mandaram a culpa para o nosso lado: “A gente viu, foram os miúdos dos juniores que mandaram”. E nós muito envergonhados, quase a tremer, porque estávamos a ser acusados de uma coisa que não tínhamos feito. Quando já estávamos quase com a lágrima no olho puseram-nos à vontade e disseram-nos que era uma brincadeira para verem se os entregávamos e dizíamos quem era. Nós sabíamos quem tinha feito aquilo, mas fomos incapazes de denunciar. E aí disseram-nos: “têm personalidade e não traíram os colegas. São homens que estão preparados para dignificar um balneário e fazerem parte de uma equipa como o FC Porto”. E só aí ficámos tranquilos.
Lembro-me também de no final da época, no meu primeiro ano nos juvenis, a equipa campeã ir disputar um Mundialito de clubes à Venezuela. Chegámos lá e queríamos vir embora ao final de três dias, porque era muito calor e não gostávamos da comida. Até tivemos de tomar soro para nos habituarmos à altitude! E depois chorámos quando foi para nos irmos embora, porque foi um torneio muito acima da média. Foi uma coisa fantástica! No primeiro jogo, contra uma equipa do Equador, tívemos 10 mil pessoas a ver. Depois, como ganhávamos e os emigrantes começaram a gostar do nosso futebol, na final estavam 25 mil adeptos. Fomos campeões e foi uma coisa inacreditável. Tínhamos o Mariano, o Rui Óscar, o Hilário, o Avelino, o Madureira… O Hilário [guarda-redes] foi o que deu mais nas vistas, mas tínhamos uma boa equipa.


Fez a sua formação no FC Porto e, mais tarde, foi o melhor marcador da III Divisão, da II B e da II Liga. Actualmente joga no clube onde começou, o FC Lixa.

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