Bobó

Quando jogava no Estrela da Amadora tinha um Autobianchi, um carro italiano, pequeno, que andava à brava. Mas se desse um murro na porta o vidro caía. O Barny viu-me fazer isso, deixou-me ir treinar e eu depois era sempre o último a sair do balneário. Eles saíram, foram para o carro, o Barny lá deu um murro e aquela merda desceu. Então desengataram o carro e mudaram-me o carro de lugar. Quando cheguei, olhei para o sítio e não vi lá o carro.
– Filhos da puta! Este carro já não vale um caralho e roubam-me o carro…
Eles escondidos a olhar para mim e eu a falar sozinho. Voltei para o balneário para ir contar aos gajos e começaram-se logo a rir. Percebi logo que tinham feito qualquer merda. Depois disseram-me que o carro estava lá ao fundo. “Quem foi?” e eles nada. Peguei no Caetano e dei-lhe uma cabeçada.
– Dizes quem foi ou não?
– Foi o Barny!
O Barny meteu-se no carro e fugiu. Mas isto tudo na galhofa.
No Boavista lembro-me de um jogo na Luz em que levámos um massacre mas ganhámos 1-0, com um golo do Casaca. Eu estava a jogar e comecei a rir-me com o Caetano. Ele puxava os calções para cima, nas duas pernas, com o jogo a decorrer, e começava:
– Ó Bó, parecem índios! Não saímos daqui da área!
Houve também um Boavista-Guimarães e o Pedro Barbosa estava no Vitória. Quando eu estava bem fisicamente, o Manuel José pedia-me para jogar sozinho no meio-campo. Eu segurava ali e os outros podiam subir. E preferia jogar sozinho do que com um colega ao lado porque sabia que sozinho matava o jogo e com um colega tinha de acompanhar. E quando eu estava bem, os laterais, tanto o Caetano como o Paulo Sousa, perguntavam-me:
– Bó, posso subir?
– Podes mas tens de voltar, caralho!
Há um lance em que o Pedro Barbosa pega na bola, e ele fisicamente aguentava-se bem, era forte, passou pelo Caetano e eu fui na dobra. Fui naquela convencido de que ia tirar-lhe a bola mas ele aguentou a carga e criou perigo. O Caetano assim:
– Foda-se, Bó! Caralho, queres-me foder? Não vês que ele aguenta bem a carga?
– Deixa estar que daqui a pouco sai ele, saio eu e vamos todos para o caralho!
E foi logo no lance a seguir: peguei no Pedro e fomos parar à vedação. Tinha chovido, o terreno estava molhado, então numa dividida fui com tudo. Fiz um carrinho e eu e o Pedro fomos parar à vedação. O Pedro assim:
– Foda-se, Bobó…
– Foda-se o quê, caralho?
E desandei. Um gajo sabe quando faz borrada. Joguei na bola e foi tudo, mas mais para amedrontar. Os jogos do Boavista com o Vitória eram sempre grandes jogos.
No Bessa ganhávamos a quase todas as equipas mas num jogo contra o Chaves, em que estávamos a jogar muito bem, eles em contra-ataque chegaram aos 4-0! Ficou 4-1 para o Chaves. Acabou o jogo, entrámos todos tristes no balneário, cada um com o cesto à frente, e eu, como era normal, tinha a mania de pôr as mãos na cabeça quando as coisas corriam mal. Nisto entra o major no balneário. Foi directo ao lavatório, abriu a torneira, encheu as duas mãos de água, isto no Inverno, e atirou directo à cara. O primeiro que ele visse a olhar para ele era o primeiro que ele ia atacar. O major respirou fundo e o Nogueira é um gajo que acontece qualquer coisa e ri-se logo. Um silêncio do caraças no balneário, o Nogueira riu-se e o major:
– Estás a rir-te do quê, passarinho do caralho?
Disse isto e foi de uma ponta a outra a dar chutos nos nossos cestos. O Barny também se riu e o major começou a descascar nele também:
– Tu jogavas aqui e não ganhavas muito. Foste para o Sporting, voltaste, agora ganhas muito e não queres correr.
– Senhor major, não é para falar, pois não? Perguntou o Barny.
Aquilo foi uma coisa incrível. Outra foi o major com os treinadores. Primeiro foi com o João Alves. O Alves correu com ele do balneário.
– Fora do balneário! Fora daqui!
Ele saiu e voltou:
– Eu mando aqui.
– Sim, manda. Mas fora daqui.
E o major saiu. O Alves depois juntou o pessoal e disse que se ia embora. E foi, despediu-se. Depois passou-se a mesma coisa com o Manuel José, que também o pôs fora do balneário. Começou a dar a palestra mas o major devia ficar a pensar naquilo e voltava atrás.
– Eu é que mando nesta merda!
– Sim, você é que manda aqui. Eu quero ver é se me manda embora depois. Fora daqui!
E ele saía e voltava a entrar, umas três ou quatro vezes. Aquilo foi um calafrio mas depois não se passou nada. Isto porque o major entrou e começou a dar palpites. Na altura o Alfredo não jogava, estava como suplente do Pudar, mas o Manuel José não permitia essas coisas. Foi uma situação embaraçosa para nós, não sabíamos o que fazer. Até pensei que o Manuel se ia embora, mas não, depois passou. Com o mister tenho outra história engraçada. Foi num jogo marcante, nas meias-finais da Taça de Portugal contra o Sporting. Eu sou muçulmano, fiz o jejum. Chegou a hora do almoço, fui para a mesa à mesma mas não comi. Fazia isso durante o mês. Não sei se alguém lhe disse, mas nesse dia ele levantou-se da mesa e veio ter comigo.
– Não comes?
– Não.
– Porquê?
– Estou de jejum.
– Jejum? Estás a brincar comigo ou quê?
– Não, estou de jejum.
– Ó Bobó, estás fodido comigo. Se jogares mal, se perdermos o jogo, sabes quando é que voltas a calçar? Nunca mais calças comigo!
– Está bem, mister.
Fiz um jogo do caralho! Com raiva. Fiz um jogo do caralho. Ganhámos 1-0 em Alvalade, com um golo do Marlon, e no final do jogo disse-me que podia continuar em jejum! Fiquei amuado, fodido. Mas são coisas do futebol. Passados muitos anos, já eu era agente desportivo, estava no Vietname e liguei-lhe a desejar um bom Natal. Ele estava no Egipto. Depois levei-lhe uns jogadores ao Al-Ahly e perguntei-lhe:
– Mister, a estes muçulmanos não diz nada sobre o jejum?
– Opá, os gajos são malucos.
Bom treinador e bom homem.
Quando o Mário Reis foi para o Boavista, na primeira entrevista que ele deu disse: “o Bobó é para manter a mística”. Passados dois dias fui falar com ele:
– Mister, se estou aqui a mais vou para outro lado. Não estou aqui para manter a mística, estou aqui para jogar como qualquer outro.
Mas ele vingou-se de mim porque num Boavista-Salgueiros, estava a chuviscar e num lance em que a bola ia já a sair pela linha lateral, fiz cobertura à bola para sair para depois fazer o lançamento. Nisto o Sá Pinto veio, varreu-me os dois pés e ainda toquei na bola antes de ela sair. E disse-lhe:
– Ei, Sá! O que é essa merda?
– Vai-te foder, preto do caralho. Conheço-te de algum lado? Vai-te foder, vai para o caralho!
Isto foi junto ao banco do Salgueiros e eles começaram-se a rir. Eu virei-me e disse:
– Estão a rir mas daqui a pouco estão a chorar.
Sou muito frio a dar, mas por norma tem de haver alguma razão para eu ser agressivo. Se quiseres jogar duro jogamos duro, sem maldade. Nunca magoei ninguém na minha vida, nunca pus ninguém fora do campo a não ser nesse jogo. Então virei as costas, como se desprezasse o lance, porque sabia que a iam passar ao Sá Pinto. Ele recebeu, passou a perna por cima da bola, deixei-me ir na letra dele, tocou a bola para o outro lado e conforme viro senti mesmo o cotovelo a entrar na cara dele. Soube logo que tinha acertado em cheio. E passei logo com o pé esquerdo, entreguei a bola ao Paulo Sousa. Ele caiu, eu agarrei-lhe a cabeça, puxei-lhe o cabelo, cheio de nervos, e disse-lhe:
– Estás a ver? O filho da puta do preto fodeu-te.
Ele deu-me, fiz que me tinha atingido e ele ainda foi expulso. Parti-lhe o cano do nariz. Depois, sinceramente, estava a jogar mas não estava a jogar. Estava com a cabeça na merda que eu fiz. Nessa altura, o Mário Reis disse-me:
– Ó Bobó, fodeste-me um jogador.
– Ai é? Fodi-te um jogador? Vai para a puta que te pariu. Vai para o caralho, treinador de merda.
E ele vingou-se quando chegou ao Boavista. Nunca o confrontei com isso, só lhe disse que não estava ali para passar a mística e fazer número. E foi assim que saí do Boavista. Fui com o Marlon para o Arizona Sandsharks, indoor soccer. Aqueles americanos… Era só porrada! Ou fazias uma coisa espectacular ou então porrada!
Passei por muitas situações. Como quando comecei, no FC Porto. Quem começou a fazer estatísticas em Portugal acho que foi o professor José Neto. Na altura houve uma palestra e o falecido José Maria Pedroto chamou-o para falar e ele disse: “Bobó, 100%”. A última vez que o mister Pedroto se sentou no banco foi num jogo em Penafiel. Tive o azar de ele adoecer porque gostava muito de mim. Brincava comigo e apostava em mim. Dessa vez estagiámos no Grande Hotel do Porto e no dia do jogo ele disse ao almoço:
– Dois bifes para o Bobó!
E eu pensei: “o homem não me vai pôr a jogar. Deixa-me enfardar assim…” E papei os dois bifes. Estou sentadinho no banco, o jogo a decorrer, e eu na altura jogava a médio ofensivo. Quem me pôs depois como médio defensivo foi o João Alves, no Estrela.
– Bobó, aquece.
E eu não esperava. O estômago cheio com os dois bifes, tinha comido mesmo à brava. Perguntei se era mesmo eu.
– Há aqui outro Bobó? Aquece, caralho!
Fui aquecer e nunca mais saía do aquecimento. Estava nervoso como não sei quê. Depois chamou-me e perguntou-me se estava quente. Disse que sim.
– Olha, vais jogar a ponta-de-lança.
– A ponta-de-lança, mister?
– Sim. Não inventes, o futebol já está inventado. Chegas ali, pegas na bola, tira dos centrais e dá cacete. Quero ver-te a chutar à baliza.
Houve um lance em que lateralizaram o jogo para o lado esquerdo, desmarquei-me entre os centrais, o Vermelhinho cruzou rasteiro e fui de carrinho, já quase na linha de golo, e empurrei a bola com a sola lá para dentro. O Porto ganhou 1-0. Foi o último jogo com o mister Pedroto no banco. Fiz mais alguns jogos e voltei a marcar em Espinho, já com o mister António Morais. Entrei e disse-me para jogar a ponta-de-lança. Primeiro cruzamento, saltei e marquei de cabeça. Ganhámos 1-0. Por isso é que depois o Neto disse aquilo das estatísticas: “Bobó, poucos minutos em campo e aproveitaste-os todos. 100%”.
Depois fui emprestado. Fui a moeda de troca quando o André foi para o Porto, eu fui para o Varzim. Depois o Paquito e o Laureta foram para o Porto e eu fui para o Guimarães. Quanto a mim, foi a melhor época que fiz. É um clube que me marcou muito. Apesar de ter jogado muito anos no Boavista, claro, é o meu clube, o Guimarães marcou-me muito.


Símbolo do Boavista nos anos 90, começou no FC Porto e jogou também no Águeda, Vilanovense, Varzim, V. Guimarães, Marítimo, E. Amadora, Arizona Sandsharks e Gondomar.

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7 comentários sobre “Bobó

  1. Um Senhor jogador no meio campo do BOAVISTA. Atleta muito forte fisicamente, jogava com raça e muita vontade de ganhar cada duelo. Era um gosto ver o Bobó a povoar o meio campo e a servir este clube campeão. Espero que esteja bem. Grande Bobó.

  2. Nunca me ri tanto com um texto do Relato!! Este Bobó é de ir às lágrimas!! :)))))
    Grande jogador e grande homem, era só cacete dentro do campo mas era realmente a alma do Boavistão!

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