Artur

Eu devia ter nascido 10 anos mais tarde, era para ter nascido agora. Deus me livre, apanhei muito! Peguei Baresi, Fernando Couto, peguei esses caras todos aí. Hoje é uma garapa! Aquela nossa equipa do FC Porto hoje era campeã europeia.
O Boavista foi um clube muito especial para mim, foi onde tudo começou. Tive um grande treinador, o Manuel José, que me orientava muito, cobrava-me demais porque sabia que eu poderia ter algo para dar, e isso foi fundamental. O Boavista viu-me através de uma cassete de vídeo. Eu estava no Remo e queriam ver-me pessoalmente para confirmar se eu era o mesmo jogador que estava nessa cassete e eu falei no Remo que ia na boa, porque aquilo que jogava no Brasil ia jogar em Portugal, não tinha que inventar. O Pinto da Costa também tinha visto essa cassete e pediu ao Carlos Alberto Silva, que era o treinador do FC Porto, para me ir ver a Belém, mas o treinador disse que já tinham um avançado, que era o Paulinho McLaren, antigo artilheiro no Santos. O presidente insistiu, “vai lá ver esse garoto”, mas ele não foi.

Chego ao Boavista e participo num torneio da cidade do Porto que tinha o FC Porto, Hamburgo, Vasco da Gama e Boavista. Cheguei e vi o Boavista vencer o Hamburgo, o FC Porto venceu o Vasco e a final foi entre o Boavista e o FC Porto. O Manuel José perguntou-se se gostaria de jogar e eu falei: “estou bem, estava jogando no Brasil. Tranquilo, sem problema.” Antes do jogo o Marlon disse-me: “bola que eu pegar eu te procuro.” Respondi: “Beleza! Bola que eu pegar também te vou procurar.” Foi o meu primeiro jogo. Acabámos por ganhar esse torneio e fiz um grande golo. Fazer um golo e dar logo uma conquista, ainda por cima o Boavista nunca tinha vencido esse torneio, acabou por mudar a minha vida. Depois o pessoal do FC Porto não queria que eu assinasse pelo Boavista, diziam que tinham-me visto primeiro, mas o Boavista tinha a preferência de compra e acabei por ficar no Bessa. Foi muito bom, aprendi muito e foi um clube muito especial na minha vida.

O Marlon foi o primeiro amigo que fiz quando cheguei a Portugal. Foi um cara que me ajudou demais, um amigão mesmo! E ainda coincidimos com o Ricky no ataque do Boavista. É engraçado, conquistámos uma Supertaça, frente ao FC Porto, nas Antas, e o Manuel José botou o time fechado, só com o Ricky na frente, eu e o Marlon no banco. Estivemos aguentando até que o FC Porto fez o 1-0. Nós entrámos e ganhámos 2-1, eu fiz um golo e ele outro. Tínhamos uma equipa difícil, o FC Porto não ganhava à gente. Fazia quase sempre golos ao FC Porto.

E tinha um paizão no Boavista! O major Valentim Loureiro era mais do que um presidente para mim. Foi uma pessoa que me ajudou muito. E a minha ida para o FC Porto foi uma decisão dele também, até porque tínhamos várias propostas de clubes do estrangeiro e ele aconselhou-me a ir para o FC Porto. Dizia que tinha de sair de Portugal sendo campeão e, graças a Deus, isso aconteceu. No FC Porto fui campeão nacional, disputei a Champions e tive um reconhecimento maior no Brasil.

Um episódio que marcou a minha carreira foi a minha estreia na Champions, contra o AC Milan, no San Siro. Ganhámos 3-2, dois golos do Jardel e um meu. Enfrentei jogadores que só via pela televisão quando estava aqui na minha cidade, em Rio Branco, e depois estive ali ao lado de Maldini, Baresi, Roberto Baggio, George Weah… O Milan tinha um timaço e logo na estreia na Champions marquei um golo. Lembro-me que os meus amigos queriam agarrar-me e eu só queria correr! Foi uma alegria muito grande, marcou-me demais.

Lá no FC Porto tínhamos as nossas brincadeiras, a gente aprontava muito. Tínhamos uma poltrona muito grande e quando chegava um jogador novo ele era convencido a sentar-se lá. Todo o mundo ficava ao redor dele à conversa, ele estava ali sentado e despejavam um balde de água gelada em cima do cara! Geralmente quem fazia isso era o Paulinho Santos ou o João Pinto. Quando chegava um jogador novo já sabíamos que ia haver esse banho.

No Boavista, nos dias de banhos e massagens, na sauna, a gente jogava água gelada no Bobó e ele ficava louco! Não suportava água gelada, saía correndo atrás de nós e quando pegava a gente dava cabeçadas! A gente divertia-se, mas tínhamos de jogar e correr, porque se ele pegasse, meu amigo…

Tive jogos fantásticos no FC Porto, como o 5-0 na Luz, na decisão da Supertaça. Foi um jogo perfeito, tudo o que fiz deu certo. Tive a nota máxima nos jornais e marcou-me muito porque no final do jogo fui ao controlo anti-doping e no caminho passei pelo treinador do Benfica, Paulo Autuori, pelos dirigentes e recebi os parabéns do maior jogador que Portugal teve, o Eusébio. Você chegava ao Estádio da Luz, via a estátua e sabia o que ele representava, até porque tive oportunidade de ver os vídeos dele. Quando estávamos em viagem, principalmente quando jogava no Boavista, víamos uma cassete dele que mostrava os golos que ele fazia e a gente brincava muito com isso. Então quando um jogador chutava de longe, a gente falava logo: “’tá bom, Eusébio.”

Além do grande jogo e do golo que fiz, foi especial receber os parabéns do maior jogador português de todos os tempos. Essa imagem fica gravada na minha mente para o resto da vida. Quando chegas perto de uma pessoa que foi o máximo tu abalas, tu tremes, e isso marcou-me muito até porque eu era para ter sido jogador do Benfica e não fui por causa de uma briga com os dirigentes do Boavista, depois de uma discussão do Gaspar Ramos com o major. Tinha tudo acertado para ir para o Benfica. O Paulo Autuori e o Toni foram ao Porto conversar comigo e eu fiquei muito feliz, era um treinador com o qual gostaria muito de ter trabalhado, mas depois houve esse problema e eu acabei por ir para o FC Porto. É porque não tinha de ser. E depois ganhar lá aquela Supertaça foi muito especial.


Chegou a Portugal em 1992 e, em quatro épocas no Boavista, marcou 56 golos. Foi para o FC Porto onde venceu três campeonatos, uma Taça e três Supertaças antes de regressar ao Brasil.

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4 comentários sobre “Artur

  1. Grande jogador, suas jogadas e gols ainda são lembrados aqui no Clube do Remo. Não é a toa que seu apelido, dado pela torcida azulina, é “Rei Artur”.

  2. Lembro-me de ir às Antas, num jogo em 1998, frente ao benfica, em que o Artur saiu do banco para fazer dois golos e o resultado, 2-0.

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