Armando Sá

Passei por muitas coisas, coisas bonitas, coisas tristes. Uma das que me marcou bastante foi a passagem pelo Irão, onde acabei a carreira, depois de ter jogado em alguns países europeus. Uma vez estava em casa, a ver o Carnaval na Record, começam as notícias e de repente o apresentador diz: “daqui a dois dias os Estados Unidos vão atacar o Irão”. Eu sentado na sala, queria ir-me embora, entrei logo em pânico. Liguei para pai, mãe, mulher, telefonei para todos, desesperado, a despedir-me.
Nem consegui dormir e no dia a seguir chego ao treino e vejo o pessoal animadíssimo, um treino normal, e eu a perguntar: “Vocês não viram as notícias?”. E os gajos a perguntarem quais notícias. Eles não vêem nada, nem têm noção do que se passa fora do país deles. Mas na verdade nunca chegou a acontecer nada.
Depois há outras coisas invulgares: no balneário eles tomam banho vestidos, todos tapados, com a toalha enrolada e de cuecas, tem a ver com a cultura muçulmana. Eu, habituado aqui, ia todo nu e eles a dizer “isso não é permitido” e eu a olhar para os gajos.
A cultura é totalmente diferente da nossa, são coisas giras que me marcaram. Coisas do outro mundo. Matavam um cabrito para dar sorte e antes de entrar em campo tínhamos de pisar o sangue. Normalmente gostamos de entrar com as botas limpinhas e olha… A época correu bem, fomos campeões, não sei se foi daquilo ou não. Mas tínhamos uma boa equipa.
Com o álcool era outra. Não se pode beber, as garrafas vinham enterradas, ficavam cheias de areia e tínhamos de limpá-las. Foram experiências únicas. E cada vez que chegas lá o passaporte fica retido. Faleceu um familiar da minha mulher e ela tinha de viajar com urgência. Fui pedir o passaporte e eles começaram a dizer que tinha de ter o visto e tal, “avisasses antes”. Como é que eu ia avisar que a pessoa vai morrer? Coisas sem sentido, que na altura chateavam mas agora dão vontade de rir.


Internacional moçambicano, jogou na I Liga no Rio Ave, Sp. Braga e Benfica antes de emigrar. Esteve em Espanha (Villarreal e Espanyol), Inglaterra (Leeds United) e terminou no Irão, em 2011.

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