António Tadeia

A final da Liga dos Campeões de 1999 não foi só um dos mais épicos jogos de futebol de que há memória. Para mim foi duplamente especial porque foi uma das que pude acompanhar in-loco, em Barcelona. Foram uns dias preenchidos, que incluíram o desfile com o qual o FC Barcelona celebrou o título espanhol, acabado de conquistar, mas sobretudo o jogo entre o Manchester United e o Bayern Munique.
Isto pode não ser fácil de explicar para quem vive na Aldeia Global de hoje, mas há 15 anos as facilidades de comunicação não eram o que são hoje. Já não sou do tempo dos ditados feitos ao telefone para a redação – embora, no meio da guerra da ex-Jugoslávia, numa saída a Split com o Benfica, tenha ficado num hotel com uma linha telefónica para todos os jornalistas da comitiva portuguesa – mas naquela altura não havia a capacidade para se escrever diretamente em página desde o estrangeiro. Nem internet em todo o lado. Muito menos wi-fi.
Esse Manchester United-Bayern acompanhei-o para o Record e, à chegada à tribuna de imprensa verifiquei que tinha a linha telefónica fixa pedida pela secretária de redação. Seria por ela e através do indispensável modem que iria enviar os meus textos no final do jogo. Tinha tempo, que o fuso horário, nestas coisas, funciona sempre a nosso favor, pelo que me sentei tranquilamente a ver o jogo e a tomar as minhas notas. À minha frente estava um belga, do “La Dernière Heure”, muito mais atarefado: na terra dele o jogo acabava às mesmas 22h30 que em Espanha e o jornal era um generalista, que não podia esperar muito pelo trabalho dele para fechar a edição.
O Bayern marcou cedo, por Basler. E a meio da segunda parte já o belga escrevia furiosamente, debitando caracteres a um ritmo que o impedia de ver o jogo em condições. A dada altura voltou-se para trás e pediu-me:
– No final não te importas que use a tua linha para enviar o texto?
Respondi-lhe que estivesse à vontade e não resisti a ver o que estava ele a escrever. Era uma coisa acerca da despedida amarga de Schmeichel, que ia deixar o United perdendo a Liga dos Campeões (e nessa altura ainda não se sabia que ele viria parar ao Sporting). Quando Pierluigi Collina começou a dar o tempo de compensações, ainda com 1-0, o belga voltou-se para trás e começou a tentar estabelecer a ligação para enviar o texto. Nessa altura: bum! Golo de Teddy Sheringham. Um a um e o trabalho todo para o lixo. O belga ficou com uma cara tão desiludida como qualquer adepto do Bayern. Fez um sorriso amarelo e disse-me:
– Ao menos terei mais meia hora de prolongamento para pensar noutro texto.
E assim que acabou de o dizer: bum! Golo de Solskjaer. Dois a um para o United. Lá se foi a meia-hora de lastro. Por essa altura estava o presidente da UEFA, Lennart Johansson, a sair do túnel para o relvado, para onde se dirigira uns minutos antes com o intuito de entregar a taça a Oliver Kahn, capitão do Bayern. Diz quem com ele estava que quando olhou para a festa dos jogadores do United nem acreditava no que estava a ver. Mas a tarefa de Johansson era fácil: tinha de entregar uma taça, dar os parabéns aos vencedores e uma palavra de conforto aos vencidos. Até hoje estou para saber como se desenrascou o meu colega belga.


É jornalista desde 1989, quando iniciou a carreira no Expresso. Também marca presença de forma assídua como comentador na RTP, com quem colabora há mais de oito anos.

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